Ex-Microsoft ajudou a acelerar 600 startups de impacto social

Instituto Ekloos usa metodologia empresarial para impulsionar negócios criados por mulheres, jovens e negros periféricos

São Paulo

Depois de passar anos no mercado empresarial, Andrea Gomides está hoje no que considera a contramão das grandes aceleradoras. Há 13 anos, o instituto Ekloos, fundado por ela, se dedica a impulsionar negócios de impacto social criados por mulheres, jovens e negros periféricos.

O instituto é hoje a maior aceleradora social do Brasil, gerenciando mais de 600 organizações. Entre seus casos de maior sucesso, está a primeira loja física de bonecas negras no país —a Era uma vez o Mundo, da historiadora Jaciana Melquiades.

Para a empresária, que antes de montar seu negócio passou pela Microsoft e HP, embora o empreendedorismo social esteja crescendo no Brasil, ainda caminha a passos lentos.

A principal dificuldade, diz ela, é a de capacitar pessoas com boas ideias, mas que tiveram pouco acesso a ferramentas do empreendedorismo. A segunda é atrair investidores-anjos —ou seja, pessoas dispostas a aplicarem o capital inicial em uma startup com esse foco.

Andrea Gomides, fundadora do Instituto Ekloos, que acelera negócios de impacto social
Andrea Gomides, fundadora do Instituto Ekloos, que acelera negócios de impacto social - Divulgação

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Quais são os maiores desafios para tornar mais diverso o ecossistema de startups? Nos dois últimos editais nós trabalhamos com 54% de iniciativas lideradas por negros, 57% por mulheres. São dois perfis, mesmo o de mulheres brancas, que são minorias no universo de startups.

A gente tem duas questões: por um lado eles têm muito conhecimento do problema, mas tiveram pouco acesso à formação empreendedora. Essa é uma das principais dificuldades. Conseguir inseri-los no universo do empreendedorismo com uma lógica do mercado e marketing, porque no processo de formação tiveram pouco acesso.

Trabalhamos com pessoas geniais do ponto de vista de criação, mas que do ponto de vista do empreendedorismo, não vão te dar as respostas geniais que startups "pops", "bombadas", dariam. Tentamos inseri-los nesse mundo, para que possam ter sucesso em uma rodada de investimento.

A segunda questão é a dificuldade que eles têm de obter capital semente, investimentos iniciais para que consigam escalar, porque não conseguem investir do próprio bolso. Se você pega uma pessoa de classe média alta, que tem uma ideia maravilhosa, ela vai ter "paitrocinador" ou ela mesma vai ter o dinheiro.

Quando a gente tá falando de jovens periféricos, negros e mulheres, essas pessoas não têm o capital inicial. No Brasil a gente tem muito pouco investimento para o que seria o capital semente, quando eu ainda não estou faturando, mas eu preciso de um recurso para comprar máquina, comprar matéria-prima, conseguir me desenvolver.

Acho que esses dois fatores atrelados: a deficiência na formação empreendedora, o zero capital inicial, dificultam muito o desenvolvimento do empreendedor negro e de mulheres periféricas.

Como avalia o ecossistema de empreendedorismo social no Brasil atualmente? Olhando uma linha do tempo na lógica social, partimos de organizações sem fins lucrativos que tinham um viés muito assistencialista, muito liderados por primeiras-damas, por exemplo, como a dona Ruth Cardoso [1930-2008], que teve um protagonismo muito grande nesse processo das ONGs no Brasil.

Passando por esse assistencialismo, você começa a ter ONGs preocupadas em capacitar pessoas, ONGs que dão acesso. E aí a gente vem mais recentemente, atrasados em relação ao restante do mundo, com essa lógica do setor 2,5: os negócios de impacto. Não é que não vamos mais ter as duas anteriores, mas são oportunidades que resolvem problemas diferentes.

Hoje você já vê os negócios de impacto em crescimento. A Pipe Social [plataforma que conecta negócios sociais com investidores], na última análise que fez, mapeou 1.200 negócios de impacto, sendo que no nosso último edital recebemos mais de 800 negócios inscritos.

Vemos um crescimento desse viés empreendedor, que não está preocupado em fazer só mais uma geladeira que fale, mas pensa o que meu produto vai fazer de transformação social.

Ainda não temos, porém, uma configuração jurídica e de imposto que favoreça isso. O negócio de impacto é uma empresa comum? Ou é uma ONG? E falta uma visão dos próprios investidores-anjos em entenderem as oportunidades que os negócios de impacto têm. Estamos no processo de migração de visão. Mas vejo um cenário de crescimento e um cenário positivo.

