Descrição de chapéu The New York Times

Entenda por que o governo da China se voltou contra o fundador do Alibaba

Jack Ma começa a ser visto como vilão capitalista enquanto enfrenta investigação antitruste

Li Yuan
Hong Kong | The New York Times

Na China, Jack Ma é sinônimo de sucesso. O professor de inglês que se tornou empresário da internet é a pessoa mais rica do país. Ele fundou a Alibaba, algo próximo de uma rival da Amazon. Depois que Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos, em 2016, Ma foi o primeiro chinês de destaque com quem ele se encontrou.

Esse sucesso se traduziu em uma vida de astro pop para "Papai Ma", como algumas pessoas o chamam online. Ele interpretou um invencível mestre do kung-fu em um curta-metragem de 2017 cheio de astros do cinema chinês. Ele cantou com Faye Wong, a diva pop da China. Uma pintura que fez com Zeng Fanzhi, o principal artista do país, foi vendida em um leilão da Sotheby's por US$ 5,4 milhões (R$ 29 milhões). Para os jovens chineses ambiciosos, a história de Papai Ma é algo a se copiar.

O CEO da Alibaba, Jack Ma, em evento de startups em Paris, em maio de 2019 - Philippe Lopez/AFP

Mas ultimamente o sentimento público azedou e Papai Ma se tornou o homem que os chineses adoram odiar. Ele foi chamado de "vilão", "capitalista maligno" e "fantasma chupa-sangue". Um escritor listou os "10 pecados mortais" de Ma. Em vez de "Papai", algumas pessoas começaram a chamá-lo de "filho" ou "neto". Nas reportagens a seu respeito, um número cada vez maior de leitores deixa comentários citando Marx: "Trabalhadores do mundo, uni-vos!"

Essa perda de estatura ocorre enquanto Ma enfrenta problemas crescentes com o governo chinês. As autoridades disseram na quinta-feira (24) que abriram uma investigação antitruste sobre a Alibaba, poderosa empresa de comércio eletrônico que ele ajudou a fundar e onde ainda têm influência considerável.

Ao mesmo tempo, as autoridades continuam rondando o Ant Group, gigante financeiro-tecnológica que Ma criou a partir da Alibaba.

No mês passado as autoridades cancelaram a planejada oferta pública inicial da Ant, menos de duas semanas depois que Ma criticou os reguladores financeiros como obcecados por minimizar os riscos e acusou os bancos chineses de se comportarem como "casas de penhor", emprestando apenas para os que podem oferecer caução.

Na manhã de quinta, quando a investigação antitruste da Alibaba foi anunciada, quatro órgãos reguladores disseram que as autoridades se reuniriam com a Ant para discutir novas medidas de supervisão.

Na superfície, a mudança na imagem pública de Ma deriva em grande parte das crescentes críticas do governo chinês a seu império comercial. Um olhar abaixo da superfície mostra uma tendência mais profunda e perturbadora do governo chinês e dos empresários que tiraram o país do atraso econômico nas últimas quatro décadas.

Um número crescente de pessoas na China parece sentir que as oportunidades que indivíduos como Ma aproveitaram estão desaparecendo, mesmo em meio ao surto pós-coronavírus. Embora o país tenha mais bilionários que os Estados Unidos e a Índia juntos, cerca de 600 milhões de seus cidadãos ganham US$ 150 (R$ 790) ou menos por mês. Enquanto o consumo nos primeiros 11 meses deste ano caiu cerca de 5% em nível nacional, o consumo de luxo na China deverá crescer quase 50% neste ano, em comparação com 2019.

Loja da marca italiana Gucci, em Beijing, em setembro deste ano - Tingshu Wang/Reuters

Jovens formados em universidades, mesmo os que têm diplomas dos EUA, enfrentam perspectivas limitadas de empregos de colarinho branco e salários baixos. A moradia nas melhores cidades se tornou cara demais para primeiros compradores. Os jovens que fizeram empréstimo com uma nova geração de credores online, como o Ant Group de Ma, têm dívidas cada vez mais difíceis de saldar.

Apesar de todo o sucesso econômico da China, um antigo ressentimento dos ricos, às vezes chamado de complexo de ódio aos ricos, borbulha sob a superfície. Com Ma, ele aflorou como uma vingança.

"Um bilionário destacado como Jack Ma sem dúvida será pendurado de um poste de rua", escreveu um comentarista online em um post que circulou amplamente, referindo-se ao famoso slogan de linchamento na Revolução Francesa, "À la lanterne!" O artigo foi curtido 122 mil vezes na plataforma Weibo, semelhante ao Twitter, e lido mais de 100 mil vezes no app de mensagens e rede social WeChat.

O Partido Comunista parece mais que disposto a aproveitar esse ressentimento. Isso poderá significar problemas à frente para empresários e empresas privadas sob Xi Jinping, o maior líder chinês, que valoriza o servilismo e a lealdade acima de qualquer coisa.

