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Pressão na pandemia torna urgente falar de saúde mental no trabalho

Empresas com programas de atenção ao funcionário notam aumento no desempenho e queda em custos

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São Paulo

Precisamos falar sobre saúde mental no ambiente de trabalho. Com um apelo inédito, especialmente por causa do impacto da pandemia na rotina laboral, essa frase reverbera dentro das empresas e ganhou porta-vozes, neste início de ano, até no Fórum Econômico Mundial.

O encontro, que trocou Davos, na Suíça, por palestras virtuais, dedicou uma sessão para debater o assunto e divulgou a criação de uma agenda global para acelerar mudanças positivas no modo como a saúde mental dos trabalhadores é abordada nas empresas.

O tema não é novo, mas segue cercado de estigma e preconceito e no fim da lista de prioridades das empresas. E a queixa não parte apenas dos funcionários.

“Acho que agora está claro e todos entendem que é a coisa certa a fazer [dar atenção à questão]. E agora conseguimos provar que isso é também bom para os negócios”, disse Garen Staglin, da organização One Mind, durante o Agenda Davos, como foi batizada a iniciativa. “Está tudo bem não estar bem. Precisamos normalizar esta ideia."

Segundo dados divulgados no encontro anual, empresas em todo o mundo perdem cerca de US$ 2,5 trilhões em produtividade, com faltas no trabalho e rotatividade.

Com a pandemia, a pressão sobre a força de trabalho aumentou. Entre os que foram colocados em home office, os limites entre a vida pessoal e profissional desapareceram.

“Se antes passávamos 70% de nossas horas acordados no trabalho, agora passamos 100% do tempo no trabalho, pois trabalho e casa são a mesma coisa”, afirmou Staglin. Na avaliação do especialista, o medo da contaminação e do desemprego não deixam de rondar os pensamentos.

“Casos de estresse, burnout e insônia cresceram, e as empresas tiveram queda na produtividade”, afirma Michael Kapps, fundador da Vitalk, startup de bem-estar e saúde, que viu uma espécie de boom na busca por serviços de terapia e telemedicina a partir de junho do ano passado.

Com a pandemia, a empresa registrou um crescimento de 20%, e a entrada de pelo menos um cliente por semana.

Quem adotou ou melhorou as estratégias de cuidado com saúde de seus trabalhadores diz já ter visto resultados. Na GSK, as equipes com melhores performances em 2020 foram as mesmas que tiveram maior redução no nível de estresse.

Na média, a companhia farmacêutica calcula ter reduzido em 50% o risco de burnout, termo em inglês usado para o diagnóstico de estresse crônico no trabalho. O cálculo, segundo Marina Tavares, líder do programa de saúde e bem-estar da GSK, é baseado no método HSE (Health and Safety Executive), utilizado no Reino Unido.

Na BDO, a percepção do efeito positivo da adoção de um plano mais amplo de atenção ao bem-estar dos funcionários vem do “boca a boca”, segundo a gerente de RH Julia Brunetti. Ela avalia que, em breve, será possível ver o resultado também em cifras.

“Ainda não sabemos o retorno do investimento, mas sabemos que haverá, especialmente com relação às buscas por atendimento no pronto-socorro, que têm um custo altíssimo”, afirma.

A criação de um programa do tipo estava nos planos da empresa, mas foi a pandemia quem deu o empurrão final. Na avaliação da gerente de RH, lançar um programa dá profundidade ao compromisso da empresa com a equipe.

“Por mais que o RH diga que está disponível para ouvir, para ajudar, quando você implanta uma ação, isso fica claro”, diz. A BDO contratou um mapeamento de saúde mental que permitiu a cada funcionário receber um relatório. Alguns receberam a indicação para participar de um programa multidisciplinar com psicólogos, enfermeiros e psiquiatras.

Não existe uma receita para a implantação de um plano que busca bem-estar psicológico. As empresas têm buscado modelos que se adaptam a sua realidade.

A Johnson&Johnson Brasil, por exemplo, reorganizou o programa de assistência já existente, que inclui sessões de aconselhamento, e criou uma política de acordos de trabalho flexíveis, que permitem ao funcionário horários e local de trabalho customizados, redução de jornada e licença não remunerada.

