Fazenda urbana reduz custos e aumenta a sustentabilidade

Startups criam produção limpa de alimentos em grandes centro de consumo

O empresário Rafael de la Libera, 30, em sua fazenda urbana, a Pink Farms, na zona oeste de São Paulo 

O empresário Rafael de la Libera, 30, em sua fazenda urbana, a Pink Farms, na zona oeste de São Paulo  Karime Xavier/Folhapress

Dante Ferrasoli
São Paulo

Cientes do número crescente de consumidores interessados em saber onde e como são produzidos seus alimentos, startups de agricultura montam fazendas dentro de grandes cidades brasileiras

Com plantações hidropônicas, livres de agrotóxicos, e produção rastreável, essas empresas buscam reduzir custos de operação e desperdício.

É o caso da Pink Farms, de São Paulo. A startup foi fundada em 2015 por três amigos, todos engenheiros. “Nenhum de nós sabia de agronomia, então estudamos muito, descobrimos as propriedades das plantas”, diz Rafael de la Libera, 30, um dos sócios. 

O empresário Rafael de la Libera, 30, em sua fazenda urbana, a Pink Farms, na zona oeste de São Paulo 
O empresário Rafael de la Libera, 30, em sua fazenda urbana, a Pink Farms, na zona oeste de São Paulo  - Karime Xavier/Folhapress

Após um período de testes numa sala de 50 metros quadrados, a Pink Farms conseguiu investimento e se mudou para um galpão 30 vezes maior, na zona oeste de São Paulo.

Hoje, a empresa produz no local hortaliças e microgreens (verduras em estágio inicial de desenvolvimento). Seus produtos abastecem supermercados e restaurantes da cidade. 

Na produção urbana, conta De la Libera, a economia de alguns insumos é substancial.
“A gente consegue reduzir o uso de tudo. Chegamos a utilizar 95% menos água que numa produção no campo, porque a reutilizamos”, diz.

O nome Pink Farms é referência à iluminação artificial para o crescimento das plantas dentro do galpão, uma mistura de LEDs azuis e vermelhos que dá um aspecto cor-de-rosa ao ambiente.

A empresa tem dez funcionários e ainda não planta em 100% do espaço disponível no galpão. Quando o fizer, em 2020, estima produzir 135 toneladas de hortaliças por ano e faturar R$ 3,5 milhões.

A Be Green, de Belo Horizonte, tem proposta semelhante. A companhia foi fundada pelo administrador público Giuliano Bittencourt, 28. Quando, antes de começar o negócio, fez testes numa fazenda normal, Bittencourt percebeu que cerca de 70% do que produzia era desperdiçado no processo, incluída aí a logística  de distribuição.

“Tem gente passando fome no Brasil, quando há muito desperdício. A cadeia logística é ruim”, afirma. Estar dentro das grandes cidades, é, para ele, uma vantagem.

A empresa começou sua produção em 2017, numa fazenda dentro de um shopping da capital mineira.
Lá, produz duas toneladas de hortaliças e microgreens por mês. Seu carro-chefe são os produtos tipo “baby”, com um tamanho menor que o normal. O projeto deu certo, e a empresa ganhou filiais em São Paulo, dentro de uma fábrica, e no Rio, também dentro de um shopping.

A empresa vende seus produtos por assinatura. Por R$ 59 por mês, o cliente recebe um quilo de hortaliças. Esse serviço é disponível em Belo Horizonte e no Rio, onde também é possível encontrar as verduras em restaurantes. Em São Paulo, estão disponíveis apenas em uma unidade do supermercado Pão de Açúcar da zona sul. 

A companhia, que tem 30 funcionários, não revela faturamento, mas diz que tem dobrado de tamanho a cada ano.

Apesar de livres de agrotóxicos, os produtos das duas empresas não são considerados orgânicos porque não são plantados na terra.

Para Gustavo Gierun, da Distrito, grupo de consultoria  empresarial, há espaço para esse tipo de negócio crescer.

“Essas fazendas urbanas oferecem vantagens ao consumidor, mas também ao empresário. A produtividade é maior que a das lavouras a céu aberto e há menos consumo de insumos como fertilizantes, que são caros”, afirma.

Além disso, Gierun diz crer que a tendência de o consumidor ser exigente com o que come deve continuar.
“As pessoas estão mudando a maneira de consumir alimentos. Isso será cada vez mais relevante para elas no futuro. Não é só uma moda”, diz.

Há também, nas cidades, quem prefira plantar suas hortas, mesmo em espaços pequenos, como apartamentos.

Pensando nisso, os sócios João Machry, 31, e Guilherme Utz, 26, de Novo Hamburgo (RS), começaram a produzir vasos específicos para plantio indoor em 2014.

“Pesquisávamos mercados em crescimento e nos identificamos com esse. Nossa ideia era fazer algo diferente do que havia no segmento”, diz Machry, que é engenheiro.

Seus produtos, de polipropileno, são pequenos. Com  uma treliça, podem ser colocados um sobre o outro, resultando em uma horta vertical.

Além disso, são autoirrigáveis. A parte na qual fica a água é fechada, o que afasta a preocupação com a dengue.

A empresa hoje tem 14 funcionários e vendeu 300 mil unidades no ano passado. Planeja crescer 15% neste ano. 

Eduardo Soriano, consultor do Sebrae-SP, avalia que o momento para suprir pequenas hortas dentro de apartamentos também é bom.

“É uma dor da população urbana querer comer melhor e não encontrar produtos tão facilmente, ou encontrar coisas muitos caras. Por isso há essa iniciativa de produzir para consumo próprio, o que deve crescer”, afirma. 

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