Descrição de chapéu Venezuela

Venezuela vê aumento de protestos por problemas sociais

Apesar de repressão, cidadãos vão às ruas contra falta de água, energia, comida e remédios

Homem de camiseta azul clara e bermuda cáqui segura cartaz com papel pardo com os dizeres em caneta preta; a seu lado está uma mulher de short jeans e blusa rosa e vermelha segurando uma menina de colo. Os dois estão no meio de uma autoestrada em que, no sentido contrário, carros formam um engarrafamento
Homem carrega cartaz com os dizeres "Quatro semanas sem água" em protesto pedindo volta do fornecimento em via expressa de Caracas em abril - Fernando Llano - 27.abr.18/Associated Press
Fabiano Maisonnave
Caracas

Aos 72 anos, a dona de casa Evarista Aguilera participou, nesta quarta-feira (23), de um pequeno protesto dentro da Unidade de Hemodiálise Riverside, em Caracas.

“Não sei dizer de quem é o culpado, só sei dizer que não há suprimentos médicos”, diz Aguilera, que sofre de insuficiência renal crônica e já ficou 13 dias sem hemodiálise, embora precise de três sessões por semana.

Embora os grandes protestos exigindo a saída do ditador Nicolás Maduro tenham desaparecido das ruas neste ano, a Venezuela vem registrando um crescimento de micro e pequenas manifestações diárias por falta de comida, de material médico e de serviços básicos.

Nesta terça (22), Caracas registrou pelo menos três protestos —além dos pacientes renais, houve pequenas manifestações contra falta de água e contra o regime de Maduro. Nenhuma delas registrou incidentes.

Somente em abril, houve 927 protestos na Venezuela, 25% a mais do que no mesmo período do ano passado, segundo levantamento da ONG Observatório Venezuelano de Conflito Social (OVCS).

Desse total, 89% tiveram como motivação direitos trabalhistas e problemas de atenção médica, falta de água, entre outros temas do difícil cotidiano venezuelano.

“Os que mais protestam são os que se identificavam no passado com [o presidente Hugo] Chávez”, afirma Marco Antonio Ponce, coordenador do OVCS.

O ativista de direitos humanos prevê que haverá um aumento dos protestos por causa da deterioração contínua da crise humanitária —a inflação venezuelana supera os 13.000%, e o PIB do país caiu 50% desde 2013.

O impacto político desses protestos, porém, é uma incógnita, segundo Ponce. Para ele, o desafio da oposição, cujos protestos mobilizam principalmente a classe média, é conseguir se conectar com essas manifestações diárias.

A OVCS avalia que, com Maduro, a repressão violenta contra manifestações passou de ser um padrão para se tornar um sistema, com o envolvimento das Forças Armadas, policiais, milícias e até civis armados.

No ano passado, segundo o levantamento da OVCS, 163 morreram durante a onda de grandes protestos contra Maduro, ocorridas entre abril e julho.

Neste ano, a ONG já contabiliza 11 mortos. Um deles foi estudante de ensino médio Anderson Oliveros, 15, assassinado com um tiro na cabeça quando participava de um protesto contra falta de luz no seu bairro em Maracaibo, a segunda maior cidade do país. Ninguém foi preso.

“A violência tem sido uma das características de Maduro e vem se tornando mais acentuada com o passar dos anos”, afirma Ponce.

Aguilera diz que perdeu a conta de outros pacientes de hemodiálise que morreram nos últimos meses. Um deles, conta, parou de respirar quando estava na cadeira esperando hemodiálise.

Outros problemas relatados por ela são a distribuição de medicamentos vencidos e a redução das sessões de hemodiálise de 4h para 2h30

A dona de casa afirma que, para pagar pelos suprimentos e medicamentos, reduziu a compra de comida.

O dinheiro vem de uma das duas filhas, que é manicure, e do genro, atualmente trabalhando no Peru.
“Fizemos esse protesto porque já não aguentamos mais."

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