Valorização de ações se iguala a 'crash' de 1929 e cria 'sinuca' para investidores

Preço de papéis em NY tem nível pré-Depressão e fim da 'bolha' da internet; estímulo que sustenta alta depende da inflação

São Paulo

No final de janeiro, a AMC Theatres, maior cadeia global de cinemas, emitiu 44,4 milhões de ações e levantou US$ 600 milhões no mercado. Radicalmente afetada pela pandemia, seus papéis valem hoje mais do que há um ano, quando os cinemas estavam cheios.

No fim de 2020, a Carnival Cruise, líder em cruzeiros, captou US$ 4,5 bilhões em novas ações e títulos num ambiente de receitas próximas de zero. Em maio, a Hertz, vice-líder em aluguel de veículos, entrou em recuperação judicial e suas ações saltaram 900%.

A Apple demorou anos para atingir US$ 1 trilhão em valor de mercado, em 2018. Mas terminou o difícil 2020 valendo US$ 750 bilhões a mais. Tudo somado, o valor das ações de empresas negociadas globalmente nas Bolsas supera agora US$ 100 trilhões, um recorde histórico.

Há uma pergunta de bilhões de dólares no ar: estariam os preços de ações e títulos "desafiando a gravidade", posicionando as Bolsas globais na antessala do estouro de uma "bolha”?

Há alguns trimestres, sobretudo após a pandemia embaralhar o futuro, muitos investidores vêm tolerando manter ou comprar papéis de empresas cujo valor pode não mais refletir seu patrimônio ou a geração de caixa.

O mais respeitado indicador para o cálculo do preço de uma ação (o "cape ratio - cyclically adjusted price/earnings ratio”, criado por Robert Schiller, prêmio Nobel de Economia) divide o seu valor presente pela média do lucro da empresa, ajustado à inflação, nos dez anos anteriores.

Se o índice é muito alto, significa que as ações estão caras em relação aos lucros, permitindo antever anos de retorno medíocre à frente.

No final de 2020, o índice equivalia a 33 no conjunto das ações do S&P 500 da Bolsa de Nova York, uma espécie de “termômetro" do mercado global —projetando rendimento de 3%.

As duas únicas vezes em que o indicador ficou acima de 30 foram em 1929 e no biênio 1999-2000 —anos do “crash" da Bolsa de Nova York, que precedeu a Grande Depressão, e do estouro da chamada “bolha da internet”, respectivamente.

A diferença fundamental entre as duas crises nas Bolsas globais e hoje é que vários bancos centrais, sobretudo o norte-americano (Fed) e o europeu (BCE), vêm injetando dinheiro em escala sem precedentes no mercado para manter as taxas de juro em níveis historicamente baixos ou negativos (menores que a inflação).

O resultado tem sido a redução no apetite dos investidores em comprar títulos de Estados soberanos, mais seguros (pois eles não quebram facilmente), mas que hoje não rendem nada ou dão prejuízo —pagando juros inferiores à inflação.

Mesmo no Brasil altamente endividado, mas por influência do cenário externo, enquanto a taxa básica de juros está fixada em 2% ao ano, a inflação oficial em 2020 foi de 4,52%. Muitos investidores conservadores, que aplicam exclusivamente em papéis do Tesouro, perderam dinheiro no ano passado.

Assim, os investidores têm recorrido a aplicações mais arriscadas, como ações, títulos de empresas, ouro e outros ativos. Eles correm risco para melhorar seus rendimentos.

Nos EUA, maior economia do mundo, a pandemia levou o Fed a interromper um lento processo de retirada desses estímulos monetários que mantêm os juros baixos, adotados desde a crise financeira de 2008/2009.

Mesmo durante o refluxo do Fed, o mercado continuou subindo, refletindo um crescimento econômico robusto.

Com a pandemia e a paralisação abrupta das atividades, o Fed voltou à carga: o total de papéis de empresas e outros ativos adquiridos pelo banco central americano, que significam na prática injeção de dinheiro na economia, pulou de US$ 4,1 trilhões em fevereiro de 2020 para US$ 7,4 trilhões na semana passada.

Para reforçar a estratégia, o Fed diz que manterá sua principal taxa de juros entre 0% e 0,25% ao ano até que a economia alcance o pleno emprego. E promete não mexer nisso antes que a inflação ultrapasse 2% ao ano "por algum tempo”.

O BC americano reiterou ainda que continuará comprando US$ 120 bilhões ao mês em papéis de empresas, até que haja "progresso substancial" na economia.

Tudo isso representa a continuidade da enxurrada de dinheiro.

Nesse fluxo, as companhias norte-americanas puderam captar em 2020, ano teoricamente difícil, US$ 342 bilhões com a venda de novas ações, 76% mais que em 2019.

Outros US$ 2,3 trilhões, um recorde, foram embolsados com a venda de títulos (“bonds”/dívida), 60% a mais que em 2019, segundo a Securities Industry and Financial Markets Association.

A quantidade de dinheiro disponível é tamanha que mesmo companhias mal avaliadas por agências de classificação (com notas “CCC”) captam recursos, vendendo papéis, aos juros mais baixos da história para seu padrão: menos de 7,5% ao ano.

