Startup faz 'match' entre sobras de vacina e interessados na dose nos EUA

Site tenta evitar que doses extras do imunizante acabem no lixo

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Katie Thomas
Nova York | The New York Times

Na corrida para conseguir uma vacina, as doses que sobram se tornaram muito disputadas na pandemia.

Doses extra —que devem ser usadas dentro de algumas horas após serem retiradas do gelo— já foram distribuídas a clientes que vão comprar salgadinhos em farmácias à meia-noite, amigos de enfermeiros e compradores no horário próximo do fechamento de supermercados e farmácias. Em alguns grandes locais de vacinação, a corrida para usar todas as doses provoca uma enxurrada de telefonemas no final do dia.

Em todo caso, se essas doses restantes não encontrarem braços disponíveis, devem ir para o lixo.

Agora, uma startup sediada em Nova York pretende organizar um pouco a corrida pelas doses excedentes. A empresa Dr. B está ligando fornecedores de vacinas que possuem doses extras a pessoas dispostas a receber uma assim que forem avisadas.

Funcionária aplica dose de vacina da Moderna em farmácia em Little Rock, Arkansas - Rory Doyle - 15.mar.2021/The New York Times

Desde que o serviço começou, no mês passado, mais de 500 mil pessoas enviaram uma série de informações pessoais para se inscrever no serviço, que é gratuito para usuários e fornecedores. Dois locais de vacinação começaram a testar o programa, e a companhia disse que cerca de 200 outros fornecedores se inscreveram para participar.

A Dr. B é apenas uma tentativa de coordenar a caótica mistura de sites da web públicos e privados que permitem às pessoas intituladas marcar hora para se vacinar. Críticos disseram que o sistema atual é confuso, inconfiável e muitas vezes exige acesso à internet, assim como tempo para percorrer sites em busca de um difícil horário vago. Em muitos lugares, ele também ignora amplamente as pessoas que ainda não têm direito de se vacinar, desperdiçando a oportunidade de colocá-las em uma lista de espera formal.

Enquanto a Dr. B não resolve todos esses problemas maiores, se ela crescer como alguns esperam poderá servir de modelo para uma maneira melhor e mais equitativa de agendar vacinações.

"Eu acho uma ótima ideia", disse Sharon Whisenand, administradora do departamento de saúde do condado de Randolph, na área rural de Missouri.

Whisenand disse que de 60 a 80 pessoas deixaram de comparecer na primeira vacinação em massa no condado no final de janeiro, levando sua equipe a fazer dezenas de ligações no final do dia para pessoas na lista de espera.

"Parecíamos um pouco um 'call center'", disse ela.

Os trabalhadores finalmente encontraram pessoas suficientes para aplicar a maioria das doses que sobraram, mas algumas foram descartadas.

A Dr. B é uma iniciativa comercial, montada como empresa de benefício público que inclui em sua missão a distribuição de vacinas eficiente e equitativa. Mas seu fundador, Cyrus Massoumi, um empresário tecnológico, ainda não descreveu o modelo de negócios da Dr. B. Ele disse que estava financiando o projeto com dinheiro próprio e não tinha planos para coletar receitas. O nome da companhia é homenagem a seu avô, cujo apelido era Dr. Bubba e que se tornou médico durante a epidemia de influenza em 1918.

Massoumi é um dos fundadores e ex-CEO da ZocDoc, que ajuda pacientes a marcar consultas com médicos disponíveis, e fundador da Shadow, empresa que reúne animais de estimação perdidos e seus donos usando tecnologia e voluntários locais. Assim como essas duas empresas, a Dr. B tenta fazer conexões entre grupos que precisam de alguma coisa reciprocamente.

"Afinal, os pacientes precisam dessa vacina, e há fornecedores que precisam de ajuda para levá-la às pessoas com prioridade", disse Massoumi. "Essa é minha motivação."

Depois que teve a ideia da Dr. B em janeiro, Massoumi recrutou vários engenheiros da Haven [uma colaboração em atendimento de saúde já extinta entre Amazon, Berkshire Hathaway e J.P. Morgan] para construir seu site e banco de dados. A Amazon também doou serviços de internet, segundo Massoumi.

As 500 mil pessoas que se inscreveram no serviço inseriram informação biológica básica, como data de nascimento, endereço, condições de saúde e o tipo de trabalho que fazem. Se os provedores de vacinas perto delas tiverem doses extras, elas serão avisadas por mensagem de texto e terão 15 minutos para responder. Então precisarão ir rapidamente ao local de vacinação.

O banco de dados da empresa seleciona as pessoas segundo as regras locais de prioridade, dando aos provedores uma melhor probabilidade de administrar as doses restantes aos que mais precisam.

Para muitos provedores, esse procedimento organizado seria uma mudança bem-vinda dos sistemas aleatórios que usam hoje. Em algumas farmácias e redes de supermercados (locais de vacinação nos EUA), os trabalhadores recorreram a indagar pelos corredores quem estava interessado em se vacinar no último minuto. Em outros locais, os que querem tomá-la esperam em fila no final de cada turno, o que pode apresentar risco de infecção, especialmente dos mais vulneráveis.