Como você montou a aceleradora? Eu venho do mercado corporativo. Trabalhei muitos anos na HP, depois na Microsoft, fui responsável pelas vendas indiretas da Microsoft no Brasil, mas paralelo a essa carreira corporativa sempre fiz trabalho social dentro das comunidades.

Em 2007, há 13 anos, li um livro chamado "Saí da Microsoft para Mudar o Mundo" (John Wood, 2007), em que um executivo da empresa resolve fundar uma organização sem fins lucrativos, e no livro ele conta como usou conceitos de gestão empresarial e as metodologias do mercado corporativo para que a organização dele desse certo.

Por uma série de fatores, conhecendo a realidade dessas organizações, eu achei que faltava para esse setor de impacto o conhecimento estratégico de gestão e de inovação pra que pudesse fazer transformação social maior. Em 2007 eu resolvo sair da Microsoft para fundar o instituto Ekloos.

Como atuam desde então? Ele é configurado como organização sem fins lucrativos, e desde entåo a gente faz o que chamo de programa de aceleração social. Nosso objetivo, diferente de outras aceleradoras, é desenvolver iniciativas de empreendedores sociais, seja sem fins lucrativos ou com, mas nosso principal objetivo é talvez trabalhar até na contramão das grandes aceleradoras, porque não somos focados em empreendedores de classe média-alta.

Investimos em mulheres, jovens e negros periféricos. Acreditamos que pessoas que vêm da periferia conhecem seus problemas e conseguem identificar soluções mais inovadoras. Então esse é nosso principal foco da atuação. Nesse tempo nós já trabalhamos com mais de 600 iniciativas, outras organizações sem fins lucrativos, ou negócios de impacto social como a WoTec [empresa que fabrica equipamentos de cinema para cineastas da periferia].

Como funciona o processo de aceleração? Trabalhamos simultaneamente com vários programas, dependendo dos nossos financiadores. Recentemente fizemos uma parceria com o Oi Futuro. Selecionamos nesse processo 20 iniciativas sociais do estado do Rio de Janeiro e fizemos um acompanhamento durante nove meses.

Fazemos diagnóstico, entendemos as deficiências das organizações e a partir disso utilizamos metodologias do mercado corporativo adaptadas à realidade social. Usamos uma metodologia que a gente chama de Canvas de Impacto Social, com a qual fazemos um plano de viabilidade financeira e estratégia de atuação e reposicionamento de marca. Conseguimos assim transformar boas ideias em empresas de verdade, que possam ser sustentáveis.

Que tipo de empresas procuram? Trabalhamos tanto com ONGs, com objetivo somente social, sem visar lucros, como também com startups que visam lucro, mas têm viés social forte, por isso chamamos de negócios de impacto. Não é que não vão gerar lucro, ter bons salários, mas o principal objetivo é combater a questão social a qual estão se propondo. Todo o reinvestimento é para possibilitar o desenvolvimento social.

Gostamos muito de trabalhar com iniciativas que já passaram do estágio de ideação, já estão um pouco mais maduras, mas estão zerados. Damos esse empurrão inicial. Principalmente com as mentorias, que ligam a chavinha do empreendedor.

E de onde vêm os recursos? No nosso caso, como somos uma ONG, recebemos incentivos de empresas para passarmos por esses processos de mentorias com as startups. Tem com o Oi Futuro, outro com o Instituto Neoenergia, então a gente tem financiadores que possibilitam trabalho com jovens periféricos que têm grandes ideias para a transformação social.

Destacaria alguma iniciativa com a qual trabalharam? Citaria a Estante Mágica, que é uma startup de educação. A Estante começou com o objetivo de fazer com que a criança, dentro da sala de aula, com o professor, escreva seu próprio livro que vira um ebook gratuíto. A partir do momento que esse livro está pronto, os pais dessa criança podem pagar para que vire um livro impresso.

A Estante Mágica possibilita que você faça novos escritores, incentive a leitura e a escrita. Quando começamos a trabalhar com a estante, ela estava em um estágio inicial, já tinha uma história, tinha em torno de 30 funcionários, e hoje ela está com 150. Já passou por uma rodada de investimentos, já se internacionalizou.

Outro exemplo é de uma liderança mulher, negra, periférica, é o Era uma vez o Mundo, que produz bonecas de pano negras. Quando a Jaciana Melquiades chegou para a gente ela tinha já tentado, não tinha dado certo, estava parado, mas queria continuar com o sonho. Hoje ela está com duas lojas físicas, vendendo muito bem durante a pandemia, o que é maravilhoso. Cresceu muito em termos de faturamento. Temos outros, mas são dois orgulhos, para te citar só dois.

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