Descrição de chapéu New York Times

Trabalho diplomático discreto 'salvou' Olimpíada de Inverno

Em meio a testes de mísseis da Coreia do Norte, países negociavam 'Jogos da Paz'

Líderes de torcida norte-coreanas com bandeira da unificação na cerimônia de abertura dos Jogos de Pyeongchang
Líderes de torcida norte-coreanas com bandeira da unificação na cerimônia de abertura dos Jogos de Pyeongchang - Kim Kyung-hoon/Reuters

Choe Sang-Hun JANE PERLEZ
Pequim

Um grupo de adolescentes norte-coreanos viajou a Kunming, na China, no final de dezembro, para participar de um torneio de futebol para menores de 15 anos. Jogaram contra times da China e Coreia do Sul. Fora do campo, um espectador incomum acompanhou o evento: Choi Moon-soon, governador da província sul-coreana onde se realiza a Olimpíada de Inverno.

Choi foi a Kunming para um encontro com os representantes da Coreia do Norte que acompanharam os jovens jogadores e para propor a participação da Coreia do Norte na Olimpíada. "Estávamos procurando qualquer contato possível com a Coreia do Norte, e os times de futebol júnior eram o único intercâmbio intercoreano que ainda havia", ele recordou.

Antes mesmo de Choi embarcar de volta à Coreia do Sul, seu governo transmitiu outro sinal: em entrevista à televisão, o presidente ​Moon Jae-in disse que era a favor de serem adiados os exercícios militares anuais conjuntos com os Estados Unidos. Era um gesto inconfundível para agradar ao líder norte-coreano, Kim  Jong-un, que sempre condenou os exercícios.

Kim não demorou a responder positivamente: no início do ano, anunciou que enviaria seus atletas à Olimpíada. Ali eles marcharam nesta sexta-feira (9) na cerimônia de abertura dos Jogos ao lado dos sul-coreanos, sob uma bandeira coreana unificada. Trata-se de um momento histórico para a dividida península coreana.

A concessão de última hora representou o momento culminante de meses de diplomacia conduzida nos bastidores para persuadir a Coreia do Norte a participar da Olimpíada. Boa parte desse trabalho foi feito ao mesmo tempo em que o país isolado testava seus primeiros mísseis balísticos intercontinentais e detonava seu artefato nuclear mais potente até agora.

Com o presidente Donald Trump ameaçando responder à Coreia do Norte com "fogo e fúria", a possibilidade de guerra na península coreana lançou uma sombra sobre os preparativos olímpicos, assustando fãs e atletas e levando alguns países a cogitar em não tomar parte nos Jogos.

Mas o Comitê Olímpico Internacional e a Coreia do Sul seguiram adiante. Era tarde demais para transferir a Olimpíada para outro lugar, e cancelar o evento seria impensável.

Os organizadores concluíram que a melhor chance de a Olimpíada ser um sucesso seria se a Coreia do Norte pudesse ser persuadida a participar. Se ela viesse para os Jogos, parecia mais provável que se absteria de promover os testes nucleares e lançamentos de mísseis que tinham assustado o mundo. Alguns, incluindo Moon, argumentaram que a Olimpíada poderia até assinalar o início de conversações para resolver a crise nuclear.

Mas, em meio às tensões crescentes, conseguir que a Coreia do Norte participasse dos Jogos seria um problema diplomático. Os interessados em uma Olimpíada bem-sucedida enfrentavam um desafio semelhante ao que os diplomatas que tentam desativar a crise nuclear encaram há anos: é Kim Jong-un quem manda em tudo e decide tudo na Coreia do Norte, mas ninguém sabe o que ele quer, e há poucos canais de comunicação com ele.

"Jogos da Paz"

Thomas Bach, o atual presidente do COI, não queria que a Olimpíada acontecesse em Pyeongchang, na Coreia do Sul. Quando representantes sul-coreanos apresentaram a candidatura de seu país para sediar os Jogos de Inverno de 2018, Bach, na época presidente da Confederação de Esportes Olímpicos da Alemanha, promoveu a de Munique.

Mas a Coreia do Sul ganhou a disputa ao converter uma desvantagem potencial a proximidade de Pyeongchang com a fronteira mais fortemente armada do mundo em ponto a seu favor. Recordando a trégua olímpica da antiguidade grega, seus representantes propuseram "Jogos da Paz" para promover a reconciliação na península coreana.

Agora Thomas Bach queria que os Jogos fossem um sucesso.

Segundo o COI, na Olimpíada de 2016 no Rio de Janeiro ele se reuniu com representantes da Coreia do Norte e apresentou uma proposta de apoio financeiro e logístico para levar os atletas do Norte a Pyeongchang sem violar as sanções da ONU.

Em fevereiro do ano passado, o COI enviou um convite formal à Coreia do Norte.

Mas a Coreia do Norte o recusou.

Bach então procurou a ajuda da Coreia do Sul, reunindo-se pelo menos três vezes com a predecessora de Moon, a conservadora Park Geun-hye, segundo declarações do COI. Mas Park tinha adotado uma linha intransigente em relação à Coreia do Norte e em pouco tempo passou a enfrentar outros problemas. A partir do final de 2016 a Coreia do Sul passou meses virtualmente paralisada, enquanto Park era submetida a impeachment e afastada do poder.