A venda desse papelório e a valorização das Bolsas ocorrem apesar do mau desempenho das empresas globais no ano passado —outro sinal que põe algumas orelhas em pé.

Para Robert Buckland, estrategista-chefe do Citigroup, os mercados vêm desafiando os fundamentos econômicos há pelo menos um ano.

Pelos seus cálculos, o lucro das empresas globais listadas em Bolsa caiu cerca de 15% em 2020 —um resultado muito ruim diante da previsão de ganhos de 10% que havia no começo daquele ano. "Apesar das perdas, as ações globais subiram 18%. O Nasdaq [das empresas de tecnologia], 51%. É quase como se a pandemia nunca tivesse acontecido.”

A resposta a quem indaga se há ou não uma “bolha” prestes a estourar depende, portanto, de outra pergunta: por quanto tempo os bancos centrais despejarão dinheiro e manterão juros próximos de zero ou negativos, empurrando investidores para ativos de risco?

O cenário pode mudar principalmente se as economias americana e européia se recuperarem mais rapidamente da pandemia; e mostrarem sinais de reaquecimento e de inflação.

Isso obrigaria seus bancos centrais a subir os juros, tornando os títulos estatais (mais seguros) novamente atrativos, murchando o mercado acionário.

Na semana passada, a inflação média anual implícita pelos próximos 10 anos em alguns títulos do Tesouro americano atingiu 2,2%, ante 1,6% em novembro. Trata-se da expectativa mais alta desde 2014.

Preocupações com a inflação nos EUA também vêm do gigantesco pacote de infraestrutura perseguido pelo presidente democrata Joe Biden (que aumentará a demanda por bens e serviços) e de sua meta de dobrar, para US$ 15 por hora, o valor do salário mínimo.

Na semana passada, o economista Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro de Bill Clinton e principal conselheiro econômico de Barack Obama, ambos democratas, escreveu que o plano de Biden é excessivo e pode desencadear “pressões inflacionárias de um tipo que não vimos em uma geração, com consequências para o valor do dólar e a estabilidade financeira”.

Na contramão, algumas correntes de economistas acreditam que mudanças estruturais trazidas pela tecnologia, novos investimentos, alterações no comportamento dos consumidores (que estariam poupando mais) e a “desiflação" global proporcionada pela máquina de produção chinesa tornam menos factível crises inflacionárias.

Reforçando essa percepção nos EUA, o Congressional Budget Office prevê que serão necessários vários anos para que a economia volte a atingir pleno potencial; e para que os empregos retornem ao nível pré pandemia.

Entre novembro e dezembro, a taxa de desemprego nos EUA caiu de 6,7% para 6,3%, mas a redução foi influenciada pelo desânimo dos trabalhadores em encontrar uma vaga —o que reduziu a população economicamente ativa. Antes da pandemia a taxa estava em 3,8%.

Se esse cenário de desalento persistir, os juros podem continuar baixos por muito tempo —exatamente o que o Fed tem sinalizado.

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Sede da Bolsa de Nova York, em Wall Street - Niyi Fote/TheNews2/Folhapress

Mas há controvérsias. No final de janeiro, o FMI (Fundo Monetário Internacional) divulgou relatório assinado pelo diretor do Departamento Monetário e de Mercado de Capitais, Tobias Adrian, e seu adjunto, Fabio Natalucci, em que mantêm a incômoda pergunta: "Quão sério é o risco de uma correção do mercado?”

"Embora não haja, por enquanto, alternativa ao apoio contínuo da política monetária [de injeção de liquidez], existem preocupações legítimas em torno da tomada excessiva de riscos e da exuberância do mercado”, diz o documento, que prossegue: "Um sentimento de complacência parece estar permeando os mercados, o que aumenta o risco de uma correção ou ‘reprecificação’”.

Em comunicado recente a investidores, Seth Klarman, fundador do fundo Baupost, com US$ 30 bilhões em ativos, resumiu o mal-estar: “Com tanto estímulo monetário, descobrir se a economia está em recessão ou não é como saber se há febre após uma grande dose de aspirina. Como sapos na panela lentamente aquecidos até ferver, sem que se deem conta, os investidores se condicionaram a não reconhecer mais o perigo.”

Mas o fato de órgãos como o FMI e de fundos bilionários colocarem o tema sobre mesa começa a pesar nos cálculos de muitos investidores metidos numa espécie de “sinuca": continuar apostando na valorização de ativos de risco ou se proteger em títulos estatais?

A dúvida é se, e quando, devem pular fora de um mercado que bate recordes seguidos. E se parece sensato remar contra as poderosas correntezas de liquidez dos bancos centrais.

Segundo pesquisa conduzida em janeiro pelo banco Morgan Stanley entre investidores com mais de US$ 1 milhão em ativos nos EUA, apenas 9% disseram acreditar que o mercado não esteja vivenciando uma “bolha”.

Os demais acham que ou ela está próxima (29%) ou que já estão em menor ou maior grau metidos nela (62%) —indicativo de que podem estar considerando deixar a festa mais cedo ou se posicionando perto da porta.

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