'Caminhão de ossos' no Rio é disputado por população com fome

Crise força parte da população a recorrer até a itens rejeitados para se alimentar

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Rio de Janeiro e Brasília

A crise econômica gerada pela pandemia trouxe de volta uma ameaça para parte dos brasileiros: a fome. Com inflação e desemprego elevados, o país passa a registrar mais cenas de pessoas em busca de doações de alimentos e até de itens rejeitados por supermercados.

O caso mais recente a ganhar repercussão ocorreu na zona sul do Rio de Janeiro. Nesta quarta-feira (29), reportagem do jornal Extra mostrou que um caminhão com restos de carne e ossos, no bairro Glória, virou ponto de distribuição para moradores que têm fome e não possuem dinheiro suficiente para comprar alimento.

Comerciantes da região relataram à Folha que a cena costuma ocorrer durante a manhã, em parte da semana. A reportagem tentou contato com os responsáveis pela distribuição, mas não obteve retorno. Ao Extra, o motorista do caminhão indicou que antes as pessoas buscavam os ossos para dar a cachorros, e hoje as sobras vão para consumo próprio.

Durante sessão da CPI da Covid nesta quarta-feira, o senador Humberto Costa (PT-PE) comentou, com críticas ao governo Jair Bolsonaro, o caso de pessoas garimpando restos de carne entre ossos no Rio.

“Não sei se o senhor viu, na foto de um jornal, um bocado de carcaça de osso e umas pessoas querendo levar aquilo ali, que antigamente compravam pra dar para os cachorros, e hoje as pessoas compram para fazer sopa e comer o resto da carne”, disse, durante sua fala no depoimento do empresário bolsonarista Luciano Hang.

O senador disse que “é isto que este governo e esse projeto causaram ao nosso país: uma tragédia sanitária, econômica, social e política”.

“É o governo que gerou a maior crise ambiental que este país já teve. Uma vergonha –uma vergonha –no mundo, uma crise energética, apagão. Coisa que a gente pensava que nunca ia mais acontecer, por quê? Porque esse presidente não governa, ele terceirizou o governo, ele entregou pra mão de todo mundo”, afirmou.

População disputa ossos e restos de carne no Rio - Domingos Peixoto - 28.set.2021/Agência O Globo

Cenas como essa não são exclusividade do Rio. Durante a pandemia, cidades como Cuiabá (MT) também registraram filas de pessoas em busca de doações de restos de ossos de boi. Os resquícios de carne acabam virando prato principal na casa de quem sofre com dificuldades financeiras.

A organização social Viva Rio afirma que percebeu um aumento na fome com a chegada da pandemia. Por isso, ajudou a promover uma campanha de doações de alimentos, a SOS Favela, a partir da fase inicial da crise sanitária. Segundo a organização, 450 comunidades do estado do Rio chegaram a ser beneficiadas.

“O impacto da pandemia foi tremendo. O último a se recuperar é o mais pobre, que depende do trabalho nas ruas, por conta própria e informal. Ele é o primeiro a entrar na fila das perdas e o último a sair”, diz o antropólogo Rubem César Fernandes, fundador da Viva Rio.

“A situação ainda é dramática. A população de rua aumentou.”

No estado do Rio de Janeiro, 2,6 milhões de pessoas (o equivalente a 15,1% da população local) estavam em situação de extrema pobreza e viviam com até R$ 89 por mês no começo deste ano, segundo levantamento da Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), a partir de dados do Ministério da Cidadania.

Como mostrou reportagem da Folha em julho, nem o feijão com arroz escapou da alta da inflação e do desemprego na pandemia. A aceleração de preços e renda em queda mudaram o cardápio dos brasileiros mais pobres, que se viram obrigados a optar por produtos mais baratos. Moradores de periferia passaram a recorrer até a pé de frango contra fome.

Em 2020, a fome atingiu 19 milhões de brasileiros, conforme dados do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, conduzido pela Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional). O levantamento foi divulgado em abril.

“A questão da fome é crônica no país. Temos observado, desde 2014, um aumento nos níveis de insegurança alimentar. Com a pandemia, a gente percebe um agravamento da situação”, analisa a nutricionista Beatriz Blackman, da Rede de Mulheres Negras para Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional.

“A insegurança alimentar parte do princípio de que você não tem certeza de que vai conseguir se alimentar amanhã. A pessoa tem de escolher entre um e outro alimento, opta por um mais barato”, acrescenta.

Segundo ela, o quadro é “complexo” e exige “soluções multissetoriais”.

“Precisamos resolver questões estruturais. O combate à fome não é feito com alimento de baixa qualidade. É necessária uma melhora no emprego, na renda e na educação”, diz.

A crise gerada pela Covid-19 trouxe consigo uma combinação que atinge em cheio o bolso dos brasileiros: aumento do desemprego e da inflação. Em conjunto, esses fatores reduzem o poder de compra da população, sobretudo entre os mais pobres.

Dados compilados pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) ajudam a entender o cenário. Para as famílias de renda mais baixa, a inflação acumulada em 12 meses até agosto alcançou 10,63%, a maior marca entre as seis faixas de rendimento pesquisadas.

No segundo trimestre deste ano, a taxa de desemprego até recuou para 14,1% no país, conforme o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Contudo, o país ainda registrava um exército de 14,4 milhões de desempregados.

No mundo, cerca de 118 milhões de pessoas começaram a passar fome em 2020, indicou relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) publicado em julho.

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