Então Thomas Bach procurou o presidente da China, Xi Jinping, recebendo-o em Lausanne, na Suíça, em janeiro de 2017.

Xi pareceu receptivo aos pedidos de Bach e disposto a ajudar, mas deixou claro que a influência de seu país sobre a Coreia do Norte é limitada.

Mas tudo pareceu mudar no dia 4 de julho, quando Bach estava concluindo uma viagem a Pequim e Seul. A Coreia do Norte testou seu primeiro míssil balístico intercontinental (ICBM, na sigla em inglês), que parecia ter alcance suficiente para chegar ao Alasca.

Ambiente mais sombrio

O teste do míssil foi um soco no estômago para o presidente Moon, cuja eleição tinha reconduzido ao poder a esquerda progressista sul-coreana, que é a favor do estreitamento das relações com a Coreia do Norte.

Moon enxergava a Olimpíada como sua melhor chance de reduzir as tensões com o Norte. Em suas primeiras semanas na Presidência ele fizera questão de receber uma equipe norte-coreana em um torneio de taekwondo em Muju, Coreia do Sul.

Mesmo após o teste do míssil em julho, Moon fez um gesto de paz, usando um discurso em Berlim para convidar a Coreia do Norte a participar dos Jogos e lembrar a Kim que o COI estava presente e poderia ajudar com os trâmites.

Mas Kim lançou outro ICBM naquele mês, este capaz de atingir a Califórnia. Uma semana mais tarde, Donald Trump avisou que lançaria "fogo e fúria" contra a Coreia do Norte se ela colocasse os EUA em perigo.

Em meio às hostilidades crescentes, a Olimpíada perdeu espaço na agenda. Mas Bach persistiu e novamente buscou a ajuda da China, reunindo-se com Xi em Tianjin em agosto, informaram autoridades olímpicas. A China, porém, estava tão encolerizada com a Coreia do Norte devido aos testes dos mísseis que, segundo representantes chineses, não estava interessada em fazer lobby junto a Kim em torno das Olimpíadas.

Bach ficou na defensiva, sendo obrigado a negar que houvesse necessidade de um plano B para transferir a Olimpíada para outro local. "Falar sobre cenários diferentes para os Jogos Olímpicos de Inverno, neste momento, transmitiria a mensagem errada", ele disse.

Bach viajou a Seul novamente no final de setembro para uma discussão com Moon. A reunião aconteceu um dia depois de Trump, discursando para a Assembleia Geral das Nações Unidas, ter ameaçado "destruir completamente" a Coreia do Norte se ela ameaçasse os Estados Unidos.

Em seu próprio discurso à ONU, Moon voltou a promover os Jogos de Pyeongchang. "Meu coração se enche de grande alegria quando imagino atletas norte-coreanos entrando no estádio na cerimônia de abertura", ele disse.

Mas sua mensagem perdeu espaço para Kim, que divulgou comunicado pessoal incomum tachando Trump de "velho americano senil e mentalmente perturbado".

No final de novembro a Coreia do Norte testou mais um ICBM, um modelo novo que coloca todo o território continental dos Estados Unidos em seu alcance.

Corrida final

Com o tempo se esgotando, Moon pediu ajuda à administração Trump. Assim como a Coreia do Norte preferiria tratar com os EUA apenas em negociações nucleares, alguns argumentavam que ela também queria que Washington participasse das discussões sobre as Olimpíadas.

As relações entre os dois presidentes estavam difíceis. Eles tinham apresentado posições diferentes em relação à crise norte-coreana, e Trump manifestara publicamente seu desdém por Moon.

Em Washington, a administração Trump começou a discutir a posição de Moon. A questão mais delicada era sua proposta de adiar os exercícios militares conjuntos previstos para começar perto do final da Olimpíada e durante os Jogos Paralímpicos.

Alguns assessores argumentaram que qualquer adiamento dos exercícios militares seria interpretada como concessão a Kim e enfraqueceria a abordagem de "pressão máxima" da administração Trump em relação ao Norte. Mas, enquanto a administração discutia a questão, a notícia da preferência sul-coreana por um adiamento dos exercícios começou a sair na mídia. E então, no torneio de futebol de juniores em Kunming, Moon confirmou publicamente que havia sugerido o adiamento dos exercícios.

Nas discussões diplomáticas intensivas que se seguiram, os EUA concordaram publicamente em adiar os exercícios e Kim anunciou que enviaria seus atletas, surpreendendo o mundo.

E, num anúncio inesperado na quarta-feira (7), a Coreia do Norte informou que a influente irmã de Kim, Kim  Yo-jong, assistiria aos Jogos. É a primeira vez que um membro imediato da família governante norte-coreana pisará na Coreia do Sul.

As Olimpíadas não vão resolver o impasse nuclear, longe disso. Antes de embarcar para os Jogos, o vice-presidente americano Mike Pence deu possivelmente suas declarações mais duras sobre o regime norte-coreano. "O povo americano, o povo do Japão e povos de todo o mundo que amam a liberdade anseiam pelo dia em que a paz e a prosperidade tomarão o lugar da beligerância e brutalidade de Pyongyang", ele disse.

The New York Times

Tradução de Clara Allain

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.