Liz Truss demite ministro das Finanças do Reino Unido em plena tempestade política

Primeira-ministra britânica, que tenta se manter no cargo, desiste de plano de corte de impostos

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Anna Cuenca William James
Londres | AFP

A primeira-ministra do Reino Unido, Liz Truss, demitiu o ministro das Finanças do país, Kwasi Kwarteng, nesta sexta-feira (14) e nomeou Jeremy Hunt, ex-ministro de Relações Exteriores e Saúde, para assumir o cargo. Horas depois, anunciou o aumento de impostos para empresas, um recuo em seu plano fiscal. O movimento ocorre em meio a uma tempestade econômica e política que ameaça a continuidade de sua liderança.

Na quinta-feira (13), Kwarteng tinha declarado que não iria a lugar nenhum, apesar da turbulência nos mercados financeiros provocada pelo planos econômicos polêmicos do governo.

O ex-ministro das Finanças do Reino Unido, Kwasi Kwarteng, e a primeira-ministra Liz Truss em evento do Partido Conservador em Birmingham - Oli Scarff - 2.out.2022/AFP

Pouco depois, o ultraliberal nascido em Londres, de pais imigrantes de Gana, confirmou no Twitter que Truss, sua aliada de longa data, o demitiu do cargo.

"Você me pediu para deixar o cargo de ministro das Finanças. Eu aceitei", escreveu Kwarteng em uma carta dirigida a Truss e publicada em sua conta no Twitter.

Em um mercado extremamente volátil por dias, a instabilidade política pesou sobre a libra esterlina, que nesta sexta-feira (14) caiu 1,43% em relação ao dólar, cotada a US$ 1,1167. Na comparação com a moeda brasileira, a divisa britânica cedeu 1,58%, ao valor de R$ 5,92.

Apenas um dia antes, a moeda britânica havia disparado devido a especulações sobre possíveis mudanças na controversa política fiscal britânica.

As ações europeias subiram nesta sexta-feira em um final otimista para a semana, embora o impulso inicial que surgiu depois da reviravolta do Reino Unido sobre seus planos de corte de impostos tenha perdido força diante da incerteza sobre a postura fiscal do governo britânico.

Kwarteng estava em Washington para participar das reuniões anuais do FMI (Fundo Monetário Internacional) e do Banco Mundial, mas foi divulgado nesta sexta-feira que ele estava retornando a Londres um dia antes do planejado.

Como sinal de grande expectativa da mídia, os canais de notícias locais exibiram ao vivo o pouso do avião da British Airways em que ele chegou ao aeroporto de Heathrow, em Londres.

Pouco depois, foi anunciado que Truss concederia uma entrevista a jornalistas à tarde, e muitos já especulavam que a chefe do Governo teria demitido seu ministro das Finanças e braço direito, na tentativa de se manter no cargo.

Sob forte pressão, governo volta atrás em plano de corte de impostos

Horas depois de dispensar o ministro, Truss anunciou que o imposto corporativo no Reino Unido subirá para 25%, uma reviravolta no pacote de cortes de tributos não financiados de Kwarteng, de 43 bilhões de libras (R$ 257 bilhões).

Ao ser anunciado no dia 23 de setembro, o orçamento fiscal do antigo ministro rapidamente se transformou em um desastre econômico e político e parlamentares conservadores já previam sua demissão.

Na ocasião, Kwarteng havia dito que o imposto corporativo seria congelado em 19%, eliminando o aumento para 25% planejado por seu antecessor, e anunciou uma série de outros cortes de impostos não financiados que, desde então, têm abalado os mercados financeiros.

Truss disse que havia decidido manter a elevação, um movimento que aumentará as contas públicas em 18 bilhões de libras (US$ 20 bilhões).

"É claro que partes do nosso miniorçamento foram além e mais rápido do que os mercados esperavam", disse Truss na entrevista a jornalistas. "Precisamos agir agora para tranquilizar os mercados em relação à nossa disciplina fiscal."

As despesas do governo britânico aumentarão com menos rapidez do que o previsto anteriormente como parte de um esforço para reduzir a dívida como proporção do PIB a médio prazo, disse a primeira-ministra.

