Descrição de chapéu The New York Times

Escassez de chips desordena setor automotivo em todo o mundo

Forte demanda por produtos eletrônicos absorveu o suprimento de semicondutores no início da pandemia, e deixou montadoras defasadas com o retorno da produção

Nova York | The New York Times

As montadoras de automóveis se prepararam para um período tumultuado quando chegou a pandemia. Antecipavam perturbações em suas cadeias de suprimento e uma queda forte das vendas. Mas jamais teriam sido capazes de calcular que, um ano mais tarde, seu maior problema seria o PlayStation.

A forte demanda por sistemas de videogames, computadores pessoais e outros produtos eletrônicos, em um planeta cuja população não pode sair de casa, absorveu o suprimento de semicondutores, forçando as montadoras de automóveis de todo o planeta a correr em busca dos chips que se tornaram tão essenciais para a mobilidade quanto a gasolina ou o aço.

Virtualmente nenhuma montadora escapou do problema. A Toyota Motor fechou linhas de produção na China. A Fiat Chrysler Automobiles parou a produção temporariamente em fábricas localizadas em Ontário (Canadá) e no México. A Volkswagen alertou sobre problemas de produção em fábricas na China, Europa e Estados Unidos. A Ford anunciou na semana passada que estava desativando por uma semana uma fábrica em Louisville, Kentucky, devido à escassez de componentes.

Linha de produção da montadora de caminhões Mercedes-Benz em São Bernardo do Campo, grande São Paulo - Bruno Santos - 18.mai.2020/Folhapress

Quando a Covid-19 chegou, as montadoras de automóveis reduziram suas compras de chips, antecipando que as vendas despencariam. Ao mesmo tempo, os fabricantes de semicondutores alteraram suas linhas de produção, de modo a atender ao acúmulo de pedidos de chips usados em produtos como laptops, webcams, tablets e smartphones 5G.

Empresas também decidiram atualizar sua infraestrutura digital a fim de lidar com reuniões online e com empregados que passaram a trabalhar de casa, e as companhias de telecomunicações investiram em infraestrutura de banda larga, alimentando ainda mais a demanda por semicondutores.

Em seguida, as vendas de automóveis se recuperaram mais rápido do que o esperado, no final de 2020, apanhando todo mundo desprevenido. A escassez de chips que se seguiu deve durar por boa parte de 2021, porque os fabricantes de semicondutores podem levar de seis a nove meses para realinhar sua produção.

“O mercado de bens eletrônicos de consumo explodiu”, disse Dan Hearsch, diretor executivo da consultoria Alix Partners. “Todo mundo queria comprar um Xbox, um PlayStation e um laptop, enquanto a indústria automotiva tinha as portas fechadas. E quando a indústria automotiva voltou mais rápido do que o esperado, começou esse problema”.

Embora a escassez não deva levar os preços dos carros a subir demais, os compradores podem ter esperas mais longas para obter o veículo que desejam.

A escassez de chips tem origem nas forças que estão reordenando as indústrias automobilística e de semicondutores em longo prazo, bem como na confusão de curto prazo sobre a pandemia.

Nos 10 anos passados, as montadoras de automóveis passaram a depender cada vez mais da eletrônica a fim de tornar seus produtos mais atraentes, acrescentando recursos como telas de toque, controles computadorizados de motor e transmissão, conexões internas para celulares e Wi-Fi, e sistemas para evitar colisões que dependem de câmeras e outros sensores.

Os carros novos podem ter mais de 100 semicondutores, e a falta de mesmo que um único componente pode retardar ou paralisar a produção, disseram analistas e consultores do setor.

A pressão de longo prazo sobre os fabricantes de chips para que controlem os custos de produção também desempenhou um papel. Fabricantes de semicondutores que abastecem a indústria automobilística, como a Infineon, NXP Semiconductors e Renesas, optaram por recorrer a fabricantes terceirizados para a produção de seus chips mais avançados. Mas eles também mantêm fábricas próprias a fim de produzir os chips mais simples para automóveis, frequentemente utilizando em sua produção bolachas de silício de oito polegadas, em lugar dos discos de 12 polegadas utilizados nas fábricas mais modernas.

Os fabricantes cujas fábricas usam as bolachas de oito polegadas, mais antigas, não podiam elevar sua produção com facilidade. Não haviam investido muito, recentemente, em equipamentos novos, que agora se tornaram mais difíceis de encontrar porque a tecnologia em questão é antiga, disse Syed Alam, que comanda a área mundial de consultoria de semicondutores na Accenture.

