Plataforma de inovação estimula negócios sustentáveis na Amazônia

Projeto que reúne ONGs e empresas privadas já investiu R$ 1,1 milhão

Andrea Vialli
São Paulo

Há um rico ecossistema de inovação na Amazônia, que começa a ser desbravado pela Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA). 

A rede reúne ONGs, empresas privadas e órgãos de cooperação internacional para apoiar iniciativas que gerem desenvolvimento econômico e sustentável para a região.

Uma das frentes de atuação do programa é o apoio a startups que trabalham com atributos culturais e da biodiversidade da área, visando o fortalecimento dessas cadeias produtivas.

De acordo com Mariano Cenamo, coordenador executivo da PPA, o que induz ao desmatamento é a necessidade da população de gerar receita, por isso soja e pecuária acabam sendo alternativas econômicas para moradores. “Estamos buscando uma terceira via que harmonize desenvolvimentos econômico e social e conservação”, diz.

A iniciativa entrou em operação em 2018 e teve como objetivo inicial mapear o ambiente de negócios de impacto (que geram benefícios sociais e ambientais) na Amazônia. 

A quantidade de empresas com esse perfil surpreendeu: o primeiro edital recebeu 81 inscritos, dos quais 15 foram escolhidos para um programa de aceleração. Quatro deles receberam R$ 1,1 milhão em investimentos. No segundo edital, lançado no início de 2019, foram 201 inscritos.

Segundo Cenamo, há desde pequenas cooperativas a companhias já consolidadas. Juntas, as 201 empresas já faturam R$ 44 milhões.

Neste ano, o PPA  eve investir mais R$ 2 milhões nos empreendedores da região, sendo R$ 800 mil o valor máximo a ser investido por empresa, recursos que vêm de apoiadores como a Usaid, agência americana de cooperação econômica, Fundo Vale e empresas privadas.

Uma das primeiras marcas a se valer da parceria foi a Manioca, criada pela publicitária Joanna Martins para tornar sabores amazônicos como o tucupi e o jambu acessíveis às demais regiões do Brasil. Ela começou com geleias de frutas regionais, como açaí, taperebá e cupuaçu.

Com a gastronomia pulsando na família —ela é filha do reconhecido chef Paulo Martins, de Belém—, Joanna logo mergulhou nas raízes da culinária local e desenvolveu produtos como molho de tucupi preto e geleia de priprioca, raiz aromática usada principalmente em perfumaria.

Os lançamentos caíram no gosto de chefs famosos do eixo Rio-São Paulo e hoje estão presentes em dez estados. A Manioca também criou um programa de capacitação de fornecedores, que envolve 12 produtores familiares.

Ela foi uma das 15 empresas escolhidas no início de 2019 para receber apoio na primeira etapa da PPA, com um aporte de R$ 200 mil. Agora, deve expandir seu catálogo e aumentar sua presença internacional —a companhia já exporta para EUA e França. 

O acesso ao mercado sempre foi cheio de percalços para a Seringô, startup de Castanhal (PA), também apoiada pela plataforma. A marca utiliza uma técnica indígena de impermeabilização de tecido com uso de látex natural, que foi aprimorada e permite a fabricação de chinelos, solas de calçados e artesanato.

O modelo de negócios faz a ponte entre 84 comunidades tradicionais com fabricantes que desejam usar a matéria-prima de origem sustentável.

O negócio surgiu como projeto de mestrado do empreendedor Francisco Samonek na Ufac (Universidade Federal do Acre). Ele patenteou um sistema de beneficiamento do látex mais limpo, que utiliza menos água, gera menos poluentes e aumenta o ganho dos extrativistas em até 30%. 

A startup, que recebeu um aporte de R$ 300 mil do PPA, começou a chamar a atenção do mercado de calçados após a atriz Gloria Pires usar a sandália da marca e comercializá-la na Bemglô, loja de produtos ecológicos da qual é sócia. 

Agora, a Seringô fechou uma parceria com um grande grupo calçadista para fornecer solados de borracha sustentável.

Para isso, terá que aumentar a produção em 150%, saindo dos atuais 4.000 pares de solados/mês para 10 mil pares de solados/mês até julho de 2020.

Também pretende exportar e, para se diferenciar no mercado internacional, investiu em certificação orgânica. “Quando comecei a trabalhar com seringueiros, vi o quanto eles dependiam e cuidavam da floresta. Só não imaginava que isso seria reconhecido pelo mercado”, diz Samonek.

Não são apenas os produtos da floresta que estimulam novos negócios. Há startups da área de tecnologia buscando resolver desafios locais. 

Caso da Onisafra, plataforma criada pelo engenheiro agrônomo Macaulay Souza para conectar agricultores a consumidores. Fundada em 2016, a startup era voltada inicialmente ao negócio B2B, de empresa para empresa. Mas Souza percebeu que havia demanda dos clientes por canais confiáveis para compra de produtos frescos de hortifrúti.

Assim, surgiu a feira digital, plataforma na qual qualquer agricultor pode criar sua própria loja e o consumidor compra sem intermediários. Com 30 fornecedores e cerca de cem pedidos mensais na região de Manaus, o negócio está expandindo para Belém e São Paulo, onde pretende fornecer produtos não perecíveis típicos da Amazônia.

Um projeto para fomentar a produção de café do tipo conilon (também conhecido como robusta) de forma sustentável na cidade de Apuí, a 408 km de Manaus, deu origem à marca Café Apuí, que tem um modelo de negócios que reúne ONG e produtores rurais.

Houve várias tentativas de plantar café em Apuí, mas a falta de assistência técnica e de manejo adequado no clima amazônico levou a perdas na produtividade, o que desestimulou muitos agricultores. Em 2012, o Idesam (Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas) começou a estruturar a cadeia produtiva do café agroflorestal, onde os pés de café crescem junto a árvores nativas.

A ideia nasceu após os produtores rurais Francisco da Silva Elias e Maria das Dores Rodrigues Sobral, que tinham um cafezal abandonado na propriedade e produziam espécies nativas, notarem que as árvores frutíferas forneciam sombra e os pés de café passaram a produzir mais.

Após engajar outros produtores, o Idesam buscou parceiros para dar assistência técnica e abrir mercado para o café agroflorestal. Atualmente, 20 agricultores cultivam 30 hectares de café conilon, que produzem 180 sacas/ano. Já se encontra o Café Apuí em empórios de Manaus e de São Paulo, e em outubro ele terá distribuição nacional.

“Começamos com recursos de apoiadores. Agora estamos migrando para um modelo de negócio que tem condições de se sustentar sozinho, e que pode ser replicado para outras cadeias”, diz Talía Bonfante, coordenadora de novos negócios do Idesam.

O próximo passo será captar R$ 1 milhão por meio de uma plataforma de equity crowdfunding (sistema que possibilita que um conjunto de investidores financiem empresas em troca de participação) para subsidiar o aumento da produção e a expansão da marca. 

O Idesam continuará com 51% de participação na Café Apuí, e os 49% restantes serão distribuídos em equity. A meta da startup até 2022 é dobrar a área de cultivo e expandir para 47 produtores.

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