Vice espera para liderar a África do Sul há 23 anos

Sindicalista que virou magnata, Cyril Ramaphosa, 65, era escolha de Mandela para sucessão

O vice-presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, participa de evento para comemorar o centenário de Nelson Mandela na Cidade do Cabo - Mike Hutchings - 11.fev.2018/REUTERS
ALEC RUSSELL

No amanhecer de um verão no hemisfério sul, num centro de conferências da periferia de Johannesburgo, um político alegre, elegante e muito sofisticado abriu um sorriso grande, antes de ir à pista para dançar uma dança de euforia. Cyril  Ramaphosa acabara de completar 41 anos. Mas ele e seu sorridente colega africâner do então governo branco sul-africano saudavam um marco mais importante: tinham acabado de fechar um acordo para pôr fim a séculos de governo minoritário branco.

Aqueles tempos distantes de novembro de 1993 hoje parecem um conto de fadas, comparados ao estado deteriorado em que se encontra o governista Congresso Nacional Africano (CNA), após mais de duas décadas no poder na África do Sul. O brilho de Ramaphosa era tão forte na época que Nelson Mandela queria indicá-lo seu sucessor. Mas, pouco antes de sua posse, em maio de 1994, Mandela foi obrigado a ter uma conversa incômoda com Ramaphosa. O partido tinha outras ideias: queria Thabo Mbeki.

Seja paciente, aconselharam. Ramaphosa tem sido, mas com certeza nem em seus momentos mais difíceis teria imaginado que esperaria 23 anos para estar prestes a liderar a África do Sul.

Após uma década de derivas e disfunção, com a economia estagnada, a corrupção do Estado cada vez maior e a divisão entre partido e Estado cada vez menos clara, muitos dentro e fora da África do Sul esperam que este seja um momento de virada. E é possível que seja.

Filho de um policial rural, Ramaphosa, 65, advogado que se tornou sindicalista e então magnata, tem um currículo digno de crédito e uma experiência vasta capaz de atrair tanto investidores quanto pelo menos algumas das alas do CNA em disputa. Mas, se quiser ter alguma chance de restaurar algo que se assemelhe a boa governança, Ramaphosa terá de mostrar que, após anos agindo com cautela compreensível, ele ainda tem a garra que no passado possuía de sobra.

"Nelson Mandela vai se alegrar no túmulo", diz Kuseni  Dlamini, presidente da Aspen Pharmacare e membro destacado da elite empresarial. "Ramaphosa possui grande inteligência emocional e sempre foi aberto a procurar uma solução que funcione para todas as partes."

Ramaphosa realmente é mestre na arte da paciência estratégica. Isso lhe será útil no comando de um partido fraturado e em seu esforço para ser mais esperto que Jacob Zuma, seu predecessor na direção do CNA e, teoricamente, o presidente até a próxima eleição geral, em 2019. Os amigos de Zuma possuem bases de poder profundas no partido e vão resistir à promessa feita por Ramaphosa de combater a corrupção.

Sua experiência como negociador também deve ajudar. Quando era advogado jovem em Soweto nos anos 1980, ele negociou com as empresas de mineração, primeiro para aceitarem a ideia então radical de um sindicato dos trabalhadores e depois sobre uma revolução nos direitos trabalhistas.

Uma década mais tarde, como negociador chefe do CNA, Ramaphosa voltou a provar sua habilidade quando fechou o acordo histórico que encerrou o governo de minoria branca. FW de Klerk, o último presidente branco, recordou: Seu discurso suave e convincente tranquilizava suas potenciais vítimas, enquanto seus argumentos apertavam implacavelmente o nó em volta delas.

Quando Mbeki chegou ao poder, Ramaphosa foi regiamente recompensado pelos anos de esquecimento. Ele foi um dos primeiros líderes do CNA a entrar para o mundo dos negócios. Acumulou uma fortuna graças ao programa de empoderamento econômico negro, no qual empresas tradicionalmente administradas por brancos entregaram participações acionárias a sócios negros, como uma maneira de criar uma classe empresarial negra.

As críticas à nova elite se intensificaram quando ficou claro que a desigualdade, longe de encolher, vem aumentando. O CNA está sendo atacado da esquerda e da direita, acusado de ter perdido o contato com seus eleitores.

Mas seus amigos insistem que ele sempre esteve de olho no prêmio maior: a Presidência. Quase um quarto de século após seu maior triunfo político, Ramaphosa terá um segundo ato. Nas duas últimas décadas o CNA foi liderado por exilados. Mbeki e Zuma passaram anos à sombra, aprendendo a não confiar em ninguém. Agora é hora do líder dos não exilados, Ramaphosa, que fez seu aprendizado na agitação política mais aberta do movimento antiapartheid. Mas os tempos de dançar até o amanhecer ficaram no passado.

"As pessoas perguntam se Ramaphosa possui garra e tenacidade", diz seu velho interlocutor Bobby Godsell. "Cyril é capaz de imprimir uma virada nas coisas —mas com atos, não com carisma."

Financial Times

Tradução CLARA ALLAIN

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