Descrição de chapéu Coronavírus

Crise do coronavírus deve levar empresas ao fim mas também à inovação

Para diretor do Sebrae-SP, capacidade de adaptação dos pequenos negócios não deve ser menosprezada

Fernanda Perrin
São Paulo

Falência e concentração de mercado de um lado, reinvenção e modernização do outro. Superada a quarentena, esse é o cenário previsto por especialistas para as pequenas empresas no país.

A situação não era boa mesmo antes da suspensão das atividades, diz o economista Paulo Feldmann, professor da Universidade de São Paulo.

Sete em cada dez empreendedores consideravam sua situação financeira ruim ou razoável antes da crise, de acordo com pesquisa feita pelo Sebrae no início de abril.

Com a paralisação e a expectativa de recessão profunda —o FMI estima retração de 5,3% do PIB brasileiro neste ano—, o cenário deve piorar.

A Fecomercio-SP revisou sua projeção de vendas no varejo nacional para 2020. A expectativa agora é de queda de 3,6%, o que significa perda de R$ 115 bilhões no faturamento.

“As pequenas representam o elo mais fraco, têm pouquíssimo capital de giro para suportar um ou dois meses sem receita”, diz o economista Mauro Rochlin, professor da Fundação Getulio Vargas.

Essa situação deve levar muitos negócios à falência. Ao mesmo tempo, as maiores empresas, por serem mais estruturadas, devem conseguir se manter. Isso deve resultar em uma concentração maior de mercado na saída da recessão, segundo Rochlin.

“Eu vejo um ano muito difícil. Vai ser uma crise daquelas que a gente vai lembrar depois”, afirma Wilson Poit, diretor-superintendente do Sebrae-SP. Mas ele também defende que a capacidade de adaptação dos pequenos negócios não deve ser menosprezada.

A busca por cursos online e consultas junto ao Sebrae dispararam neste período, diz ele. A entidade tem ajudado muitos empresários a se conectar com o meio digital.

Essa saída, que está sendo um bote salva-vidas —o exemplo clássico são os restaurantes que passaram a fazer delivery—, pode se tornar um novo caminho para aqueles que até agora ainda estavam reticentes com mudanças.

“Eu sou daqueles que acreditam que o mundo nunca mais vai ser o mesmo, e que isso vai trazer oportunidades. O empresário não pode ficar tão desesperado a ponto de deixar de se preparar para as oportunidades que virão”, diz Poit.

Como reação ao momento, a Kapulana, pequena editora em São Paulo, decidiu lançar dois livros em ebook antes da versão física, invertendo a ordem que geralmente segue.

Além da venda em livrarias, a editora fazia saraus para promover seus títulos. Agora, se voltou às redes sociais. “Estamos tentando ser mais interativos, colocando autor e ilustrador mais perto do leitor”, diz a sócia Rosana Weg.

Estratégia semelhante foi adotada pela empresária Leilane Sabatini, diretora-executiva do ecommerce Cansei, Vendi, especializado em produtos de luxo seminovos.

A empresa fortaleceu a comunicação com os clientes e também mudou o conteúdo veiculado nas redes sociais, incluindo assuntos como convivência no lar e saúde mental.

Para a empresária, isso tem aproximado o consumidor do negócio e se refletido indiretamente em vendas.

O plano agora é aproveitar o período de quarentena para estruturar melhor a parte de tecnologia da companhia, para que ela possa se tornar 100% digital.

Mas Paulo Feldmann, da USP, alerta que nem sempre a transferência para o mundo digital será uma saída para os empreendedores. “Um pequeno com uma marca que ninguém conhece pode fazer um site, mas o consumidor não confia”, afirma o economista.

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