Países das Américas avaliam manifestar rejeição a eleição na Venezuela

Grupo articula manifestação conjunta em Lima para não reconhecer pleito presidencial em maio

Mulher coloca a mão na lateral da boca enquanto grita em um protesto; atrás, manifestantes, em sua maioria com camisetas brancas, carregam cartazes com letras que formam a expressão "a saúde" em espanhol
Mulher protesta contra falta de medicamentos na Venezuela, durante manifestação em Caracas, na segunda-feira (9) - Federico Parra - 9.abr.18/AFP
Sylvia Colombo Patrícia Campos Mello
Lima e São Paulo

Ausente da oitava edição da Cúpula das Américas, que começa nesta sexta (13) em Lima, a Venezuela deve ser alvo de manifestação de países da região que pretendem não reconhecer as eleições presidenciais marcadas para 20 de maio e fazer críticas ao regime de Nicolás Maduro.

"Vamos insistir que esta eleição não tem validade, que esperamos que se libertem os presos políticos, se estabeleça uma programação eleitoral séria para permitir que os venezuelanos escolham como seguir", disse nesta terça (10) o presidente argentino, Mauricio Macri, após se reunir com o chefe de governo espanhol, Mariano Rajoy.

Entre outras coisas, pretende-se afirmar que o pleito é ilegítimo e que os países da região não reconhecerão decisões financeiras do regime, sejam renegociações de dívida, declarações de calote ou lançamento de moedas virtuais como o petro.

O argumento para tanto é o de que a Assembleia Constituinte empossada por Maduro não tem legitimidade para isso, apurou a Folha com fontes diplomáticas.

Macri não deu detalhes, mas insistiu no não reconhecimento das eleições, para as quais a maior parte das candidaturas de oposição foi barrada. "Faz tempo que o país vem deixando de respeitar os direitos humanos, vamos reclamar uma saída democrática para a população."

Não está claro, contudo, quantos dos 34 países vão aderir à manifestação —Argentina e Brasil o fariam, e os EUA possivelmente. O país anunciou nesta terça que o presidente Donald Trump não irá a Lima e enviará o vice, Mike Pence, crítico veemente de Caracas.

Mas a Bolívia, aliada de primeira hora do chavismo, não deve se alinhar ao grupo. O presidente Evo Morales indicou que pode desistir de ir.

"Queria encontrar-me com Donald Trump e debater cara a cara políticas econômicas e sociais. Agora não irá, então veremos que fazer", disse, acrescentando se frustrar com o fato de o anfitrião ter desconvidado Maduro.

O presidente do Peru, Martín Vizcarra, reiterou o desconvite à Venezuela feito por seu antecessor, Pedro Pablo Kuczynski, que renunciou no dia 21. Indagado sobre a insistência de Maduro em comparecer, o peruano disse que ele pode vir "como turista".

Maduro, que insistia em participar, afirmou à tarde que não irá a Lima porque o governo peruano não teria assegurado sua segurança. Ele disse que as cúpulas "são uma perda de tempo terrível".

OPOSIÇÃO VENEZUELANA

A oposição venezuelana, porém, já declarou que estará presente por meio de um grupo de deputados da Assembleia Nacional opositora e outros representantes. Segundo a deputada Delsa Solórzano, que lidera o grupo, eles virão "em representação da Venezuela democrática".

Já a líder opositora María Corina Machado, impedida pelo regime de sair do país, enviou uma mensagem aos governos participantes.

"Peço de vocês quatro ações: o reconhecimento do Tribunal Supremo de Justiça legítimo que opera do exílio; o desconhecimento da 'narcofraude' que serão as eleições de 20 de maio; o aumento de sanções aos culpados por essa situação do país e, que façam chegar alimentos e comidas aos que precisam."

O envio de remédios e comida é um dos temas a ser tratado sobre a Venezuela.

O grupo deve pedir a criação de um corredor humanitário para enviar ajuda à população, algo que a que o regime de Maduro se opõe por não admitir a crise e que tem consequências para os países vizinhos. Desde o início da crise, 52 mil venezuelanos entraram no Brasil (na Colômbia, foram 550 mil).

Uma das consequências é o sarampo, erradicado do Brasil em 2001, que apareceu em 59 casos confirmados e 166 suspeitas em Roraima que coincidem com o êxodo venezuelano. Segundo Brasília, Caracas não aceita que o Brasil vacine seus cidadãos na região da fronteira.

O corredor deve ser defendido em uma marcha nesta quinta organizada por venezuelanos residentes no Peru, afirmou o ex-deputado venezuelano Óscar Pérez a jornalistas em Lima, dizendo que a crise exige o "envio imediato de remédios e alimentos".

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