Na Votorantim Energia, o programa de bem-estar inclui prática de exercício, meditação e ioga, além de sessões de terapia por meio da plataforma Zenklub. Fundada em 2016 pelo médico português Rui Brandão após uma experiência familiar com burnout, a Zenklub passou de 12 clientes corporativos para 214 no ano passado.

O que se observa é que há interesse entre os trabalhadores.

Na Vale, a adesão do funcionário à autoavaliação de saúde emocional, que é voluntária, cresceu dez vezes. A companhia atribui o aumento às campanhas de divulgação e a uma maior confiança dos empregados em contar com a empresa, que também ampliou canais de apoio e comunicações, remodelou serviços, como a inclusão de psicoterapia online e telemedicina, e adaptou para o virtual atividades físicas.

Quem está na ponta do atendimento relata que esse tipo de iniciativa representa um acolhimento.

Tathiane Martins, 23, viu sua via mudar radicalmente com pandemia, trazendo angústia e ansiedade; programa de acolhimento da indústria farmacêutica em que trabalha ajudou a 'pisar o chão novamente" - Gabriel Cabral/Folhapress

Quando pensa na rotina que tinha até março do ano passado, Tathiane Martins, 23 anos, define o dia a dia como agitado, movimentado e com pouco tempo em casa. Para conciliar a vida de estagiária na GsK e de estudante, acordava cedo, dormia pouco e passava muitas horas no trânsito entre Niterói (RJ) e o bairro de Jacarepaguá, na capital fluminense.

Com o início da pandemia, veio o home office e, com ele, uma sequência de transformações. O primeiro efeito da reviravolta na rotina foi a insônia. Estar longe dos colegas de trabalho foi outro problema.

“Ainda tinha que lidar com a instabilidade da internet em casa. Era muita frustração, comecei a ficar muito mais ansiosa. Antes, passava a maior parte do dia fora de casa. De repente, estava o tempo todo lá. E não só isso, mas a falta de perspectiva de quando ia acabar. Era muito difícil focar no trabalho, no que eu precisava fazer”, diz.

O caminho para “voltar a pisar o chão” passou por sessões de terapia oferecidas pelo programa de saúde da empresa, conta Thatiane. “É um trabalho de escuta ativa. A pessoa te ouve e te ajuda a buscar soluções para o que você está vivendo”, diz.

Desde setembro, ela utiliza também os serviços de uma assistente virtual. No horário programado por Thatiane, ela envia mensagens: "está tudo bem com você?".

“Foi uma mobilização para que ninguém se perdesse. O conjunto desse apoio na empresa foi fundamental para me dar esperanças, me sentir aberta a novas ideias e projetos”, afirma.

Apesar do esforço de muitas companhias, Kapps, da Vitalk, vê um longo caminho a ser percorrido no modo como o Brasil lida com o assunto. A estratégia, disse, precisa ser multifatorial, pois nem sempre a mesma solução atenderá a todos –teleterapia, atendimento por texto, atividade física, meditação, psiquiatria, medicação.

“As pessoas vão entender que oferecer apenas terapia não tem efeito. Você oferece, mas as pessoas não usam porque tem um estigma grande, ou porque acham que não precisam”, afirma.

Outro problema ainda pouco tratado, na avaliação dele, é o papel dos chefes na pressão percebida pelos funcionários. Isso pode aparecer tanto na carga de trabalho quanto nas reações a quadros ansiosos.

Tereza Veloso, diretora técnica e de relacionamento com prestadores da SulAmérica, disse que são comuns os relatos de episódios de estresse ligados ao relacionamento com superiores nas empresas.

“Por isso insistimos que é importante formar gestores para que eles reconheçam quando a pessoa precisa de ajuda. Precisa tirar o estigma, mostrar que essa pessoa volta ao trabalho”, afirma.

A seguradora tem hoje 30 empresas aguardando para aderir ao Única Mente, programa de saúde mental criado em 2019. Na versão levada até as companhias, é feito um mapeamento dos funcionários, que depois são convidados a participar do programa. Segundo Tereza, as empresas já demonstravam preocupação com o assunto no pré-pandemia, mas a crise sanitária alavancou a necessidade.

“Fazer o diagnóstico precoce é muito importante. Vai ficando claro que é um pequeno investimento, com um ótimo retorno. A OMS [Organização Mundial de Saúde] calcula que para cada US$ 1 investido em saúde mental, o retorno seja de US$ 5 em produtividade. É necessário mudar a cultura organizacional”.

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