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'Bossa Nova é uma máquina de investimentos em startups', diz Pierre Schürmann

Fundo de R$ 9 bi já investiu em mais de 500 negócios, e setor vive onda de aportes graças ao crescimento do venture capital, afirma empresário

São Paulo

Pierre Schürmann cresceu em um barco, aprendeu a programar em terra firme, lançou um dos sites mais populares do Brasil nos primórdios de internet e, cinco empresas depois, criou o fundo de venture capital com o maior portfólio da América Latina.

A gestora Bossa Nova Investimentos, fundada por ele em 2011, conta com um fundo de R$ 9 bilhões e já investiu em mais de 500 empresas. O plano, diz Schürmann, é chegar a mil até 2025, mas ele acredita que, no ritmo atual, o fundo deve bater a meta em dois anos.

"A Bossa é uma máquina de fazer investimentos em startups", diz o empresário, que atribui o bom desempenho a uma evolução inesperada do mercado de venture capital no Brasil.

Pierre Shurmann, fundador da Bossa Nova Investimentos e atualmente presidente-executivo da Nuvini - Adriano Vizoni/Folhapress

RAIO-X
Pierre Schürmann, 42
Fundador e membro do conselho da Bossa Nova Investimentos, presidente-executivo da Nuvini, grupo de empresas SaaS (Software as a Service). Antes, fundou o Zeek (1997), que se tornou o segundo maior site brasileiro de buscas, a incubadora idea.com (2000), e a agência de marketing Conectis (2004).


Ele projeta uma nova onda de investimentos, bem maior que as anteriores, graças a uma nova geração de potenciais empreendedores. Esse grupo tem outra visão, afirma, porque presenciou o nascimento dos atuais unicórnios brasileiros —as startups que valem mais de US$ 1 bilhão.

Contribui também o ambiente inédito de juros baixos no Brasil.

"A próxima onda que vem aí é com Selic a 2%, capital infinito para tecnologia, plataformas enormes para distribuição, e pessoas que vivenciaram, viram ser possível tirar empresa do zero, com dez pessoas numa sala, e ir a 2.000 em quatro anos", afirma Schürmann . "Essas pessoas vão dizer: 'acho que vou empreender também."

Primogênito da família Schürmann, conhecida por dar a volta ao mundo em um veleiro, ele celebra hoje conseguir dar entrevistas inteiras sem lembrar o fato. "Antes só falavam disso: como foi sua vida no barco?".

Desde novembro, ele atua como membro do conselho de administração da Bossa Nova e se dedica a um novo empreendimento, o seu sétimo: a Nuvini, que realiza investimentos em empresas de software. A Nuvini detém hoje um capital superior a R$ 100 milhões para adquirir negócios de alto crescimento. O plano é fechar a aquisição de até 80 empresas até o final de 2022 e atingir a receita de R$ 1 bilhão até 2025.

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Como surgiu a Bossa Nova?

Em 2000, eu tinha feito investimentos em startups no Brasil junto com um fundo americano, e queria voltar a investir, mas comecei a Bossa de forma tímida. Os primeiros cinco anos foram basicamente com capital próprio e alguns amigos co-investindo.

Em 2015, 2016, eu trouxe como sócio o João Kepler, que já era investidor-anjo, e decidimos expandir e acelerar o negócio. João é o alterego da Bossa, está mais na mídia, eu sempre fui mais offmedia. Então, a Bossa teve dois ciclos e está tendo o terceiro agora.

Sabia que poderia ser grande, mas não tinha ideia do que poderia chegar até aqui.

E como vocês foram disso para se tornarem os maiores investidores do Brasil e da América Latiana?

Não foi por acaso que nosso portfólio se tornou tão grande, pois tínhamos uma meta ambiciosa, mas como nos tornamos os maiores foi por acaso.

Olhando alguns fundos americanos, entendemos que era mais fácil adaptar o que já existia e funcionava bem. Fomos buscar um fundo americano chamado SV Angel, que é um fundo super bem-sucedido, tem hoje mais de 900 empresas investidas, e então decidimos que íamos fazer mil investimentos em startups no Brasil.

É um desafio gigante, achamos que ia demorar um pouco mais, mas estamos perto. Acabamos conseguindo criar um efeito, uma espiral virtuosa, em que trazemos mais empreendedores, mais investidores e isso foi se alimentando e acelerou nosso processo de crescimento.

A Bossa foi minha quinta empresa, havia poucos concorrentes na época, e houve uma enorme mudança em venture capital, ninguém podia prever que o mercado estaria desse tamanho.

Em 2015, o mercado de venture capital deveria ser praticamente do tamanho da rodada da [startup de marketplace] Olist, que acabou de levantar capital de mais de R$ 300 milhões. O ano inteiro, o mercado inteiro, era equivalente a rodada de investimento de uma empresa no mês de novembro hoje. Decidimos seguir um rumo e chegamos mais rápido do que imaginávamos.

Por que mil empresas? Como chegaram a esse número?

