Risco de falta de energia e escassez de insumos na indústria podem cortar até 1 ponto do PIB

Governo garante que não faltará energia, mas equipe econômica teme aquecimento de consumo acima do previsto no fim do ano

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Brasília

O risco de desabastecimento de energia e a falta de fornecimento de insumos para a indústria ameaçam derrubar em até 1 ponto percentual o ritmo da retomada, segundo técnicos do Ministério da Economia.

O diagnóstico ameaça o otimismo do ministro Paulo Guedes. Animado com a experiência da vacinação em massa em Serrana (SP), ele esperava crescimento na casa de 6% neste ano.

O impulso seria a imunização de pelo menos metade da população até o fim do terceiro trimestre.

No entanto, na avaliação de auxiliares de Guedes, o acionamento das usinas térmicas, que geram energia a custo muito mais elevado, vai pressionar para cima a conta de luz neste ano, especialmente a do setor produtivo, levando a inflação para cerca de 4,5%, acima do centro da meta novamente.

Nos últimos anos, o CMN (Conselho Monetário Nacional) tem definido um intervalo de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo. Por exemplo, no caso de 2020, a meta é de 4% e o intervalo é de 2,50% a 5,50%

Nesse patamar, a tendência, ainda segundo assessores de Guedes, é que o Banco Central aumente a taxa básica de juros para algo perto de 6% ao ano. Hoje, a Selic está em 3,5%.

O ministro avalia que a vacinação determinará o ritmo de crescimento da economia porque a população voltará às ruas. Sem medo, o consumo reaquece e a roda da economia volta a girar.

Serrana, por exemplo, cidade paulista abriga estudo de vacinação do Instituto Butantan, na região metropolitana de Ribeirão Preto, quer reabrir seguindo protocolos de segurança. Lá, 95% da população está vacina com Coronavac.

No entanto, em nível federal, além das dificuldades em se comprar vacinas suficientes para imunizar ao menos metade dos brasileiros até setembro, existem outros problemas a serem resolvidos pela equipe econômica.

Segundo assessores do ministro, hoje há defasagem na entrega de insumos para a indústria, o que segura a produção e o consumo. Com menos produtos no mercado, também pode haver pressão sobre preços de mercadorias, impactando a inflação novamente.

Dentre os setores afetados por essa situação estão as montadoras de veículos, a indústria de chips, e toda a cadeia do plástico e de embalagens.

Hoje, diante da escassez de insumos, a produção encontra-se limitada e também há pouca diversificação de mercadorias nas linhas de fabricação.

Com a crise de energia, esse cenário pode se deteriorar ainda mais na avaliação de assessores do Guedes.

O impacto da escassez de energia levará um crescimento menos forte caso ocorra problemas no fornecimento para as indústrias a partir de setembro, justamente no pico da produção para fazer frente ao consumo mais forte do último trimestre —normalmente, o mais forte do ano.

Para dar conta desse período e evitar cortes de fornecimento, o governo decidiu autorizar o uso do parque de térmicas.

Uma portaria do Ministério de Minas e Energia permitirá a contratação das chamadas térmicas "merchants", em mais um esforço para tentar evitar um racionamento de energia diante da grave seca sobre os reservatórios das hidrelétricas.

Essas usinas vendiam energia exclusivamente no mercado de curto prazo e algumas delas estão hoje sem contrato e com operações paralisadas. A ideia é integrá-las ao sistema elétrico, ampliando a capacidade de geração térmica para poupar água nas barragens.

O problema desse acionamento é o custo, em média, R$ 1.200 o MWh (megawatt-hora), quase sete vezes acima de outras fontes.

Em meio à maior seca da história, o consumidor já vem pagando essa conta por causa da falta de água nos reservatórios das hidrelétricas, que geram a um custo mais baixo.

Outra complicação é a entrega da energia abaixo do necessário por esse parque gerador.

Cálculos do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) indicam que a conta chega a R$ 8,7 bilhões por ano, considerando os projetos que já poderiam ter o contrato rompido por passarem mais tempo do que o permitido sem gerar energia.

A EPE (Empresa de Pesquisa Energética) constatou que, desde 2015, a taxa de indisponibilidade dessas usinas vem subindo. Isso ocorre, por exemplo, em razão de longos períodos de manutenção.

Em 2020, quando o Brasil teve a pior seca da história, térmicas a diesel, por exemplo, ficaram indisponíveis, em média, 53% do tempo. No caso das térmicas a óleo combustível, a indisponibilidade foi de 26% do período pago. Nas usinas a gás e carvão, 19%.

Mesmo assim, a medida provisória da capitalização da Eletrobras, incluiu a possibilidade de contratação de mais 6 GW (gigawatts) de usinas termelétricas.

Algumas dessas estruturas estão literalmente paralisadas hoje. Outras nem sequer estão conectadas a gasodutos. Essas restrições elevam consideravelmente os custos da operação.

Entidades ligadas ao setor elétrico e à indústria calculam que esses jabutis na MP de privatização da Eletrobras devem custar R$ 41 bilhões ao consumidor brasileiro. O valor seria suficiente para elevar em 10% a conta de luz, considerando somente os custos de operação.

Segundo o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, esse esforço deverá garantir que não falte energia para este ano.

Procurado, o Ministério da Economia afirmou, por meio de sua assessoria, que o assunto é conduzido pelo Ministério de Minas Energia. Por isso, a pasta de Guedes não se manifestou sobre os questionamentos da Folha.

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