Descrição de chapéu Em 1968 França

Mundo em 1968: Revolta estudantil ganha força em Paris e violência se espalha

Contestando de universidade a capitalismo, jovens erguem barricadas contra polícia

Mulher passa correndo de soldados com armas longas na frente de uma loja; entre eles, um carro queimando
Forças policiais atuam no bairro universidade do Quartier Latin, em Paris, durante novo dia de protestos de estudantes na capital francesa - 10.mai.68/AFP
Rodrigo Vizeu
11 de maio de 1968

A violência entre polícia e manifestantes em Paris atingiu novo ápice entre a noite de sexta-feira (10) e a madrugada deste sábado (11), aprofundando a pressão sobre o governo do presidente Charles de Gaulle1.


1) General e líder da resistência francesa ao nazismo, chefiou governo provisório entre 1944, ano da libertação do país pelos aliados, e 1946. Depois, presidiu a França de 1959 a 1969. Morreu em novembro de 1970, aos 79 anos


Em uma noite em que "viram-se coisas nunca vistas", na definição do chefe de polícia, Maurice Grimaud2, estudantes tocaram fogo em carros e ergueram barricadas contra as autoridades a partir de paralelepípedos arrancados das vias do Quartier Latin, bairro universitário da capital francesa. Agressões partiram dos dois lados.


2) Grimaud teve papel crucial para controlar excessos das forças policiais e evitar um banho de sangue naquele maio. Morreu em 2009, aos 95 anos, recebendo homenagens dos ex-estudantes


O saldo oficial da "noite das barricadas" foi de 367 feridos, dos quais 251 policiais e 116 manifestantes. Ao menos 60 veículos foram incendiados e 128 foram danificados. Mais de 400 pessoas foram detidas.

O confronto começou durante protesto a princípio pacífico, com público estimado entre 20 mil e 50 mil pessoas, que partiu da praça Denfert-Rochereau, ao sul de Paris, em direção ao Quartier Latin.

O ato se soma à série de manifestações e confrontos que têm ocorrido na cidade —e se espalhado pela França— para exigir a reabertura da Sorbonne, coração do ensino superior francês, fechada devido à onda de distúrbios.

Desde o início deste mês, a temperatura dos protestos tem se elevado, com o envolvimento de outros grupos (secundaristas e sindicatos) e a multiplicação de pautas.

Reivindicações específicas do meio universitário, como participação em decisões e até o fim do veto ao acesso dos alunos aos dormitórios das alunas, passaram a dividir espaço com contestações amplas da sociedade de consumo, da política externa dos EUA, da moral burguesa e da ordem capitalista.

Ao avançar na noite de sexta-feira em direção à Sorbonne, os estudantes foram barrados por bloqueios policiais que impediam o acesso à margem direita do rio Sena, onde ficam a Champs-Élysées e outras regiões ricas de Paris.

Os estudantes responderam firmando posição no bairro universitário, alguns sentados na rua e outros montando as barricadas e lançando pedras contra a polícia, que respondeu com bombas de gás lacrimogêneo.

Três homens são vistos em uma avenida de costas lado a lado, sendo que os dois à direita atiram pedras contra um grupo de policiais de tropa de choque à distância; atrás dos manifestantes aparecem uma lata de lixo de ferro retorcida e bombas no chão soltando gás lacrimogêneo
Estudantes atiram pedras contra policiais em meio a nuvem de gás lacrimogêneo durante manifestação no Quartier Latin, em Paris, em maio de 1968 - 5.mai.1968/AFP

Tentativas de diálogo entre as duas partes não progrediram. Às 2h15, Grimaud ordenou o ataque às barreiras estudantis.

"Esses desordeiros aprenderam não sei onde as táticas dos guerrilheiros. Estamos enfrentando o que certamente é uma operação subversiva", afirmou o chefe de polícia.

Estudantes reagiram aos cassetetes. A rua Gay-Lussac, próxima de endereços icônicos de Paris, como o Panteão e o Jardim de Luxemburgo, foi um dos principais locais de confronto.

A Faculdade de Ciências foi transformada em hospital, e emissoras de rádio faziam apelos para que táxis ajudassem na remoção dos feridos.