Tem um embasamento técnico, por incrível que pareça. Existe nos EUA uma entidade chamada Kauffman Foundation, responsável por medir os resultados dos fundos de investimento, e também de anjos. Em 2015 eles fizeram a primeira pesquisa sobre investimento no estágio em que a Bossa investe, o pré-seed, que é depois do anjo.

Eles chegaram à conclusão de que se você conseguisse investir em mais de 600, 700 empresas, conseguiria ter o retorno médio de duas a três vezes do capital investido. que foi o que a Bossa construiu.

Quando esperam atingir essa marca?

Tínhamos uma visão inicial de 2025, e já era super próximo. Acho que, potencialmente, conseguimos chegar antes, pelo ritmo de investimento que a Bossa está fazendo, pelo número de bons empreendedores que existem no Brasil hoje, com o surgimento de muitos negócios bem legais em tecnologia, software, crescendo a fatia no PIB, acho que tem potencial muito bom para que a Bossa chegue a seus mil investimentos antes de 2025.

Algum ano específico?

Acho que em 2022 a gente chega lá. A Bossa é uma máquina de fazer investimentos em startups.

Quais são os critérios do fundo para fazer investimentos?

A Bossa investe em B2B [sigla em inglês para empresas dedicadas a fornecer soluções para outros negócios, e não para o consumidor final], software em tecnologia e software em internet, e que já estejam faturando.

Não investimos em ideia, em negócios recém-começados. Tem hoje anjo para fazer isso, outras iniciativas e partes do ecossistema que atendem muito bem esse empreendedor e essa empreendedora.

Qual costuma ser o tamanho do aporte que a Bossa faz?

Acho que investimos em torno de R$ 300 mil a R$ 500 mil iniciais. A Bossa participa geralmente também dos outros estágios de investimento. Geralmente somos o primeiro cheque e, depois, acompanhamos o ciclo todo de investimento, a medida que o negócio cresce e faz sentido entrar nos follow-ons [ofertas seguintes de ações].

Quando esse ciclo se encerra para a Bossa Nova?

Se encerra de algumas formas. A mais positiva é quando a empresa é adquirida - alguém compra. A segunda é quando existe uma rodada de investimentos que tem um fundo maior, entra uma Kaszek, um SoftBank, fundos que compram investidores pequenos para dar uma arrumada na base societária. O contraponto é quando as coisas não dão certo, o negócio fecha e temos o chamado "ride off", perdemos o capital investido lá.

Com que frequência isso acontece?

Hoje temos algo em torno de 40 empresas que não deram certo. A frequência depende de uma série de fatores: de quem está investindo, quem está acompanhando, mercadologicamente falando. Você tem gente que fez quatro investimentos e três deram errado. Nosso diferencial é que temos uma experiência: quanto mais investimento você faz, melhor você analisa, melhor seu filtro, melhor o investimento que você atrai. A gente é um pouco fora da curva se olhar a base do mercado.

O que buscam na hora de formar o portfólio?

Temos algumas verticais: edtech, fintech, esportes, saúde, entre outras. E o que define é que trazemos parceiros, sócios, que entendem das verticais. Na educação, nosso sócio é o Janguie Diniz, dono da Ser Educação. Em esporte, tem o Thiago [Pereira], campeão olímpico, além de outros dois. A gente não tem necessariamente profundidade de conhecimento, mas temos sócios nessas verticais, eles são responsáveis por analisar e atrair.

No horizontal, olhamos negócios em mercados que tenham tamanho relativo grande, B2B, e que também tenham times com capacidade de fazer esse negócio crescer. A capacidade do time de conseguir se adaptar, ainda mais no Brasil, e ainda mais nesse ano historicamente atípico, é mais importante do que o produto inicial.

Porque o produto inicial, quando a gente investe, ele é meio cru ainda. Ele funciona, caminha, não muda radicalmente, mas vai se ajustando, se adaptando. Mas a capacidade desse time de identificar as mudanças e decidir para onde precisam ir rapidamente, para não ir longe e depois não conseguir voltar, somada à capacidade de conseguir comunicar isso para seus clientes e investidores, e com tudo isso crescer o negócio, é um diferencial mais importante.

Como identificar uma boa equipe?

Um bom time precisa entender a fundo o mercado de forma geral, e como essa solução atende o mercado. Não adianta criar um superproduto que não é a dor do mercado. Também precisa entender o tamanho do mercado e como chegar nele. Por fim, como comunicar.

Os bons times têm a visão do todo, a capacidade de entender onde começa, entender o que precisa fazer para ter diferencial competitivo e quais são as próximas etapas. Esse é o sonho de consumo. Nem todos os times tem isso, mas quanto mais próximo desse entendimento e produto, mais assertivos ficamos no investimento.

Como vê o mercado de startups hoje no Brasil em comparação a quando começou?

O mercado viveu algumas fases. Começou em 2008, com a ida do Buscapé para a Naspers, gerou um momento de euforia. Aí veio 2014, que ninguém sabia o que ia acontecer, mas gerou uma safra de excelentes empreendedores, como o Nubank, Créditas, RD Station. Era uma época que não tinha dinheiro, e você precisava ir lá, fazer acontecer sem capital.