"Vamos controlar o tamanho do Estado para garantir que o dinheiro dos contribuintes seja sempre bem gasto. Nosso setor público se tornará mais eficiente na prestação de serviços de classe mundial para o povo britânico e os gastos crescerão com menos rapidez do que o planejado anteriormente", disse Truss.

As empresas britânicas não haviam sido muito favoráveis ao congelamento dos impostos corporativos. Muitas dizem que a estabilidade política e econômica é mais importante para sua capacidade de tomar decisões e fazer negócios do que quanto pagam de impostos.

Desenhado com o objetivo de impulsionar o crescimento, o programa de corte de impostos de 45 bilhões de libras (US$ 50 bilhões) golpeou a libra, forçando o Banco da Inglaterra a intervir para estabilizar os mercados, e causou reações políticas.

Kitty Ussher, economista-chefe do Instituto de Diretores, disse que o congelamento do imposto corporativo não era algo que a organização havia solicitado.

"Não estava de forma alguma na lista", disse Ussher.

Ela afirmou que a recente convulsão política mais o aumento da inflação estavam pesando sobre os planos de investimento das empresas de médio porte, que compõem a maior parte dos membros do instituto.

A redução anunciada por Kwarteng da maior alíquota do Imposto de Renda, outra parte de seu plano, já havia sido revertida no início de outubro.

O "miniorçamento", incluindo seus cortes de impostos, refletiu a política de Truss e teve destaque em sua campanha pela liderança conservadora. Reverter essa política representa um desastre político para ela.

Novo ministro das Finanças

Para substituir Kwarteng, Truss nomeou Jeremy Hunt, ex-secretário do exterior e da saúde que havia apoiado seu rival Rishi Sunak na corrida para se tornar líder do Partido Conservador. Ele é o quarto ministro das Finanças em quatro meses no Reino Unido, onde milhões de pessoas estão enfrentando uma crise do custo de vida.

"Isto marca a primeira vez em décadas, desde pelo menos os anos 1990, que os mercados financeiros forçaram o governo de uma grande economia desenvolvida com seu próprio banco central a capitular sobre as principais ambições fiscais", disseram analistas da Evercore.

Os títulos do governo –no centro da turbulência que se seguiu ao "miniorçamento" de Kwarteng no mês passado– já se recuperaram das baixas da semana, à medida que os mercados previam cada vez mais uma reviravolta nos impostos.

O caos do mercado levou muitos parlamentares conservadores a criticar abertamente a liderança de Truss e especular se seu governo sobreviverá nos próximos meses.

"O problema é que ela só tem cerca de 25% do partido parlamentar a apoiá-la –se tanto", disse um veterano Tory ao Financial Times. "Ela tem muitos deputados descontentes para administrar."

A baixa recorde do governo nas pesquisas –numa delas, os conservadores caíram para 19%, com os trabalhistas com 34 pontos de vantagem– aumentou a pressão dos parlamentares conservadores para que Truss recuasse em seus planos econômicos.

Enquanto o governo procurava manter sua mensagem pública, o ministro do Comércio, Greg Hands, disse na sexta-feira que a primeira-ministra e o chanceler estavam "absolutamente determinados a manter o plano de crescimento". Ele disse à rádio LBC: "Não há absolutamente nenhum plano de mudar nada, exceto o fato de que haverá um plano fiscal de médio prazo".

Kwarteng disse que anunciaria esse plano –quando ele explicaria como pretenderia reduzir a dívida– em 31 de outubro, juntamente com as previsões do Escritório de Responsabilidade Orçamentária. Mas a pressão aumentou constantemente sobre o governo para agir mais rapidamente.

Um ex-ministro do gabinete argumentou que os recentes erros de Truss se devem à falta de experiência de sua equipe principal. "Parece que não há adultos suficientes na sala", disse.

Alguns membros do alto escalão sugeriram a possibilidade de substituir Truss por uma chapa conjunta do ex-chanceler Rishi Sunak e Penny Mordaunt, líder da Câmara dos Comuns.

A ex-secretária de Cultura Nadine Dorries rejeitou a sugestão no Twitter, escrevendo: "É um complô não para remover um primeiro-ministro, mas para derrubar a democracia".

Com Financial Times. Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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