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BC revisa para baixo projeção de crescimento do PIB em 2021 para 3,8%

Autoridade monetária reconheceu que o choque de preços recente foi mais forte que o previsto

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Brasília

Ainda com incertezas sobre a evolução da pandemia do novo coronavírus no próximo ano, o BC (Banco Central) revisou, nesta quinta-feira (17), a projeção de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) em 2021.

Para a autoridade monetária, a atividade deve se elevar em 3,8%, 0,1 ponto percentual abaixo do estimado em setembro.

O BC também ajustou a estimativa para a retração da atividade em 2020 e vê queda de 4,4%, ante 5% do relatório de inflação anterior.

"Em parte, essa revisão [da projeção de 2021] reflete a antecipação da recuperação econômica esperada, ao menos para alguns setores e componentes da demanda, para o ano de 2020. Por outro lado, o menor crescimento trimestral também é consequência da recuperação mais lenta do mercado de trabalho e dos índices de mobilidade”, diz o BC no documento.

Sobre a retomada, o diretor de Política Econômica, Fábio Kanczuk afirmou que teve formato em V (com queda acentuada e retorno na mesma velocidade). "Esperávamos que fosse mais parecida com o símbolo da Nike, um swoosh [retorno mais lento], mas a volta foi mais rápida", disse.

A autoridade monetária reafirmou que a perspectiva leva em conta a continuidade do processo de reformas em tramitação no Congresso e "ajustes necessários na economia brasileira", que o BC considera "condição essencial para permitir a recuperação sustentável da economia".

Para a inflação, a projeção central do BC é de 4,3% para 2020, 3,4% para 2021, 3,4% para 2022 e 3,3% para 2023. A estimativa leva em conta a taxa de câmbio constante R$ 5,25 e a taxa básica de juros (Selic) a 2% em 2020, 3% em 2021, 4,5% em 2022 e 6% em 2023.

O BC reconheceu que o choque de preços recente, especialmente em alimentos e combustíveis, foi mais forte que o previsto no relatório anterior, inclusive em setores mais deprimidos, como vestuário.

"A surpresa inflacionária no período foi concentrada, principalmente, em alimentação no domicílio, refletindo choque que se mostrou mais forte, persistente e abrangente do que se antevia em setembro. Houve também altas mais fortes que as antecipadas para bens industriais, em particular artigos de residência e de vestuário, e para preços administrados, com destaque para gasolina", destacou.

Além disso, o documento ressaltou a alta nas commodities. "Ao longo do período, preços internacionais de commodities foram maiores que os considerados no cenário e o real, em média, se mostrou mais depreciado."

Na apresentação do relatório, o diretor afirmou que a inflação em dezembro deve se manter elevada, mas reiterou que o choque é temporário.

Em um boxe, estudos que o BC divulga junto com o relatório com temas diferentes a cada edição, foi analisada a inflação em cenários alternativos. Em uma das simulações, o BC considerou piora no quadro fiscal.

Nesse caso, os preços subiriam 6,4% em 2021, diferença de 3 pontos percentuais em relação ao cenário de referência.

​Por outro lado, também foi analisada a situação de prolongamento da pandemia, em que as pessoas ficariam mais tempo em isolamento social, que tem efeito de baixa na inflação.

Com isso, o próximo ano fecharia com inflação em 2,4%, diferença de 1 ponto percentual para o cenário central do BC.

"Divulgamos os cenários alternativos com o intuito de aumentar a transparência sobre como discutimos esses choques internamente", ressaltou o diretor.

O BC também divulgou pela primeira vez o juro neutro (aquele que não estimula nem reduz a atividade), de 3%.

Outro estudo trouxe o efeito do auxílio emergencial na inflação.

"Analisamos a cesta de alimentos das faixas de renda mais pobres e mais ricas. Os preços da carne, por exemplo, de primeira, consumida pelos mais ricos, e de segunda, pelos de menor renda, normalmente andam juntos, mas se distanciaram nesse período. Concluímos que o benefício fez sim diferença nesse caso", explicou Kanczuk.

Um dos boxes analisou o motivo de as exportações brasileiras terem caído menos que em outros países. Segundo o diretor, o comércio exterior no país se baseia em soja e carne.

"São commodities de alimentos que permaneceram em alta na pandemia. Além disso, temos a China como maior compradora, que sofreu menos que outros na crise. Essa parece ter sido a particularidade do Brasil", destacou.

O BC também classificou em dois tipos a poupança formada durante a pandemia, precaucional e circunstancial.

"A circunstancial desaparece assim que o problema do vírus é sanado, a precaucional depende mais de incertezas econômicas, pessoas adiando o consumo com medo de variáveis financeiras. O estudo conclui que o retorno dessa poupança à economia pode demorar mais do que o previsto", salientou Kanczuk.

No crédito, a autoridade monetária aumentou a previsão de expansão de 11,5% para 15,6% em 2020. Para o próximo ano, a estimativa é de crescimento de 7,8%.

"As projeções de crescimento do estoque total de crédito para 2021 consideram cenário de normalização das condições de oferta e demanda de crédito, com a retomada do financiamento das grandes empresas no mercado de capitais doméstico e consequentemente arrefecimento na expansão do crédito bancário", disse no texto.

"As empresas de menor porte continuarão demandando crédito no SFN [Sistema Financeiro Nacional], que será atendido principalmente com recursos livres, dado o término dos programas emergenciais", completou.

Sobre a vacinação da população, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, disse que os mercados globais pararam de olhar para a prorrogação de estímulos fiscais e estão precificando a imunização.

"Uma solução definitiva é certamente mais eficiente do que uma temporária. Acho que o governo brasileiro está seguindo nessa direção, foi assinada hoje a MP [medida provisória] que libera R$ 20 bilhões para a compra das vacinas", argumentou.

Recentemente, ele disse que um programa de vacinação seria mais barato para o país que a prorrogação do auxílio emergencial.

Campos Neto ressaltou que atrasos na vacinação poderiam impactar negativamente o crescimento econômico.

"Isso implicaria em mobilidade menor e teria impacto nas variáveis chave. Mas hoje não há indicação de que isso vá acontecer, o governo tem um plano [de vacinação]. Precisamos esperar para ver o resultado e a reação da população", pontuou.

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