De lá para cá, o conhecimento subiu muito. As plataformas de distribuição de tecnologia aumentaram através do mobile, o que impulsionou muito o acesso e a capacidade das empresas de distribuir conteúdo e vender.

Tudo isso, ainda, sem capital no mercado. Até 2017, se você falasse com os gestores de venture capital, eles iriam te dizer que era muito difícil levantar dinheiro. Bons gestores suavam para conseguir levantar R$ 30 milhões, 40 milhões, 50 milhões no fundo, não era nem em uma rodada, mas no fundo. E aí houve um boom em venture capital, e isso passar a ser algo super importante. Começaram a surgir os unicórnios e algumas empresas cresceram.

Para Schürmann, próxima onda de investimentos em startups será ainda maior - Folhapress

Como isso impactou o ecossistema?

Tem dois fatores: um deles são as ferramentas que permitem chegar aos desbancarizados, que não tinham acesso ao sistema financeiro, tinham dificuldade para realizar pagamentos. Tudo isso tem um impacto muito grande na base de consumidores. Esse é um ponto importante de nivelação. Antes só os grandes tinham e, agora, alguém no Amapá tem acesso.

Segundo é que os unicórnios deram visibilidade aos grandes fundos, às grandes fortunas.

E o terceiro é que as empresas que cresceram muito, como a Loggi, que foi de 20 para 2.000 colaboradores, gerou e capacitou muitos potenciais empreendedores do futuro. Quem começou na Loggi viveu dentro de um unicórnio, e se essa pessoa tiver um espírito empreendedor, pode montar seu negócio.

E qual é a próxima etapa?

A próxima onda que vem aí é a da Selic a 2%, com capital infinito para tecnologia, plataformas enormes para distribuição, e pessoas que vivenciaram, viram ser possível tirar empresa do zero, com dez pessoas na sala, e ir a 2.000 pessoas em quatro anos, e podem dizer "acho que vou empreender também".

Essa nova onda vem de pessoas que não necessariamente foram empreendedoras no primeiro ciclo das startups no Brasil, mas estão prontas. Se reúnem com outras duas ou três pessoas de outras empresas e vão criar grandes soluções. A próxima onda que vem aí é muito maior do que a que gente viveu. Milhares e milhares de pessoas, que foram contaminadas, viram que é possível, e com o capital todo que vem aí, elas vão dar uma empurrada muito forte.

Quais são os maiores obstáculos no país para isso?

Não gosto de falar do governo, mas poderia facilitar um pouco. Você fala com alguns fundos, investidores lá fora, eles não conseguem entender como você consegue perder mais do que o capital que investiu.

Eu investi R$ 1.000, mas se a empresa tiver R$ 3.000 trabalhistas, posso perder isso além dos que eu investi. Mudou, está ajustando, mas a segurança jurídica é um ponto. Se fala muito de incentivo fiscal também, de buscar formas alternativas. Eu acho que isso tem um peso. E o terceiro é abrir e fechar empresas. Eu tive sete empresas na minha vida. Teve uma que demorou oito anos para eu conseguir fechar. Hoje está um pouco mais fácil.

Que setores considera promissores ou importantes de se investir agora?

Acho que tem uma série de setores. Você tem negócios que são macroeconomicamente importantes e relevantes, como fintech, saúde, em educação tem um movimento interessante, começando a gerar tração relevante. Outra área é a de digitalização da relação dos cidadãos com o governo. Tem parte que o governo está fazendo, mas tem muitas oportunidades para se trazer mais transparência e agilidade. O setor público está tentando, mas startups conseguem criar essa conexão de forma mais leve, sem tanta regulamentação, burocracia e politicagem.

Acho também que tudo que é agro tem potencial. O Brasil é um país agrícola. É o maior celeiro do mundo, o maior produtor agropecuário do mundo, então tem muito que a tecnologia pode crescer, e nem começamos a engatinhar nessa área.

Por último, o entretenimento, e não só de Netflix, mas games, esportes. No Brasil estamos falando do Flamengo, do Santos, mas a galera que vem ai está em outra pegada. Precisamos criar o Minecraft brasileiro, oportunidades de entretenimento no Brasil de forma mais ampla.

Como acha que a pandemia afetou esse ecossistema?

Tem alguns pilares. Quem dependia muito do mundo tradicional sofreu demais. Por outro lado, algumas empresas que já existiam se tornaram agentes transformadores desse movimento de digitalização, como uma Vtex, outras plataformas, de compras online, de acompanhamento de times remoto, como o Slack, o Zoom.

O terceiro grupo reúne empresas que viram um problema e criaram soluções. Viram que vinha uma crise, e se perguntaram como poderiam aproveitar: o que podemos fazer para atender essa dor? A pandemia não é equânime. Tem quem já estava aqui e está surfando, e quem começou agora. O tempo dirá, depois que as coisas estabilizarem, se ela vai continuar.

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