Após discurso, fica mais difícil mercado reeditar 'risco-Lula', dizem analistas

Ex-presidente, no entanto, critica privatizações e defende mais gastos públicos

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Rio de Janeiro e São Paulo

Apesar das críticas às privatizações e da defesa do aumento dos gastos públicos, o discurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva desta quarta-feira (10) foi visto por economistas, tanto do setor financeiro como ligados ao PT, como uma sinalização de que o petista está mais próximo do governante do período 2003-2010 do que do candidato que enfrentou Fernando Collor em 1989, que provocava apreensão entre empresários e investidores.

A visão é que está mais difícil para o mercado reeditar a versão Lula dos anos 1980 e 1990, anterior a sua vitória como presidente, quando gerava temor de que ele geraria uma crise econômica.

Há ainda os que avaliam que o ex-presidente, que já se definiu como uma metamorfose ambulante, incorporou ao discurso atual traços da versão Lula 2002, aquele que escreveu a Carta ao Povo Brasileiro, na qual sinalizou o compromisso com alguns dos pilares da política econômica do antecessor, o tucano Fernando Henrique Cardoso.

No discurso, Lula também acenou a empresários ao defender investimentos e lembrar a opção por José Alencar para vice de sua chapa, além de falar sobre a composição de conselhos com diferentes setores da sociedade durante seu governo.

Nesta quarta-feira, os mercados reagiram de forma indiferente ao discurso do petista, cujas palavras não interferiram na direção do dólar e do Ibovespa. Na segunda-feira (8), a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin, que anulou todas as condenações contra o ex-presidente pela Justiça Federal de Curitiba, devolvendo os direitos políticos a ele, foi recebida negativamente.

Ministro do Planejamento e da Fazenda no governo Dilma Rousseff, o economista Nelson Barbosa vê uma precipitação na discussão dos reflexos de eventual candidatura do ex-presidente sobre a economia.

“Não se deve usar uma eventual candidatura de oposição como desculpa para os erros em série cometidos pelo governo Bolsonaro”, afirma o ex-ministro, que é colunista da Folha.

Na opinião do economista, se decidisse concorrer, Lula protagonizaria uma candidatura de centro. “O PT nunca foi esse bicho papão que é pintado. As pessoas precisam de inimigos imaginários para sobreviver”.

Listando erros na política econômica do governo, como não se antecipar a uma segunda onda da pandemia do coronavírus, Barbosa ressalta que o país terá que encarar uma crise qualquer que seja o candidato, sendo ele "Jesus Cristo, o Ursinho Puff ou Lula".

“O presidente Bolsonaro é que tem que lidar com isso.”

Carla Argenta, economista-chefe da CM Capital, afirma que o comportamento da Bolsa mostra que o mercado comprou a ideia de um Lula que procura expandir sua base eleitoral.

“Lula tem esse perfil mais intervencionista, o que coloca um sinal amarelo para o mercado. Ele procurou, com algumas falas mais conciliadas, não deixar o mercado desamparado, trouxe elementos desse Lula de 2002 para próximo do Lula de 2006”, afirma Argenta.

A economista diz que o petista também sinalizou com uma política econômica distante do programa liberal que vem sendo levado a cabo desde que o governo PT deixou o poder, em 2016, mas que não se deve confundir as ações de Lula nessa área com o caminho adotado pela sua sucessora, Dilma Rousseff.

“Há uma diferença muito grande entre a política econômica de Lula 2 [de 2007 a 2010] para a do governo Dilma [2011-2016]. O próprio PT enxerga como um erro de política o plano econômico que foi levado a cabo pela ex-presidente Dilma”, afirma Argenta, citando divergências públicas do partido na época.

A economista Laura Carvalho diz que o petista fez um movimento de moderação. Professora da USP (Universidade de São Paulo), ela afirma que a decisão do ministro Edson Fachin não pode ser apontada como causa das trepidações do mercado. Segundo a economista, a volatilidade já vinha de antes e se deve também a diversos outros fatores internos e externos.

Questionada se a hipótese de que a candidatura do petista provocaria temores, levando-se em consideração os dois governos de Lula, a economista discordou.

“Vejo Lula como um conciliador que soube aproveitar muito bem o cenário externo favorável para realizar políticas importantes (de transferências de renda e investimento público em infraestrutura física e social) e conseguiu ao mesmo tempo reduzir a dívida pública, a inflação e acumular reservas internacionais. Não acho que faz sentido o temor. Ainda mais no cenário calamitoso em que nos encontramos”.

Professor do Instituto de Economia da Unicamp, Guilherme Mello afirma não ser possível vincular os movimentos dos mercados financeiros no Brasil à situação jurídica de Lula.

“Até dias antes do anúncio de Fachin, a Bolsa brasileira apresentava alta de apenas 3% no ano, muito abaixo do resto do mundo em um cenário de excesso de liquidez global. Se o rendimento for medido em dólar, a Bolsa brasileira acumula queda próxima a 20%”, diz.

Segundo ele, o período do governo Lula ficou marcado como uma espécie de “era dourada” na economia brasileira, em que todos ganharam com o crescimento robusto da economia: os trabalhadores, os empresários e inclusive quem aplicava no mercado de ações, já que as empresas estavam crescendo, investindo e lucrando.

“O chamado ‘risco Lula’ é um bicho papão inventado com o objetivo de manipular o mercado e os humores políticos. Ele não existe na prática, mas funciona para assustar os incautos”, diz Mello, citando o comportamento do mercado nesta quarta-feira, quando a Bolsa subiu 1,29% e o dólar caiu 2,36%, para R$ 5,655.

“Seria por que o ‘mercado’ gostou do discurso do presidente Lula?”

Economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves afirma que o mercado reagiu mais à aprovação do texto-base da PEC Emergencial do que ao discurso do ex-presidente.

“O risco que o mercado vê em Lula é menor caso a PEC passe sem grandes perdas para a versão original”, afirma.

Para ele, Lula fez um gesto conciliador ao mercado quando afirmou que o presidente Jair Bolsonaro não conversa com os diversos setores da sociedade. O economista ressalta, porém, que “a pecha que ficou sobre o PT e Lula ainda pesa muito”.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.