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Movimento Black Money investe em marketplace com mais de 500 negócios fundados por negros

Projeto atua como fintech com maquininha de cartões própria, a Pretinha, e lançará cartão de crédito em 2021

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Porto Alegre

Fazer o dinheiro ganho por famílias negras ser gasto em negócios de outras famílias negras é um dos objetivos do Movimento Black Money (MBM). A ideia é manter o dinheiro o máximo de tempo possível circulando dentro das comunidades negras, em todos tipos de negócios, de vestuário até aulas de inglês, por exemplo.

Por isso, o movimento criou um marketplace, nos moldes daqueles oferecidos de grandes do varejo como Magazine Luiza e Americanas, onde reúne parceiros que vendem seus produtos e oferecem seus serviços. Segundo o MBM, a população negra movimentou R$ 1,9 trilhão do PIB (Produto Interno Bruto) do país em 2019.

Desde março, quando o marketplace foi lançado, já são mais de 500 negócios na plataforma. Há uma variedade de produtos e serviços, como toucas de natação para cabelos afro até mentorias para executivos. O faturamento já passou de R$ 300 mil. São 12 colaboradores diretos no hub de inovação que inclui ações sociais, comunicação e marketing, tecnologia e finanças.

“O empreendedor negro encontra no marketplace uma solução para suas vendas. Mesmo aqueles que já vendem online podem encontrar vantagens, como o potencial de atração de novos clientes, ampliando sua capacidade de venda e organizando sua gestão financeira”, explica Alan Soares, 39, CSO (Chief Strategy Officer).

Para expor seus produtos no marketplace os empreendedores negros não precisam pagar nenhuma taxa. O MBM alcança cerca de 100.000 pessoas mensalmente, segundo os fundadores, por meio de conteúdos educativos e de divulgação.

“O marketplace tem de tudo, de produtos eróticos a cursos de filosofia africana. O nosso intuito é realmente oferecer tudo. Se uma pessoa pretende pretende vender aulas de Yoga, presenciais ou pela internet, ou revender produtos Jequiti, pode anunciar na loja dela”, explica Soares.

O Movimento Black Money surgiu a partir da compreensão de que, além da pauta do racismo, o afroempreendedorismo também deveria ganhar visibilidade.

“O MBM surge de uma necessidade de discutir um ecossistema produtivo negro de inovação e criar uma cadeia produtiva onde negros e negras sejam donos dos meios de produção. Por isso, atuamos também no campo da educação para conscientizar sobre a necessidade de investimento intencional na comunidade negra”, diz Nina Silva, 38, presidente do MBM.

Três mulheres sentadas em um sofá
Nina Silva (de vermelho), presidente-executiva do Movimento Black Money, com Lana Ramos (de preto) e Bea Andrade, também do grupo - Karime Xavier/Folhapress

O projeto foi criado em 2017 por Silva e Soares. Antes, ela atuou 17 anos na área de tecnologia e ele trabalhava como trader. “Eu não encontrava meus pares nos lugares que ocupava. Mesmo com oportunidade de liderança e trabalho fora do país, não tinha o reconhecimento em folha salarial. Eu questionava se a tecnologia poderia ser mais inclusiva”, relembra Silva.

“O Alan trabalhava como trader e educador financeiro. Ele enfrentava da questão racial no sistema financeiro. Assim, enveredamos por esse mundo de tecnologia e finanças para empoderar a comunidade negra”, conta Silva.

O Movimento Black Money tem sua própria maquininha de cartão, a Pretinha. As pretinhas já funcionam em afronegócios de dez cidades brasileiras. Para 2021, o plano é lançar o próprio cartão de crédito, funcionando com as bandeiras tradicionais, e as contas digitais do D' Black Bank.

“O Black Bank é uma fintech. A ideia é que, com o tempo, possa se tornar efetivamente um banco. Além da Pretinha, que é subsidiada, os afroempreendedores que solicitarem o cartão de crédito não terão anuidade. O intuito é levar os serviços finaceiros aos negócios negros com o menor custo possível”, diz Soares.

Em um primeiro momento, estes serviços miram a comunidade negra e uma possível abertura, com menos benefícios, é estudada para o público geral, ainda sem previsão de lançamento.

Consumir produtos de negócios negros cria demanda. Com a demanda, surge a oferta e assim por diante, defende o fundador. “Se um milhão de pretos querem comprar calças jeans de produtores pretos, vai aparecer muito preto produzindo calças jeans. Se tiver a intencionalidade de direcionar o dinheiro para a comunidade negra, vai aparecer preto abrindo farmácia, fabricando perfume”, analisa o CSO.

Para ele, mesmo que esses negócios fiquem em bairros distantes do consumidor, por exemplo, se houver a intenção de direcionar a compra, até mesmo um serviço de delivery negro pode surgir como oportunidade de entrega de mercadorias.

O MBM entende que é importante manter o dinheiro circulando na comunidade negra pelo maior tempo possível. Silva cita dados que constam no livro “ Our Black Year: One Family's Quest to Buy Black in America's Racially Divided” (Nosso Ano Negro: A Busca de Uma Família para comprar preto na América Racilamente Dividida), da norte-americana Maggie Anderson.

“Um estudo aponta que um dólar permanece circulando na comunidade negra por 6 horas, na comunidade latina, por sete dias, na comunidade judaica, 19 dias, e na comunidade asiática, 28 dias. Destacamos as comunidades judaica e asiáticas porque essas duas passaram por guerras e genocídios, assim como a comunidade negra no Brasil e mundo”, explica Silva.

Embora não haja dados sobre quanto tempo o dinheiro permanece nas comunidades negras brasileiras, o objetivo é fazer com que permaneça mais tempo.

Durante a pandemia, o MBM criou um fundo de impacto social com aporte privado da B3 e doações da sociedade civil. O Impactando Vidas Pretas auxiliou 400 famílias, metade lideradas por mães solo e a outra metade lideradas por afroempreendedores. O projeto entregou renda básica durante três meses.

“Durante a pandemia, mesmo antes do caso do George Floyd, sabíamos que seriam tempos muito difíceis para a comunidade negra. Só sairemos da crise se impulsionarmos a economia, principalmente a economia circular, criativa e comunitária”, diz Silva.

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