Descrição de chapéu Rússia

É 'altamente provável' que Rússia esteja por trás de envenenamento, diz May

Agente neurotóxico usado é identificado como Novitchok, desenvolvido pela União Soviética

Investigadores com roupas protetoras retiram van de local em Winterslow, Wiltshire, como parte da investigação sobre o envenenamento do ex-espião russo Serguei Skripal e sua filha, na Inglaterra - Andrew Matthews/Associated Press
São Paulo , Londres e Moscou | Reuters

​A primeira-ministra britânica, Theresa May, afirmou nesta segunda-feira (12) que é "altamente provável" que a Rússia seja o ator por trás do envenenamento do ex-espião russo Serguei Skripal e sua filha, Iulia, em Salisbury, na Inglaterra. 

Em discurso no Parlamento, May afirmou que, ou o Estado russo foi diretamente responsável pelo envenenamento, ou permitiu que o agente neurotóxico que contaminou os dois chegasse às mãos de terceiros.

Segundo a primeira-ministra, o agente identificado é de tipo militar, desenvolvido e fabricado na Rússia e faz parte de um grupo de agentes neurotóxicos conhecidos como Novitchok.

O embaixador russo em Londres foi convocado para que dê explicações sobre o motivo de o agente neurotóxico ter ido parar em Salisbury e informe a Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq) sobre seu programa de Novitchok.

"Se não houver uma resposta crível, vamos concluir que essa ação equivale a um uso ilegal da força pelo Estado russo contra o Reino Unido", afirmou. 

Serguei, 66, e sua filha Iulia, 33, foram achados desacordados em um banco em um parque de Londres no dia 4 e foram levados ao hospital. Os dois permanecem internados em estado grave

Cerca de 180 militares estão participando da equipe que investiga o caso. 

O Novitchok é uma série de substâncias tóxicas desenvolvidas pela União Soviética nos anos 1970 e 1980. 

Supostamente, são os mais letais agentes neurotóxicos jamais feitos. Algumas variantes são de cinco a oito vezes mais potentes que o VX -- substância usada para matar Kim Jong-nammeio-irmão do ditador norte-coreano, Kim Jong-un, na Malásia. 

"CIRCO"

O governo russo continua negando ter qualquer envolvimento com o ataque a Skripal.

O Ministério das Relações Exteriores russo chamou o discurso de May de "um show de circo no Parlamento britânico, nas palavras da porta-voz Maria Zakharova.

"A conclusão é óbvia: é outra campanha de informação política, baseada na provocação."

Antes da fala de May, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, afirmou que “isso não é problema da Rússia”, ressaltando que Skripal é um russo que trabalhou para o serviço secreto britânico e foi alvo da ação no Reino Unido.

Também antes do discurso, a Embaixada da Rússia em Londres acusou o governo britânico de estar fazendo um jogo perigoso ao vincular a Rússia ao envenenamento.

"A atual política do governo britânico para a Rússia é um jogo muito perigoso em que se joga com a opinião pública" e que "acarreta o risco de consequências mais sérios no longo prazo para nossas relações", afirmou um porta-voz em uma nota. 

​Um influente âncora da TV russa Vesti Nedeli sugeriu nesta segunda que foi o próprio Reino Unido quem planejou o envenenamento. 

Em uma transmissão assistida por milhões de pessoas, Dmitri Kiselyov afirmou que Skripal pode ter sido sacrificado como um pretexto para um boicote internacional da Copa do Mundo deste ano, em Moscou, segundo relato do jornal britânico The Guardian.

"Por que não envenená-lo?", afirmou Kiselyov. “Ele é tão valioso? E fazer isso com sua filha para manipular o emocional do público."

A desconfiança sobre o papel do Kremlin vem do fato de que alguns críticos do governo de Vladimir Putin foram assassinados em circunstâncias misteriosas ao longo dos anos.

No mundo da espionagem, o caso que mais chama a atenção pela similaridade com o episódio atual foi o envenenamento pelo isótopo radioativo polônio-210  de Alexander Litvinenko , morto em 2006 no Reino Unido.

Apesar dos elementos coincidentes, contudo, há algumas diferenças. Litvinenko era um desertor e trabalhava ativamente contra o Kremlin, que também nega participação de seus serviços secretos na morte, como acredita o Ocidente.

Skripal havia sido condenado em solo russo e foi perdoado judicialmente pelo governo numa troca de agentes com os britânicos.

Pelas regras não escritas do submundo das comunidades de inteligência, isso é uma espécie de salvo-conduto de morte pela mão de antigos pares, o que torna o episódio ainda mais nebuloso. 

Colaborou IGOR GIELOW, de Moscou  

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