Ford tenta tranquilizar clientes e diz que manterá assistência técnica

Empresa orienta quem quiser desistir de compra a entrar em contato com concessionária

São Paulo

Ao digitar a palavra Ford no principal buscador da internet, o primeiro link que surge diz: “A Ford não vai sair do Brasil”. Após anunciar o fechamento de todas suas fábricas no país, a montadora luta para convencer os consumidores a não desistirem da marca.

Entretanto, esse cliente vai mudar. Quando os estoques do Ka e do EcoSport estiverem esgotados, o modelo mais em conta vendido pela marca será a picape Ford Ranger produzida na Argentina, que custa a partir de R$ 154.090, de acordo com o site da marca.

A mudança é global: em 2018, a montadora americana anunciou que só venderia utilitários e picapes nos EUA, tirando de linha sedãs e modelos compactos. O plano dividiu opiniões, mas faz sentido diante dos números de venda e de rentabilidade alcançados pelos SUVs.

No Brasil, sair do mercado de carros de passeio representa uma perda gigantesca de volume, embora não seja esse o nicho mais lucrativo. O Ka, por exemplo, acumulava prejuízo a cada unidade produzida em Camaçari, de acordo com pessoas ligadas à marca.

É por isso que a decisão retrata a crise pela qual passa a indústria automotiva no Brasil, onde volume não tem sido suficiente para justificar investimentos.

“A Ford vendeu 138 mil veículos em 2020, e 84,9% foram fabricados no Brasil. Parar de produzir aqui é uma pancada muito grande, e não é possível sobreviver apenas com o volume de importados alcançado no ano passado”, diz Cassio Pagliarini, sócio da consultoria Bright.

Com a redução radical do volume de vendas, a manutenção de uma rede concessionária com mais de 300 lojas parece ser inviável. A Ford não está se pronunciando sobre o tema, mas deu pistas sobre o futuro em uma série de perguntas e respostas publicadas em seu site.

“Neste momento, não há mudanças na rede de concessionários Ford. Ajustes futuros serão comunicados oportunamente aos consumidores, com total transparência”, diz o texto, dando a entender que haverá redução nos pontos de venda e de assistência.

A própria montadora propõe a pergunta que todo proprietário deve estar fazendo agora: “Meu carro pode desvalorizar porque a Ford está encerrando a produção do mesmo?".

Em resposta, a fabricante diz que “como qualquer outro produto, com o passar do tempo, o valor do carro tem uma tendência natural de desvalorização, o que é uma condição normal de mercado, válida para todas as marcas. Para assegurar sua tranquilidade, a Ford continuará honrando a garantia do seu veículo e oferecendo assistência total com operações de vendas, serviços e peças de reposição”.

A empresa também orienta os consumidores que estiverem dentro de um processo de compra –tendo dado um sinal, por exemplo— e que querem desistir do negócio devido ao fechamento das fábricas.

“Você deve dirigir-se ao concessionário onde a compra foi efetuada e solicitar o cancelamento da mesma de acordo com a regulamentação prevista no Código de Defesa do Consumidor”, diz o texto publicado no site da montadora.

Enquanto nos mercados europeu e norte-americano o encerramento da produção de um veículo gera uma corrida às lojas em busca de descontos, o fim da linha é um tabu no Brasil. As montadoras evitam comentar sobre a descontinuação de um carro para não afugentar clientes.

Ainda atônita com a notícia, a Abradif (Associação Brasileira dos Distribuidores Ford) não quis se pronunciar sobre o encerramento da produção nacional. A rede concessionária aguarda a chegada de novos modelos importados –o Bronco virá do México e a van Transit será trazida do Uruguai—para saber como será o comportamento do consumidor diante dessa nova fase da montadora. Os estoques de Ka e EcoSport estão baixos, e descontos devem ser praticados.

Além dos temores das lojas, a preocupação está instalada entre os sistemistas. Há medo de uma onda de demissões e até falência de empresas devido ao fechamento das fábricas.

Aldo Martinez Neto, sócio responsável pela área trabalhista do Santos Neto Advogados, diz que o efeito poderá ser drástico para os fornecedores de menor porte. Ele monitora metalúrgicas que compõem a cadeia industrial, e muitas são empresas familiares que se dedicam a atender a uma única montadora.
“Nossa percepção é de que desde o início da pandemia já havia uma queda da demanda. Muitas empresas fornecedoras já vêm em dificuldade há anos e recebendo subsídios das montadoras”, afirma Neto.

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