Apesar de certos resmungos sobre pessoas mais jovens e saudáveis furarem a fila para conseguir doses que sobraram, especialistas em saúde pública e muitos estudiosos de ética disseram que o mais importante é que as vacinas não vão para o lixo. No início da distribuição de vacinas, alguns políticos, como o governador de Nova York, Andrew Cuomo, ameaçaram sanções contra os provedores por não seguirem exatamente as regras de prioridade, e um médico no Texas perdeu o emprego depois que deu doses que iam expirar a pessoas com problemas de saúde, incluindo sua mulher.

Para quem recebe a oferta de uma vacina de última hora, "a pessoa não deve negar por querer que ela vá para outra pessoa", disse a doutora Shikha Jain, professora-assistente de medicina na Universidade de Illinois em Chicago e cofundadora da Impact, grupo que trabalha para melhorar a distribuição equitativa de vacinas. No entanto, "é realmente importante ser intencional e equitativo", disse ela.

Massoumi afirmou que tomou várias medidas para garantir que o serviço seja justo. Isso incluiu recusar solicitações iniciais de publicações importantes e promover a Dr. B em ligações por Zoom com representantes de grupos como igrejas negras e grupos comunitários de nativos-americanos, já que a pandemia afetou de modo desproporcional os grupos não brancos.

"Foi realmente importante para ele deixar essas comunidades terem potencialmente um lugar na linha de frente, ou receber a informação cedo", disse Brooke Williams, que é negra e membro do Coro da Resistência Revival em Nova York. Ela entrou numa das primeiras ligações do Zoom e começou a espalhar a notícia.

"Saber que vacinas estavam sendo jogadas fora foi de partir o coração e causar revolta", afirmou.

O serviço sofre, entretanto, algumas das mesmas barreiras que prejudicaram iniciativas de vacinação até agora. Embora se inscrever seja fácil, é preciso ter conexão com a internet e acesso fácil a um telefone celular. Devido à natureza de última hora das doses restantes, os participantes precisam ter agendas flexíveis e acesso a transporte.

"Ainda depende muito da internet, por isso dependerá de quem ouve falar nisso", disse Arthur Caplan, ético da medicina na Escola de Medicina Grossman na Universidade de Nova York. "Parece que ele está tentando resolver um problema e fazer o bem, mas fico triste que os governos —condados, cidades, organizações nacionais— não tenham se preparado e não reajam mais rapidamente ao dar conselho e orientação."

Massoumi comentou que o site permitia que pessoas como voluntários da comunidade se inscrevam em nome de outros. O site também está disponível em espanhol.

Ele comentou que a instalação do programa, que permite que as pessoas se inscrevam, depois aguardem uma notificação com base na prioridade, é melhor que outros que exigem horas renovando os sites para talvez ter a sorte de uma rara vaga.

Algumas autoridades de saúde, como em Washington. D.C., e Virgínia Ocidental, estão mudando para um sistema semelhante de pré-registro, o que pode ajudar a nivelar o campo de jogo.

"Há esta sensação de que você não sabe onde está, e a única maneira de garantir seu lugar é recarregando a página do navegador", disse John Brownstein, pesquisador do Hospital Infantil de Boston que dirige o portal online VaccineFinder.org, que ajuda as pessoas a marcar horários de vacinação.

Para Brittany Marsh, dona de uma farmácia em Little Rock, em Arkansas, descobrir o que fazer com as doses diárias que restavam era uma dor de cabeça diária.

Ela disse que o número de pessoas que não compareciam aumentou quando as vacinas ficaram mais disponíveis, e outras tiveram de cancelar na última hora porque pegaram Covid-19 ou foram expostas a alguém que estava doente. Embora às vezes as pessoas liguem, disse ela, "na maioria das vezes simplesmente não aparecem".

Marsh está testando o serviço da Dr. B há semanas e disse que ele poupou seus funcionários do trabalho de ligar para uma lista de espera para preencher as vagas. Com o Dr. B, disse ela, "eu sei que eles estão ligando para o que pensamos ser o grupo certo de pessoas para vir receber a vacina, e assim não precisamos jogar nenhuma fora".

A Dr. B revelou poucos detalhes sobre por que os provedores se interessaram por usar sua plataforma, além de que os provedores estão baseados em 30 estados e incluem consultórios, farmácias e departamentos médicos de grandes instituições acadêmicas.

A companhia coleta informação pessoal delicada que promete proteger, mesmo que, como não é um provedor médico, os dados não sejam protegidos pela lei federal de privacidade em atenção à saúde.

Quando perguntado sobre seus planos em longo prazo para a empresa, Massoumi objetou, comentando que a corrida para se vacinar não vai terminar tão cedo.

"Neste momento, só queremos que as vacinas sejam aplicadas da melhor maneira possível", disse. "Não posso pensar num melhor uso para o dinheiro do que ajudar a resolver a pandemia, por isso estamos firmemente enfocados nisso."

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.