Voucher ajudou negócios a sobreviver à pandemia, mas pode dificultar retomada

Feita sem planejamento, venda antecipada de serviços com desconto tende a gerar mais dívidas

São Paulo

Quando começaram as medidas de distanciamento social, muitas empresas apostaram na venda de vouchers com descontos para serviços que prestariam apenas ao reabrir as portas.

A iniciativa ajudou a pagar as contas num primeiro momento. Mas, na volta às atividades, negócios que venderam vouchers sem nenhum controle tiveram a retomada do faturamento prejudicada.

Sócia de um salão de beleza na zona leste de São Paulo, Vera Lúcia Rosa, 59, percebeu no fim de abril que era hora de parar de oferecer os descontos. “Lá na frente, precisaria atender muita gente com voucher e não ia ter dinheiro para pagar os funcionários.”

Reaberto há dois meses, o salão tem recebido fregueses antigos e alguns novos. Do total, apenas nove compradores ainda não usaram seus vouchers.

Vendendo serviços de cabeleireira e manicure, Vera conseguiu juntar mais de R$ 13 mil. “Na época fez muita diferença. Mas, se também não tivesse negociado com fornecedores e conseguido um financiamento, não teríamos sobrevivido”, diz.

Uma pesquisa com micro e pequenos empreendedores do país, divulgada pelo Sebrae em abril, apontou que 88% das empresas viram o faturamento cair no início da pandemia.

A venda de vouchers foi utilizada principalmente por empresários dos segmentos de beleza e eventos para conter as perdas e garantir fluxo de caixa, afirma a consultora do Sebrae-SP Leidiane de Oliveira. O auge do uso da estratégia, segundo ela, ocorreu entre abril e maio.

“Já tínhamos visto alguns anos antes a venda de vouchers de compra coletiva para aumentar o faturamento. Essa foi uma readaptação da ideia. Na maior parte dos casos, eles foram vendidos para quem já era cliente, trabalhando a fidelização.”

Quando a Folha falou com os donos do bar vietnamita Bia Hoi, em março, o restaurante, que não se adaptou bem ao delivery, tinha acabado de implantar a venda de vouchers. Na época, o negócio faturou R$ 2.300 nos nove primeiros dias de funcionamento —antes da pandemia, o faturamento médio era de R$ 150 mil por mês.

Segundo a chef Danielle Borges, 40, dona do estabelecimento, que fica na República, em São Paulo, a estratégia foi essencial para pagar funcionários, mas não impediu que 10 dos 13 profissionais fossem demitidos. Hoje, a equipe está com 6 pessoas.

Desde julho, quando reabriu, o bar permite usar os vouchers tanto pessoalmente quanto por delivery. Como o estabelecimento funciona com restrições, tendo reduzido seus 30 lugares para 12, há um limite de três vouchers por dia, para não comprometer o faturamento.

“Tem sido tranquilo. As pessoas ligam antes para perguntar se há lugar disponível e se podem usar o voucher”, diz a chef. Até o momento, 25% dos clientes que compraram vouchers já usaram o serviço.

Segundo Oliveira, do Sebrae, restrições como essa devem ser avisadas com antecedência. “Vimos alguns empresários que, no desespero, venderam muitos vouchers. Eles tiveram de arcar com isso, porque é a imagem da empresa que está no mercado”, afirma.

“É importante fazer uma bela negociação com o cliente, conversar que só vai dar para atender quatro vouchers por dia, por exemplo”, completa.

Algumas grandes companhias também recorreram aos vouchers para recuperar parte das perdas. Em abril, a Azul lançou o Bilhete Viagem, um pacote com desconto, com data e destino flexíveis.

“Demos uma perspectiva para os parceiros de hotelaria e tivemos um resguardo de caixa. Óbvio que não resolveu todos os problemas. Em abril, maio e junho, tivemos 15% do faturamento normal”, diz Daniel Bicudo, diretor de marketing e desenvolvimento de negócios.

De acordo com Oliveira, os vouchers também não impediram que algumas empresas quebrassem. Nesses casos, eles podem ter sido até um fator complicador, porque obrigaram a empresa falida a entregar os serviços contratados ou arcar com as consequências legais.

“Foi uma ferramenta para que as empresas tentassem se manter, mas não foi a salvação da pátria. Até porque as pessoas esperavam que a pandemia fosse passar rápido, mas descobriram que uma quarentena não tem necessariamente 40 dias.”

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