Eleitores de Trump, evangélicos têm 'porta aberta' na Casa Branca

Aliança entre o presidente e os cristãos conservadores se mantém após a eleição

Noah Weiland
Washington

Quando a Casa Branca quer reunir evangélicos para uma de suas muitas "sessões de escuta" sobre temas específicos, o reverendo Johnnie Moore é muitas vezes o primeiro a escutar.

Nem sempre ficou claro que Moore, 34, um ministro batista do sul dos EUA que foi copresidente do conselho assessor evangélico da campanha de Trump, seria um convidado frequente à Casa Branca.

Alguns críticos, e até alguns evangélicos, se perguntavam se a aliança dos cristãos conservadores, às vezes instável, com a campanha de Trump era um casamento de conveniência que seria abandonado depois da posse. Mas um ano depois os líderes religiosos conservadores estão elogiando as ações do presidente no cargo.

Donald Trump durante uma prece em café da manhã com lideranças evangélicas
Donald Trump durante uma prece em café da manhã com lideranças evangélicas - Mandel Ngan - 8.fev.2018/AFP

"Esta Casa Branca tem a porta da frente aberta para os evangélicos", disse Moore, que calcula que já visitou o presidente Donald  Trump 20 vezes desde a posse, em média uma vez a cada duas semanas. "Não foram os evangélicos que procuraram a Casa Branca. Foi a Casa Branca que procurou os evangélicos. Não se passa um dia que não haja uma dúzia de líderes evangélicos na Casa Branca para alguma coisa."

Nesta semana acontecerá o apogeu desses laços. Na quinta-feira (8), Moore participou do que ele chama de "Super Bowl dos fazedores da paz": o Café da Manhã Nacional de Oração, quando cerca de 3.000 membros do clero, políticos e líderes empresariais se reuniriam para comer, fazer contatos e ouvir discursos, inclusive um do presidente.

Trump se apresentou a uma plateia que comemorou a agenda do presidente no primeiro ano como se fosse sua: o anúncio de que a embaixada dos EUA em Israel seria transferida para Jerusalém, a criação de um "domingo de oração" nacional, a nomeação de Neil Gorsuch à Suprema Corte, a assinatura de uma lei antiaborto, a abertura de uma "divisão de consciência e liberdade religiosa" no Departamento de Saúde e Serviços Humanos e o combate à Emenda Johnson, que ameaça as organizações religiosas com a perda da isenção de impostos caso elas apoiem candidatos políticos.

Muitos evangélicos não consideram inevitável essa lista de realizações. O conselho assessor evangélico formal de Trump terminou com a campanha. Mas a constante atenção dele para as causas evangélicas não é coincidência. Moore e outros ajudaram os remanescentes do conselho a continuarem ativos na Casa Branca, fornecendo ao governo uma constelação de figuras religiosas para dar peso à sua plataforma entre os evangélicos.

Um ex-vice-presidente da Universidade da Liberdade que hoje vive na Califórnia, Moore é um dentre a meia dúzia de membros originais do grupo assessor evangélico que visita regularmente o Salão Oval, onde Trump e o vice-presidente Mike Pence conversam e depois rezam com eles.

O grupo, que inclui Tim Clinton, Robert Jeffress, Darrell Scott, Samuel Rodriguez e Paula White, que já foi chamada de "assessora espiritual" pessoal de Trump, é uma voz frequente e influente nos ouvidos de autoridades graduadas.

Jeffress, outro membro chave do conselho da campanha, foi um dos defensores evangélicos mais confiáveis de Trump, aparecendo frequentemente com ele na Trump Tower em Nova York e depois na Casa Branca.

"Não posso enxergar o coração do presidente para saber se ele acredita pessoalmente nas posições que defende, ou se ele pensa que é uma política inteligente abraçá-las por causa da forte influência evangélica no país", disse Jeffress em uma entrevista. "Mas francamente não me importa. Como cristão, estou vendo essas políticas serem abraçadas e implementadas, e ele está fazendo isso."

Jeffress, que certa vez declarou que a política do presidente Barack Obama poderia levar à ascensão do anticristo, disse que os temas que os evangélicos discutem na Casa Branca "vão além do que a maioria supõe", incluindo o abuso de opioides e a reforma da Justiça criminal. Ele e Moore são simpáticos ao Daca, programa federal que protege jovens imigrantes que chegaram ilegalmente aos Estados Unidos, —e que foi interrompido por Trump— muitas vezes considerado uma causa progressista.

Quando o presidente está no Salão Oval com líderes religiosos, disse Moore, eles tentam "personalizar" questões para Trump, incluindo uma recente discussão sobre o Daca, quando o grupo disse que ele deveria ver a questão como um pai e um avô.

Moore, que passou algum tempo no Egito, na Jordânia, no Líbano, no Iraque, em Bahrein e em Israel pregando contra a perseguição religiosa, disse que a defensoria evangélica na Casa Branca também ajudou a acelerar a confirmação do ex-governador do Kansas Sam Brownback como embaixador da liberdade religiosa internacional, cargo pelo qual ele e o grupo central de vozes evangélicas na Casa Branca há muito pressionavam.

Os evangélicos votaram firmemente a favor de Trump na eleição presidencial e, segundo pesquisas, continuam a apoiá-lo.

"Os evangélicos foram ótimos para mim", disse Trump no ano passado.

Mas a simbiose entre cristãos conservadores e Trump nunca foi perfeita, e parte dessa tensão permaneceu em sua Presidência. O reverendo A.R. Bernard, pastor do Centro Cultural Cristão no Brooklyn, em Nova York, e um membro do conselho de campanha, anunciou que não se associa mais ao grupo evangélico da Casa Branca porque Trump não condenou os grupos racistas que marcharam em Charlottesville, na Virgínia, em agosto.

Bernard, que disse ter feito pelo menos quatro visitas à Casa Branca, viu Trump como em geral indiferente à lista de tarefas dos líderes religiosos.

"Não havia nada escondido. Ele queria o bloco de eleitores. Ele queria seus votos", disse Bernard sobre o envolvimento de Trump com os evangélicos durante a campanha. "Foi transacional. Ele faria o que fosse preciso para conseguir aqueles votos."

Notícias publicadas no mês passado de que uma atriz de filmes pornográficos recebeu US$ 130 mil para se calar sobre um suposto caso que teve com Trump complicaram ainda mais seu relacionamento com os evangélicos, os quais afirmaram que não é responsabilidade do presidente levar uma vida pura.

"Ele não é o pastor do país", disse na televisão Franklin Graham, um membro do conselho assessor da campanha. Tony Perkins, presidente do Conselho de Pesquisa Familiar, disse que os evangélicos dariam a Trump um "ponto de lambuja".

Jeffress concordou.

"O apoio evangélico ao presidente Trump sempre se baseou em suas políticas, e não em sua religiosidade pessoal", disse ele.

The New York Times

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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