Alimentação saudável vira negócio nas regiões periféricas de São Paulo

Empresários criam restaurante, delivery e armazém de comida orgânica com preços acessíveis

Marília Miragaia
São Paulo

A tentativa de tornar alimentos orgânicos e refeições saudáveis, com ingredientes locais, mais acessíveis na periferia de São Paulo virou oportunidade de negócios para moradores dessas regiões.

Essas áreas podem ser classificadas como pântanos alimentares, conceito que surgiu nos Estados Unidos e é estudado no Brasil por Ana Clara Duran, pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas na área de políticas públicas de alimentação e nutrição. 

O termo define lugares onde há alta ocorrência de negócios que vendem comida ultraprocessada, como macarrão instantâneo e congelados prontos.

No Campo Limpo, extremo sul paulistano, o produtor cultural Thiago Vinicius da Silva, 30, decidiu abrir o Armazém Organicamente há dois anos. Na região, diz, "há dez farmácias e nenhum sacolão".

Para que um negócio como o de Thiago tenha sucesso na periferia, é essencial oferecer preços competitivos, diz Edgard Barki, coordenador do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da FGV (Fundação Getulio Vargas).

A estratégia de Thiago para viabilizar o Armazém Organicamente foi comprar diretamente dos produtores, interceptando a rota de orgânicos que sai de Parelheiros em direção a bairros como Vila Madalena, na zona oeste da cidade. Os agricultores deixam os produtos na mercearia de Thiago, evitando custos com intermediários. 

Com a receptividade da clientela, Thiago vai abrir em outubro o restaurante Cozinha Criativa Solano Trindade no mesmo espaço, com cardápio pensado a partir dos ingredientes que recebe no armazém.
Assim, ao fazer compras para abastecer os dois negócios, será mais fácil negociar preços.

"De qualquer jeito o produto vai sair da prateleira. Ou vai ser vendido ou vai virar lasanha no restaurante", diz. 

No Jardim São Luís, em M'Boi Mirim, o delivery de orgânicos Enjoy foi concebido com um raciocínio semelhante. 

Os donos, Joyce Izauri, 34, e Robert José Placides, 37, vendem em torno de 50 produtos —entre eles ovos, shiitake, linhaça e feijão— que vão buscar com produtores.

A ideia nasceu depois que Joyce perdeu o emprego na Agência São Paulo de Desenvolvimento, que trabalha em parceria com a prefeitura de São Paulo. Lá, levantava dados sobre a produção de agricultores —e, não raro, trazia para casa sacolas de verduras. 

Ela e o marido tiveram a ideia de abrir um negócio para "oferecer orgânicos frescos com preço menor que os cobrados fora da periferia", diz.

Começaram a empresa há um ano, usando um carro emprestado para fazer entregas em cinco endereços. Hoje, a lista tem 50 fregueses e recebe adições toda semana. O ticket médio do cliente é de R$ 70. 

"É um engano achar que as pessoas não querem pagar por produtos mais caros em uma área com limitação de renda", afirma Felipe Chiconato, consultor de negócios do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas).

Para levantar o negócio, Joyce e Robert passaram por dois processos em aceleradoras, em que tiveram o apoio para fazer planejamento, fluxo de caixa, plano de marketing e receberam investimento de, ao todo, R$ 40 mil —aplicados em um veículo adaptado para entrega e sistema de venda. 

O trabalho de aceleradoras tem um papel importante em regiões afastadas, onde a mortalidade de negócios é mais alta do que em zonas centrais, segundo Felipe Chiconato, do Sebrae.

Entre as dificuldades comuns das empresas em áreas periféricas está a de ter poucas reservas para manter o capital de giro, e, com isso, depender do retorno rápido de lucro, diz Chiconato. 

"Muitas vezes o empreendedor não tem fôlego financeiro para aguentar e precisa pagar contas. Ainda faltam políticas públicas para incentivá-lo", diz Edgard Barki, da FGV. 

Simone Mendes, 46, dona da Nutrir-Si, que faz comida congelada saudável no Jardim Irene, próximo ao Capão Redondo, concorda. 

"O tempo de espera para a empresa dar certo é um dos maiores problemas, porque já começamos o negócio com dinheiro apertado", diz. 

Por ora, Simone, que é nutricionista, também atende pacientes em um consultório em Pinheiros uma vez por semana para equilibrar sua receita.

A Nutrir-Si produz 16 tipos de marmita, incluindo opções veganas. "Muitas pessoas saem para trabalhar e, quando voltam, optam por comida industrializada. Não porque não têm dinheiro, mas porque estão esgotadas e procuram o que é rápido", diz ela. 

O impacto social, ou a possibilidade de ajudar a melhorar questões como a desigualdade ou a vulnerabilidade de uma população, torna-se relevante para essas empresas.

"São novos empresários que também se movem pela possibilidade de mudança", diz Edgard Barki, da FGV. 

É preciso, porém, conciliar ideais com iniciativas que sustentem o negócio. Para Felipe Chiconato, do Sebrae, um dos fatores que ajudam no sucesso é mapear bem a demanda. 

"Cada região tem uma cultura. Parelheiros, por exemplo, tem tradição de produzir alimentos. Essa informação pode ser usada para tomar decisões no negócio", diz.

É lá que fica o Restaurante da Marlene, self-service com ingredientes locais e de agricultura familiar. Aberto em 2001, o local ganhou outra unidade na região há quatro anos.

O cambuci, frutinha da mata atlântica, é a estrela da casa, servida em suco (são seis litros por dia) e no molho da costelinha suína. 

Nem todos os produtos são orgânicos ou sustentáveis, mas isso é algo que os especialistas recomendam.

"Se a região não tem um público que suporte um negócio segmentado, é importante deixar o conceito mais amplo para atrair mais consumidores. Por exemplo: em vez de orgânico, saudável", diz Chiconato.

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