No alvorecer, com o bairro tomado de fumaça e ruas esburacadas, a polícia ainda caçava manifestantes. Estudantes reagiam aos gritos de "De Gaulle assassino" e "Abaixo De Gaulle".

Os protestos dos jovens franceses têm como pano de fundo a explosão da população estudantil no país nos últimos dez anos, de 175 mil para mais de 500 mil. Escolas e universidades têm sido abastecidas pela numerosa geração nascida nos tempos de emprego e bonança econômica dos últimos 20 anos.

São jovens com uma cultura própria, que quase nada têm em comum com a geração anterior, forjada na escassez da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e que dá à França a sua atual aparência tradicionalista e hierarquizada.

De Gaulle, 77, relíquia da guerra e há quase dez anos no poder sem interrupções, torna-se assim símbolo do que contestar.

Não merece apreço muito maior para esses jovens o Partido Comunista Francês, cujos classismo e ortodoxia marxista pouco combinam com uma geração interessada em mudanças imediatas e em novas questões, como liberdade sexual, questões de gênero e ecologia3.


3) Tampouco era positiva a visão do PCF sobre os estudantes: o partido os via como "filhinhos de papai" de quem os operários deveriam manter distância. Com a escalada da crise, os comunistas se aproximaram dos estudantes, mas a hesitação contribuiu para a perda de influência do partido


Em que pese o contexto maior, foi um fato específico que deflagrou os distúrbios: a prisão de estudantes que atacaram no mês passado unidade da American Express, em Paris, em protesto contra a Guerra do Vietnã.

Em solidariedade aos detidos, estudantes ocuparam a Universidade de Nanterre, na região metropolitana da capital, sob a liderança do jovem franco-alemão Daniel Cohn-Bendit4, 23, hoje o principal nome do movimento estudantil e conhecido como Dany Le Rouge —referência a seus cabelos e ideário vermelhos.


4) Nasceu na França de pais judeus alemães fugidos do nazismo. Durante os protestos, foi preso e chegou a ser proibido de entrar na França após viagem à Alemanha. De esquerdista radical na juventude, passou a ecologista aberto ao livre mercado, ocupando cadeira de deputado europeu até 2014. Tem 73 anos


As autoridades reagiram fechando Nanterre, o que se revelou um erro tático, pois levou o movimento estudantil da periferia para o centro da capital francesa.

Daniel Cohn-Bendit aparece entre colegas à frente, policiais, que o cercam à esquerda e atrás, e jornalistas
Ao centro, com punho erguido, o estudante Daniel Cohn-Bendit aparece cercado por jornalistas e colegas do movimento estudantil cantando a Internacional Socialista - 6.mai.68/AFP

A decisão da reitoria da Sorbonne de fechar as portas e chamar a polícia para dentro da universidade foi outro combustível para os confrontos. Os estudantes têm ganhado a simpatia de artistas, intelectuais e de parte da opinião pública francesa5.


5) Entre os apoios, estavam os dos cineastas Jean-Luc Godard, 37, e François Truffaut, 36, e o do filósofo Jean-Paul Sartre, 62


O nível inédito de violência deste sábado levou a um aceno do governo aos estudantes.

Após reunião de De Gaulle com auxiliares durante a madrugada, o governo divulgou comunicado em que cita que "alguns" dos jovens estavam dispostos a "impor, mediante a violência, suas convicções revolucionárias".

Em seguida, porém, contemporiza, afirmando que a maioria dos estudantes "expressa, embora de forma condenável, uma inquietação diante do futuro profissional e uma vontade de adaptação à universidade".

"O governo sabe que ainda há muito por fazer e está disposto a receber todas as opiniões úteis, inclusive as que os estudantes possam formular dentro de um espírito construtivo."

Em um gesto prático, o governo De Gaulle ordenou a reabertura da Sorbonne e a libertação de presos.

A intenção do presidente é evitar uma greve geral convocada para segunda-feira (13) por centrais sindicais, tanto de tendência comunista quanto católica, em apoio aos estudantes. A federação dos professores prometeu aderir6.


6)  A greve levou mais de 1 milhão de pessoas às ruas contra o governo e foi seguida de outras paralisações e ocupações de fábricas


Mais que o levante estudantil, de objetivo muitas vezes indefinido, preocupa o governo a hipótese de os trabalhadores franceses aderirem à revolta.

