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Jovem brasileira é uma das mentes por trás do projeto que quer criar rede latina de startups

Novo, Latitud oferece mentoria gratuita e fortalece conexão entre empreendedores da região

São Paulo

Para Gina Gotthilf, 34, não é um problema reconhecer os privilégios que a ajudaram a chegar onde está. A brasileira vive há mais de 15 anos nos Estados Unidos, onde estudou filosofia e neurociência e trabalhou em empresas conhecidas no Vale do Silício, como a Duolingo, onde foi vice-presidente de marketing e growth e integrou a equipe executiva.

​​“Sinto muita responsabilidade de fazer o que eu puder para trazer as oportunidades que tive para o Brasil”, diz.

Paulista, Gotthilf é neta de sobreviventes do Holocausto, que emigraram da Polônia e da Alemanha para o Brasil, onde se conheceram.

Desde pequena, ela estudou em uma escola bilíngue no Morumbi, zona oeste da capital. Aos 18 anos, migrou para os EUA, porque acreditava que encontraria um leque maior de possibilidades de trabalho.

Gina Gotthilf olha para a foto
Gina Gotthilf, cofundadora da Latitud e ex-vice-presidente de marketing e growth do Duolingo - Arquivo Pessoal

RAIO-X
Gina Gotthilf, 34

Cofundadora da rede de empreendedorismo Latitud, é formada em filosofia e neurociência pela Universidade Brandeis, nos EUA. Trabalhou para o Tumblr e para o Duolingo, onde foi vice-presidente de marketing e growth. Integrou a equipe de campanha de Mike Bloomberg à presidência dos EUA (um dos candidatos que disputou a vaga do Partido Democrata).


Foi o inglês, uma barreira para muitos, que ela acredita ter aberto mais portas em sua carreira. Em razão disso, desde antes do trabalho no Duolingo, levanta a bandeira da democratização do acesso ao ensino de idiomas.

Nos últimos meses, uma missão diferente —ou nem tanto— tem movido seu trabalho: fornecer mentoria a startups latino-americanas e ajudar na conexão de empreendedores da região. Ao lado de Brian Requarth, cofundador do marketplace de imóveis Viva Real, e Yuri Danilchenko, ex-executivo da startup de compras inteligentes Escale, ela criou o programa Latitud.

Da cidade de Pittsburgh (Pensilvânia), em entrevista por videochamada e email à Folha, Gotthilf explica que a ideia surgiu durante um curso que fez com Brian no Vale do Silício. Uma curiosidade em comum fez os dois se perguntarem: além do capital, quais motivos fazem com que menos startups unicórnios —aquelas cujo valor de mercado ultrapassa US$ 1 bilhão— saiam da América Latina do que do Vale?

“Nós, latinos, entendemos e pensamos em problemas de escala global. Problemas que pessoas do Vale nem imaginam que existem”, afirma. “Só que estamos desenvolvendo soluções para cada país. Existe um potencial de unir essas pessoas, criar uma rede para fortalecer e aumentar a chance de que grandes startups surjam da nossa região.”

O Latitud, que ainda caminha para definir seu modelo de negócios, já recebeu a primeira turma com 100 empreendedores latinos que, por um mês, tiveram mentoria virtual gratuita com tutores de diversos países. Gotthilf conta que empreendedores brasileiros constituiram cerca de 60% do grupo. A meta é aumentar a diversidade de país, setor, gênero e raça.

A segunda turma já tem data definida para começar a receber mentoria. Em 1º de fevereiro, 50 empreendedores embarcam nas formações do Latitud. Ainda é possível se inscrever para algumas vagas restantes neste link. Mais informações também estão disponíveis no site do projeto.

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Quais os maiores problemas para iniciar startups em países emergentes, como os latino-americanos?

Falta de acesso a mentoria e dicas de quem já criou ou trabalhou em startups que deram muito certo é um problema. Já que a maioria das startups de sucesso estão fora dos nossos países e a maior parte dos funcionários não fala português ou espanhol, é raro ter acesso a estes contatos.

Acesso a capital é outro desafio. Não só porque existe menos capital sendo investido em startups no Brasil do que nos Estados Unidos, por exemplo, mas também porque a maioria dos empreendedores não têm a oportunidade de conversar com investidores e outros empreendedores para receber dicas de como fazer um ótimo pitch. Muitos nem sabem por onde começar, e por isso não consideram a opção de levantar capital. O mundo de investidores ainda é bastante fechado para “insiders”, então, se você não está por dentro, é difícil entrar.