Em uma reunião anual de líderes na semana passada que definiu o tom para as políticas econômicas do país para o próximo ano, o partido prometeu reforçar as medidas antitruste e evitar "a expansão desordenada do capital".

Alguns empresários dizem que a hostilidade em relação à Ant e Ma os faz pensar na direção fundamental do país.

"Você pode ter controle absoluto ou ter uma economia dinâmica e inovadora", disse Fred Hu, fundador da firma de investimentos Primavera Capital Group em Hong Kong. "Mas é duvidoso conseguir ambos." Sua firma é investidora do Ant Group e ele faz parte da diretoria do grupo.

Xi não fez segredo sobre como deve ser seu capitalista ideal. Dez dias depois do fracasso da IPO da Ant, ele visitou num museu uma exposição dedicada a Zhang Jian, industrial que atuou há mais de um século.

Zhang ajudou a construir a cidade natal dele, Nantong, e abriu centenas de escolas. Figuras dos negócios da era de Xi também devem colocar seu país à frente das empresas, era a mensagem.

Em uma reunião em julho com membros da comunidade empresarial, Xi indicou Zhang como modelo e pediu que eles colocassem o patriotismo no topo de suas qualidades (Xi não teria mencionado que Zhang morreu falido).

Ma tem seus próprios projetos filantrópicos, como várias iniciativas em educação rural e um prêmio para ajudar a desenvolver talentos empresariais na África. Mas em muitos outros aspectos o famoso empresário de tecnologia difere muito de Zhang.

Ele há muito tempo goza de melhor reputação que seus pares na indústria fabril, em imóveis e outros setores cuja vantagem pode ser consequência de cultivar laços estreitos com o governo, ignorar os regulamentos ambientais e explorar os empregados.

Ele é igualmente famoso por fazer declarações ousadas e desafiar as autoridades. Em 2003, criou o Alipay, que mais tarde se tornou parte do Ant Group, colocando seu império empresarial no centro do mundo das finanças controlado pelo Estado.

"Se alguém tiver de ser preso por causa do Alipay, que seja eu", disse ele a colegas na época.

Às vezes ele desafiou sutilmente o governo a puni-lo por sua ousadia. Sobre os negócios da Ant, ele disse várias vezes: "Se o governo precisar, posso dá-la ao governo". Seus braços-direitos repetiram a frase.

Na época, poucas pessoas levaram a sério esses comentários. Pessoas que o conhecem bem as consideraram uma coisa "muito Jack" de dizer. "Dar o Alipay ao país? Jack Ma só fala", dizia o título de um artigo de opinião em 2010 no jornal China Business News.

Hoje as chances de que essas declarações ousadas se tornem realidade aumentaram. "Diante do que aconteceu, futuramente a Ant terá de ser controlada ou mesmo de propriedade majoritária do Estado", disse Zhiwu Chen, economista na escola de economia da Universidade de Hong Kong.

A pressão sobre Ma indica uma mudança no modo de o governo chinês regular a internet. Há muito ele censura o conteúdo, mas de outras maneiras adotou uma abordagem de laissez-faire. Os regulamentos eram raros. Nenhum companhia estatal esteve envolvida. E no início a indústria de internet na China era pequena.

Hoje o Alibaba e seu arquirrival, Tencent, controlam mais dados pessoais e estão mais intimamente envolvidos na vida cotidiana da China que o Google, o Facebook e outros titãs tecnológicos americanos nos Estados Unidos. E assim como suas homólogas americanas as gigantes chineses às vezes intimidam os concorrentes menores e matam a inovação. Você não precisa ser membro do Partido Comunista para ver motivos para contê-las.

Em vez de perturbar o sistema estatal, as companhias se aninharam nele. Às vezes até ajudam as autoridades a rastrear pessoas. Mas o governo cada vez mais vê seu tamanho e influência como ameaças.

As companhias tecnológicas na China não são os maiores monopólios do país, porém. Estes são propriedade do Estado, que domina os bancos e finanças, telecomunicações, eletricidade e outros setores essenciais.

"A China Mobile é um monopólio. O Banco Comercial e Industrial da China é um monopólio", escreveu Zhang Weiying, um considerado economista da Universidade de Pequim, em 2017, "porque sem permissão do governo você não pode entrar nesses setores".

O artigo foi republicado em várias contas e redes sociais na semana passada, mas foi rapidamente censurado.

É cedo demais para dizer até onde a regulamentação conseguirá conter Ma e as big techs. Mas algumas pessoas pró-mercado na China temem que o país esteja rumando para a linha dura dos anos 1950, quando o partido eliminou a classe do capital, usando linguagem que comparava as tendências capitalistas a impurezas, defeitos e fraquezas.

Para essas pessoas, parte da linguagem recentemente usada por Eric Jing, presidente da Ant, lembrou essa era. Em uma conferência em 15 de dezembro, ele disse que a companhia está "se olhando no espelho, descobrindo nossas falhas e realizando um check-up físico".

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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