Isso sim teria efeitos muito mais profundos para a economia e até para a continuação no poder de De Gaulle, o mesmo presidente que, em mensagem de fim de ano, em 31 de dezembro passado, afirmara: "Saúdo o ano de 1968 com serenidade"7.


7) A situação piorou antes de melhorar para o governo, que amargou mais barricadas e violência. Aumentos a trabalhadores e férias escolares enfraqueceram os atos. No fim do mês, De Gaulle dissolveu a Assembleia e convocou eleições, obtendo vitória. Seus apoiadores tomaram as ruas contra a "ameaça vermelha". A esquerda --a moderada-- só levaria a Presidência em 1981, com François Mitterrand


Maio francês se espalhou pela Europa e ecoou no Brasil

O maio francês e suas famosas e provocativas palavras de ordem —"É proibido proibir", "Seja realista, peça o impossível", "Goze sem entraves" e "A humanidade só será feliz quando o último capitalista for enforcado com as tripas do último esquerdista"— atravessaram as fronteiras do país.

Atos estudantis se multiplicaram ao longo do mês por Bélgica, Itália, Alemanha e até pelo leste europeu, região sob influência soviética.

Entre os jovens alemães, a contestação ganhou um componente adicional de urgência por ter como alvo a geração que cometeu os crimes do nazismo.

"O '1968' alemão foi um movimento moral antes de ser político", definiu o jornalista Hans Kundnani no livro "Utopia or Auschwitz — Germany's 1968 Generation and the Holocaust", de 2009.

Grupo de dez manifestantes está em cima do caminhão tombado, ao lado de outras dezenas de pessoas com bandeiras que cercam tanques de guerra soviéticos com soldados que cercam a área; ao fundo, um prédio de esquina
Manifestantes seguram bandeiras da Tchecoslováquia em cima de um caminhão cercados por caminhões soviéticos durante a Primavera de Praga - Libor Hajsky - 21.abr.68/CTK/Associated Press

Assim como na França, o discurso revolucionário da juventude das ruas julgou excessivamente conciliador o discurso dos partidos comunistas históricos, o que gerou posteriormente a criação de grupos extremistas como as Brigadas Vermelhas italianas e o grupo Baader-Meinhof, na Alemanha, que praticariam atos de violência.

No Brasil, o governo militar ainda estava às voltas naquele maio com protestos após a morte do estudante Edson Luiz de Lima Souto pela PM no Rio, ocorrida em março.

Em junho, lembra Zuenir Ventura em "1968 — O Ano que Não Terminou", a França ecoava em declaração do presidente Costa e Silva: "Enquanto eu estiver aqui, não permitirei que o Rio se transforme em uma nova Paris". O ministro do Trabalho, Jarbas Passarinho, afirmou: "O Tietê não é o Sena".

O líder estudantil Luís Raul Machado respondeu: "Os generais podem estar tranquilos que não se repetirá aqui o que houve na França. Vai ser muito pior".

Não faltaram protestos e batalhas campais naquele ano para lembrar o país europeu, mas a reação do governo deixou claras as armas à disposição de uma ditadura latino-americana, sendo a mais decisiva delas a edição do AI-5, em dezembro daquele ano.

 

Cronologia

22.mar Estudantes ocupam a Universidade de Nanterre, levando à suspensão de suas atividades

3.mai Protesto na Sorbonne faz reitoria convocar a polícia, fechando suas portas. Atos se repetem nos dias subsequentes

10-11.mai Na "noite das barricadas", confronto entre estudantes e policiais atinge pico. Governo responde em tom conciliatório

13.mai Paralisações levam mais de 1 milhão às ruas. Protestos e episódios de violência continuam nos dias seguintes

27.mai Fim das negociações com sindicatos, nas quais governo concede aumentos e benefícios aos trabalhadores

30.mai Em discurso, De Gaulle diz que não sai do cargo, convoca eleições legislativas e afirma que a França está "ameaçada de ditadura" pelo "comunismo totalitário". Apoiadores do presidente saem às ruas de Paris, aos gritos de "De Gaulle não está só" e "Cohn-Bendit em Dachau", em referência ao campo de concentração nazista

23-30.jun Eleições dão ampla vantagem à coalizão liderada por De Gaulle

Colaborou Edgar Silva

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