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Filme sobre best-seller de Piketty é voo sobre história da desigualdade

Baseado em livro do economista francês, documentário é mais uma experiência bem-sucedida de tentar digerir obras econômicas numa linguagem acessível

O Capital no Século 21

Baseado no livro homônimo do economista francês Thomas Piketty, o documentário “O Capital no Século 21” é mais uma experiência bem-sucedida de tentar digerir obras econômicas importantes numa linguagem acessível e popular, empacotadas para a atual geração Netflix.

Um dos pioneiros nesse campo foi "A Ascensão do Dinheiro”, inspirado no livro “The Ascent of Money" (2009), do professor de Harvard Niall Ferguson.

Transformado em série de vários capítulos para contar a peculiar evolução do capitalismo, a maior parte de seu conteúdo está disponível na internet e vale ser vista.

No caso do livro best-seller de Piketty, de 2013, a edição impressa no Brasil dispõe de 669 páginas e de dezenas de tabelas e gráficos para relatar parte da história do capitalismo global e da concentração de renda que marca os dias atuais.

Cena do documentário "O Capital no Século 21", baseado na obra do economista francês Thomas Piketty - Reprodução

Trata-se de uma obra monumental que qualificou muito da discussão sobre a desigualdade de renda que vem dominando a agenda de economistas, políticos e jornalistas.

Ao lado dos livros “Desigualdade Global” (2016), de Branko Milanovic, e “A Grande Saída” (2013), de Angus Deaton, “O Capital do Século 21” não apenas rendeu fama a Piketty como projetou para o mundo seu trabalho sobre desigualdade na Escola de Economia de Paris —onde uma equipe cria plataformas acessíveis a todos sobre o tema.

No filme, o diretor Justin Pemberton se vale principalmente de Piketty como guia, mas traz também convidados de peso, como Francis Fukuyama e Joseph Stiglitz, além de jornalistas, para dar um panorama mais “pop" ao assunto.

Intercalada com imagens históricas de arquivo, trechos de filmes e algumas músicas conhecidas, a narrativa de 1h e 40 minutos resulta leve e informativa.

Assim como no livro —e na obra mais recente de Piketty, “Capital e Ideologia” (2019)—, o documentário se vale dos grandes eventos da história e de suas diversas configurações econômicas para mostrar de onde partimos e para onde estamos caminhando.

Há um voo panorâmico desde a nobreza e o feudalismo até o hiper capitalismo financeirizado dos dias atuais, passando pelos períodos de revoluções e guerras que marcaram os últimos três séculos da humanidade.

Uma das principais conclusões, já conhecida pelos que acompanham o assunto, é que o mundo tem hoje uma configuração muito semelhante à do início do século 20. A desigualdade de renda entre os países é cada vez menor; mas a interna, dentro de cada país, cada vez mais elevada.

As razões para isso seriam, de um lado, a ascensão dos países asiáticos, que tornou o mundo mais homogêneo; de outro, as economias voltadas com mais prioridade aos bancos e a produtos financeiros, e não à produção física, o que favorece os detentores do capital.

Estimativas dão conta de que apenas 15% do dinheiro que circula atualmente nos mercados financeiros e nos bancos acaba financiando atividades produtivas. O grosso, portanto, giraria em falso em produtos cada vez mais sofisticados e opacos que favorecem quem participa do jogo.

Outros aspectos da concentração de renda, bastante abordados no documentário, são a existência de paraísos fiscais cada vez mais utilizados por grandes empresas como sedes para pagar menos impostos e a baixa tributação, na maioria dos países, sobre heranças —o que perpetua a concentração do capital nas mesmas famílias.

Apenas nos Estados Unidos, estima-se que a chamada geração dos "baby boomers”, nascida após o fim da Segunda Guerra, transferirá cerca de US$ 12 trilhões a seus filhos nos próximos 10 a 15 anos, quando muitos nascidos a partir de 1946 estiverem morrendo.

Piketty escreveu “O Capital do Século 21” antes da ascensão de políticos populistas como Donald Trump, nos Estados Unidos, e Boris Johnson, no Reino Unido, entre outros.

Eles são vistos como produtos de sociedades inconformadas, que há quatro décadas vivenciam estagnação ou perda de renda na base —e concentração no topo.

No documentário, essa conexão aparece, assim como a apresentação de algumas possíveis soluções contra a desigualdade extrema, como taxação progressiva sobre o capital e heranças e uma regulamentação global, com todos os países envolvidos, para eliminar paraísos fiscais.

No fechamento do filme, Piketty ressalta que há soluções possíveis, mas que o desafio é tanto político quanto intelectual. Ele se diz otimista. Em sua opinião, a história mostra que o mundo sempre busca sociedades “coerentes, pacíficas e harmoniosas”.

Infelizmente, como várias das imagens do documentário nos lembram, isso muitas vezes só ocorre após períodos de grande insensatez, traumas e brutal sofrimento.

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