A geopolítica também influenciou a situação. O governo Trump em setembro impôs restrições à Semiconductor Manufacturing International Corp., a principal fabricante terceirizada de chips sediada na China, que fornece semicondutores para carros e para muitas outras aplicações. Os clientes da companhia começaram a procurar fornecedores alternativos, o que gerou concorrência adicional pelos chips disponíveis em outros fabricantes, disse Gaurav Gupta, vice-presidente do grupo de pesquisa Gartner.

A crise dos chips é um exemplo de como a pandemia abalou a economia mundial de maneiras sem precedentes. As montadoras de automóveis antecipavam enfrentar escassez de componentes, e fábricas foram fechadas no começo de 2020 por medo de que os operários infectassem uns aos outros, ou porque as empresas de transportes haviam suspendido suas entregas. A maioria das fábricas de automóveis dos Estados Unidos deixou de produzir por cerca de dois meses, no segundo trimestre do ano passado.

Mas os fornecedores e as montadoras rapidamente descobriram maneiras de conter o contágio dentro das fábricas, e colocaram as linhas de produção em funcionamento uma vez mais. O impacto sobre a maioria dos fornecedores de componentes foi inferior ao que se temia.

A escassez de semicondutores surgiu de forma inesperada, atingindo a indústria em um momento perigoso. As vendas despencaram no mundo inteiro. Na Europa, por exemplo, elas caíram em 25% em 2020.

Tudo isso está acontecendo enquanto as montadoras de automóveis tentam conduzir uma mudança de tecnologia básica, dos motores de combustão interna para as baterias, o que as sujeita a nova concorrência por parte da Tesla, a companhia californiana que se tornou a montadora de automóveis mais valiosa do planeta por larga margem, e de novos fabricantes chineses como a Nio.

Exatamente por quanto tempo vai durar essa escassez é difícil de determinar. O prazo entre os pedidos novos de chips e sua produção e distribuição ao longo das cadeias de suprimentos até chegarem às montadoras pode ser de 20 a 25 semanas, disse Michael Hogan, vice-presidente sênior da GlobalFoundries, uma grande fabricante de chips que atende a indústria automobilística e outros mercados.

“Estamos fazendo tudo que é humanamente possível a fim de priorizar nossa produção para a indústria automotiva”, disse Hogan.

A Bosch, fornecedora alemã de componentes eletrônicos para carros, disse que a escassez era especialmente aguda no caso dos circuitos integrados usados para controlar motores, transmissões e outras funções essenciais.

“A despeito da situação difícil do mercado, a Bosch está fazendo tudo que pode para manter seus clientes abastecidos e para garantir que qualquer impacto adicional seja mínimo”, a empresa afirmou em comunicado.

As montadoras de automóveis e seus fornecedores estão reagindo da melhor maneira que podem. A BMW, sediada em Munique, afirmou que conseguiu manter a produção mas que estava “observando a situação intensivamente” e em contato constante com os fornecedores.

Para montadoras de automóveis já desgastadas pela pandemia, é inevitável que exista algum impacto. A Honda anunciou na quarta-feira (13) que suspenderia algumas atividades de produção em sua fábrica de Swindon, Inglaterra, que monta o Civic, por pelo menos quatro dias, a partir da segunda-feira (18). A empresa mencionou problemas em sua cadeia de suprimento, entre os quais a escassez de semicondutores.

A fornecedora alemã Continental, mais conhecida por seus pneus mas que também fabrica componentes eletrônicos, apelou aos fabricantes de semicondutores que aumentem a capacidade de produção de suas fábricas de chips.

“O investimento futuro nessas fábricas será crítico, portanto, para que a indústria automobilística evite esse tipo de perturbação em seus suprimentos no futuro”, a Continental afirmou em comunicado.

A Infineon, sediada em Munique, disse que estava acelerando seu investimento em nova capacidade de produção, em 2021, para até 1,5 bilhão de euros (R$ 11,6 bilhões), ou US$ 1,8 bilhão (R$ 9,5 bilhões), ante 1,1 bilhão de euros (R$ 7 bilhões) em 2020. A empresa também está acelerando a produção de uma nova fábrica de chips em Villach, Áustria, que produzirá bolachas de silício de 12 polegadas.

Mas os fabricantes de semicondutores precisarão de tempo para recuperar o atraso. Enquanto isso, os PlayStations têm prioridade.

“A indústria automotiva voltou, mas eles já não são os primeiros da fila para comprar chips”, disse Gary Silberg, que comanda a divisão internacional de consultoria automobilística da KPMG.

Tradução de Paulo Migliacci

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