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Beatriz Bevilaqua

Abismo entre homens e mulheres persiste no mundo das startups

Somente 4,7% das empresas brasileiras são lideradas por elas

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Beatriz Bevilaqua

É jornalista e comunicadora de startups

Não é de hoje que acompanhamos o sexismo no ambiente da inovação e novas tecnologias. Há quase dez anos participo do ecossistema de startups e a verdade é que o cenário não mudou tanto de lá pra cá —apesar de muita luta e de várias iniciativas de fomento à equidade de gênero, ainda falta muito para alcançarmos patamares mais altos. Sim, temos atualmente mais mulheres que há uma década, mas os números revelam os obstáculos que dificultam a nossa escalada.

No Brasil, somente 4,7% das startups são lideradas por mulheres, segundo o “Female Founders Report 2021", estudo divulgado nesta segunda-feira (8) pela Distrito, em parceria com Endevor, B2Mamy, Google e outras associações.

A pesquisa ainda aponta que, apesar dos recordes de aportes em startups brasileiras, as empresas fundadas só por mulheres receberam no ano passado 0,04% do total de US$ 3,5 bilhões de investimentos em empresas aqui no país. Além disso, 72% das mulheres também afirmaram ter passado por algum tipo de assédio moral durante o processo de captação de investimento para seus negócios.

Workshops com empresárias, incubadora de empresas na Líbia; no Brasil, menos de 5% das startups são lideradas por mulheres
Workshops com empresárias, incubadora de empresas na Líbia; no Brasil, menos de 5% das startups são lideradas por mulheres - Divulgação

Nos bastidores de algumas empresas "disruptivas", não é incomum escutar algum tipo de comentário estereotipado sobre a capacidade e o papel das mulheres em diferentes esferas da sociedade. O nosso desafio está em como incentivá-las a assumirem papéis de liderança, mesmo em ambientes hostis ou majoritariamente masculinos, para diminuir algumas das desigualdades sistêmicas no mercado. Para isso, vale também o apoio de homens que não se deixam influenciar pelo machismo enraizado de gerações e apostam também em negócios liderados por mulheres.

A dificuldade para buscar investimentos é um dos principais entraves para o menor número de líderes femininas, além da falta de incentivo para a entrada no mercado de tecnologia. De acordo com o Crunchbase, plataforma usada para encontrar informações comerciais sobre empresas privadas e públicas, apenas 2,3% do total de aportes de capital de risco em startups no mundo no último ano foi destinado a empresas fundadas por mulheres.

Por outro lado, um estudo da BCG (The Boston Consulting Group), revela que apesar de menos investimentos, faturamos mais em nossos negócios. Segundo a pesquisa, para cada US$ 1 de financiamento, as startups com mulheres fundadoras geraram US$ 0,78 , enquanto as fundadas por homens renderam menos da metade disso (US$ 0,31).

Nos últimos anos, a quantidade de startups fundadas por mulheres no Brasil ficou praticamente estagnada. O cenário é desfavorável, mas é possível reverter a situação buscando parcerias estratégicas com corporações que realmente estejam alinhadas ao nosso propósito, incentivando mais negócios femininos. Somente quando tivermos mais equidade de gênero na liderança destas empresas, conseguiremos mais oportunidades efetivas e consequentemente também mais visibilidade e investimentos.

Também vejo a necessidade de reconhecermos a inovação de negócios além do eixo Sul-Sudeste, pois as diferenças de gênero e diversidade se acentuam no Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país. Vivemos uma realidade econômica e social muito diferente de países desenvolvidos, refletindo num ambiente de inovação excludente e quase impenetrável.

Outro ponto a se considerar é que as mulheres foram severamente impactadas desde o início da pandemia por diferentes razões e, como disse no artigo anterior, estamos todos esgotados —muitos de nós com burnout. No caso das empreendedoras que também são mães, com o fechamento das escolas e a falta de uma rede de apoio (seja pública ou privada), estas ficaram ainda mais sobrecarregadas impactando a competitividade delas no mundo dos negócios.

Precisamos lutar por mais equidade de gênero e investimento em nossas startups femininas. Fortaleçam as suas redes de relacionamentos profissionais e apostem na própria comunicação. Para que algo mude, precisamos nos expressar e fazer barulho —para isso vale Youtube, Linkedln, Instagram e qualquer outra plataforma de alto alcance. Como disse uma vez Madeleine Albright, primeira mulher secretária de estado dos EUA, "Demorei muito tempo para encontrar a minha voz, e agora que eu tenho, não vou me calar".

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