Também falta uma comunidade de empreendedores para trocar conhecimentos, além de fornecer apoio já que a jornada é difícil e solitária. Estar em contato com empreendedores que estão um passo à sua frente pode ajudar a economizar semanas ou meses de pesquisa sobre qualquer assunto e abrir muitas portas que você nem enxerga como empreendedor iniciante.

O que de comum você observa nas startups latino-americanas?

Empreendedores na América Latina têm muitos obstáculos parecidos: burocracia, problemas de infraestrutura, ter que começar muito mais "do zero" para solucionar problemas comparado a startups americanas, ou acesso limitado aos melhores conteúdos por conta da falta de conhecimento do inglês ou até porque cursos nos EUA são caros demais pra quem ganha em real ou peso. Outra similaridade é a tendência de olhar muito para o próprio país como mercado, em vez de enxergar necessidades similares em outras partes do mundo.

Apesar de nos EUA e na Europa existir muita desigualdade em termos de quem considera o empreendedorismo como opção, acredito que na América Latina esse problema é mais grave. Apenas 7% das inscrições que recebemos na Latitud são de mulheres, por exemplo, e isso é algo que eu quero muito ajudar a mudar porque existe muita oportunidade no empreendedorismo feminino, principalmente em empresas solucionando problemas que só essa demografia entende.

Há excesso de startups na região?

Tem sempre um excesso de startups, porque uma porcentagem muito pequena delas dão certo. Isso é em qualquer lugar. Só que esses empreendedores que não conseguem da primeira vez aprendem muito, e tentam de novo, ou então vão trabalhar em outros lugares, e com isso também aprendem. De qualquer forma, isso gera muito valor. Até as empreitadas fracassadas ensinam muito.

O mercado financeiro no Brasil passa por mudanças, como a chegada do Pix e do open banking. O que isso traz para as startups?

Para empreendedores, é incrível, porque abre mil portas para soluções que podem ser criadas para problemas grandes que a gente não estava nem pensando em solucionar. E vai criar muito mais concorrência de forma saudável. Os bancos só podem agir da forma que agem hoje no Brasil porque ninguém tem escolha. Uma vez que todo mundo tenha escolha e o banco tenha que tratar o cliente bem para que o cliente escolha ficar lá, tudo muda.

A pandemia trouxe aprendizados para o ecossistema?

O mundo se expandiu com o maior uso do zoom. Antes só queríamos fazer programas de empreendedorismo ou de mentoria com pessoas que estão presencialmente. Agora não. Você pode contatar pessoas em qualquer lugar. Em termos de acesso a solução de problemas, é possível olhar muito além das fronteiras físicas.

Daria dicas para quem está começando a empreender?

Encontre um problema antes de inventar uma solução. Pense "qual é o problema que essa startup vai resolver?". Então pense no problema em si e em todas as soluções possíveis, além da sua ideia original, antes de definir o que criar.

Foco. Tenha clareza em relação ao que você tá fazendo, as prioridades da empresa, as métricas que importam, e tente não desviar a atenção, mesmo que pareça existir oportunidades de todos os lados. A vontade de abraçar o mundo destrói muitas startups.

Leve a parte de tecnologia e engenharia da sua startup a sério. Se você não sabe desenvolver produto, contrate ou vire sócio de quem já tem experiência ou crie um negócio que não seja um aplicativo.

Por outro lado, para quem está bem no começo e não tem acesso a engenharia, existem cada vez mais recursos "no-code", que permitem criar protótipos e sites sem conhecimento técnico para ao menos avaliar suas ideias antes de recrutar.

Não pense em crescimento e teste a/b antes de achar "product market fit" ou seja, antes de saber que o seu produto ou serviço dá certo e tem gente comprando.

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  • Editora WMF Martins Fonte
Erramos: o texto foi alterado

A primeira versão do texto dizia que Gina Gotthilf estava em Petersburg (Virgínia) quando concedeu entrevista à Folha. A entrevistada estava, na verdade, em Pittsburgh (Pensilvânia). A informação foi corrigida. 

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