Cursos ensinam quem empreende sozinho a otimizar seus resultados

Bom planejamento financeiro é especialmente importante em empresas pequenas

Carlos Gomes em sua empresa Gelos Pinguim, na zona sul de São Paulo
Carlos Gomes em sua empresa Gelos Pinguim, na zona sul de São Paulo - Danilo Verpa/Folhapress
Valdir Ribeiro Jr.
São Paulo

Mais da metade (53%) das empresas do país operam sem sócios ou empregados, aponta relatório deste mês do Global Entrepreneurship Monitor. O estudo mostra também que a necessidade é a principal motivadora do empreendedorismo no Brasil. 

Essa empreitada forçada e solitária tem tudo para dar errado, principalmente se a pessoa não tiver capacitação na área financeira.

“Muita gente está empreendendo para suprir as necessidades de casa. Só que são poucos os que contam com o preparo necessário para começar um negócio”, diz João Carlos Natal, consultor do Sebrae-SP.

Cursos presenciais ou online ajudam o empreendedor novato a organizar suas finanças e a otimizar seu planejamento de produção.

Carlos Gomes, dono da empresa de gelo Gelos Pinguim, criada em 2003 na zona sul de São Paulo, foi atrás de capacitação quando se viu em uma situação complicada. 

“Em 2011, perdi um cliente que comprava quase 45% da minha produção”, conta. “Tive que fazer empréstimos em bancos para manter a empresa, caí no cheque especial. Foi quando percebi que precisava de ajuda para reestruturar minhas finanças.”

Gomes matriculou-se em uma série de cursos no Sebrae para aprender a detectar erros no fluxo de caixa, reestruturar o planejamento financeiro da empresa e aprimorar a busca por novos clientes.

“Eu tinha o hábito de pagar muita coisa à vista para os fornecedores, enquanto meus clientes pagavam com prazo alongado. Meu fluxo de caixa estava sempre apertado. Financiava o cliente, mas o fornecedor não me dava moleza”, diz. Em sala de aula, aprendeu a negociar com o fornecedor.

Também encontrou, após os estudos, problemas na forma com que estipulava os preços dos seus produtos: calculava o valor em cima dos valores cobrados pelos concorrentes, sem considerar se eles tinham os mesmo custos de operação que ele.

“Eu tomava como base os concorrentes pequenos, que vendiam com preços mais baixos, mas não tinham a mesma estrutura que eu. Sem contar que não existia garantia de que o preço que eles usavam estava correto até mesmo para o negócio deles”, diz. 

Gomes passou a calcular sua própria margem e conseguiu melhorar os resultados da empresa.

Um bom planejamento financeiro é essencial em qualquer negócio, mas é especialmente importante em empresas pequenas, quando o dono utiliza seu próprio dinheiro, afirma Luis Felipe Franco, gerente de aceleração da Endeavor, entidade de apoio a empreendedores.

O capital de giro —dinheiro disponível para manter o negócio funcionando— é um dos aspectos que merecem mais atenção. 

“Se ele é do próprio empreendedor, torna-se o capital mais caro que existe, porque é um dinheiro retirado da família para tentar um negócio. É um dinheiro que não tem volta e, se a ideia não der certo, pode comprometer a renda familiar”, diz Luis Felipe.

Natal, do Sebrae, afirma que o pequeno empresário não pode confundir o caixa do negócio com seu dinheiro pessoal. 

“Essa é a regra número um: separar a pessoa física da pessoa jurídica. Se o orçamento doméstico não está separado, não há como ter um controle efetivo e o empreendedor não vai conseguir saber quanto está entrando e saindo do seu negócio”, explica.

Com a capacitação, Gomes conseguiu expandir sua rede de compradores. Atualmente, a Gelos Pinguim conta com uma carteira de mais de mil clientes ativos, como bares, restaurantes, peixarias, churrascarias, casas noturnas e indústrias, que compram da empresa, pelo menos, uma vez a cada dez dias.

Os resultados, lembra ele, não vêm do dia para a noite. Gomes conta que levou um tempo para deixar sua empresa saudável. Hoje recomenda a capacitação para outros empresários. “Eu teria economizado tempo e dinheiro se tivesse procurado ajuda antes.”

 

Termos financeiros que todo empresário deve dominar
 

Fluxo de caixa  Movimentação de todo dinheiro que entra e sai do caixa. O empreendedor deve ter um controle dos recebimentos e pagamentos, com seus valores e prazos. Assim, não será pego de surpresa com dívidas inesperadas

Capital de giro  Dinheiro que a empresa tem em caixa para poder manter a operação do negócio enquanto recebe dos clientes e paga fornecedores

Receita bruta Valor que representa todas as receitas arrecadas em um determinado período, sem descontar os custos que a companhia teve nesse tempo

Custos operacionais Todas as despesas do negócio. Os custos são divididos em diretos, que representam os gastos específicos de um produto, como o pó de café usado para fazer um expresso, por exemplo; e fixos, como aluguel e eletricidade

Receita líquida Diferença entre o faturamento e os custos operacionais da empresa em um determinado período. Esse valor representa o quanto o empreendimento realmente ganhou com sua atividade

Ponto de equilíbrio É a primeira meta comercial da empresa. Representa o momento em que o dinheiro que entra das vendas passa a cobrir todas as despesas. Não há lucro, mas o negócio ao menos se paga

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