Empresas levam produtos e anúncios para dentro dos carros de aplicativo

Motoristas ficam com parte da receita do comércio de itens como bala, preservativo e meia-calça

Renan Marra
São Paulo

A popularização dos aplicativos de transporte deu origem a novos negócios: startups que pegam carona nesses carros, transformando seus interiores em uma espécie de outdoor ou loja de conveniência, com produtos como preservativos, maquiagem e carregador de celular.

É o que o especialista em empreendedorismo Brunno Galvão, dono da aceleradora Bootstrappers, chama de relação “peixe-piloto e tubarão”: o bicho (ou empresa) menor anda ao lado do maior e, na maioria dos casos, se alimenta bem com seus restos.

O dono da Numenu, Rafael Freitas, dentro de carro com produtos à venda
O dono da Numenu, Rafael Freitas, dentro de carro com produtos à venda - Karime Xavier/Folhapress

Para os motoristas, a vantagem é receber uma parte da receita dos anúncios ou das vendas. Em algumas startups, eles precisam fazer um cadastro para atuar como intermediários entre a contratante e o consumidor. Em outras, devem arcar com o custo do kit de produtos. Os aplicativos de transporte permitem que o profissional venda mercadorias durante as corridas.

A ideia de criar a Numenu, empresa que coloca nos veículos uma bolsa de plástico com produtos variados, nasceu quando Rafael Freitas interrompeu uma rota porque precisava comprar um carregador de celular. 

Em operação desde o ano passado, a Numenu disponibiliza itens como absorventes, meia-calça, lenço umedecido e produtos de beleza. 

Para comprar, os passageiros precisam entrar no site da empresa e digitar o código do carro, localizado próximo à bolsa. Então, ele deve escolher em uma vitrine virtual a mercadoria que quer e a forma de pagamento, que pode ser em dinheiro ou cartão. 

Segundo Freitas, não foi desenvolvido um aplicativo específico porque as pessoas não costumam fazer download quando não têm wi-fi.

Hoje a empresa atua em 1.400 veículos que fazem transporte por aplicativo na Grande São Paulo e fatura R$ 40 mil por mês. De acordo com o empresário, o crescimento é de 10% por semana, graças ao boca a boca. A meta, diz, é atuar em 10 mil carros até o fim deste ano.

O investimento no setor de inteligência é importante para o negócio: a empresa viu, por exemplo, que camisinhas são muitas vezes compradas com balas de menta. “Por isso, colocamos esses dois produtos no mesmo carro”, diz Freitas.

Para obter dados e feedback dos clientes, a Numenu oferece algumas mercadorias gratuitas, que o passageiro pode pegar se realizar cadastro. Depois, a fabricante do produto pode enviar ao consumidor questionários de satisfação.

O motorista é recompensado com R$ 1 a cada brinde dado e 25% do total das vendas em seu carro. Segundo a Numenu, em um mês ele pode ganhar até R$ 200 —a empresa cobra pelo primeiro kit, que custa entre R$ 10 e R$ 50.

O sucesso dessas startups foi determinante para que a norte-americana Cargo elegesse o Brasil como seu primeiro alvo de expansão internacional. A companhia atua desde maio em São Paulo e no Rio e tem mil veículos cadastrados —há um contrato de exclusividade com a Uber.

Por enquanto, a Cargo vende só alimentos industrializados, como salgadinhos, guardados numa caixa entre o banco do motorista e o do passageiro. Segundo Pedro Neves, gerente-geral da Cargo Brasil, há planos de aumentar a variedade de produtos. 

“Não há capital investido para inscrição ou reposição de estoque, e o retorno que o motorista tem é lucro”, diz Neves. Assim como na Numenu, o dono do carro fica com 25% do total da receita —ainda não há estimativa de quanto cada um pode faturar ao mês.

Os carros cadastrados em aplicativos de mobilidade chamaram a atenção de outro tipo de startup. A Olacarro, que atua no setor desde 2018, instala atrás dos bancos traseiros e no lado direito do painel placas com publicidade. 

“Não sabemos se as pessoas veem publicidade na rua. Mas dentro do carro, com o anúncio na frente delas, não tem como não prestar a atenção”, diz o proprietário da Olacarro, o francês Jeremy Dupont. 

 
O proprietário da Olacarro, Jeremy Dupont, em escritório em Curitiba
O proprietário da Olacarro, Jeremy Dupont, em escritório em Curitiba - Arquivo pessoal

Pelas contas do empresário, cada veículo transporta, em média, 900 pessoas por mês. Para assegurar que a mensagem alcance esse número, a Olacarro exige que os motoristas enviem relatórios mensais sobre suas viagens.

O pacote mais simples, com preço médio de R$ 2.000, inclui anúncios em dez veículos e é válido por três meses. Em média, o motorista recebe R$ 150 mensais apenas por instalar as propagandas.

Desde janeiro, a empresa dobrou o número de carros e anunciantes, segundo Dupont. Ele afirma que hoje há 20 mil motoristas cadastrados no serviço em todo o país.

Para o economista e consultor do Sebrae-RJ Sergio Dias, negócios que atuam em parceria com outras empresas são tendência. A estratégia ajuda a sobreviver à concorrência e manter preços competitivos.

“É uma relação ganha-ganha, mas a ação tem que ser bem casada com a finalidade e o destino da corrida para fazer sentido", afirma Dias.

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