Descrição de chapéu The Washington Post

Acusado de acobertar abusos de padres, cardeal é pressionado a renunciar

Donald Wuerl atuou durante anos na Pensilvânia e é citado mais de 200 vezes em investigação

Washington | The Washington Post

Na semana que se passou desde que um grande júri da Pensilvânia apresentou um relatório sobre abuso sexual infantil cometido por sacerdotes católicos, a reputação do cardeal Donald Wuerl foi brutalmente prejudicada.

Seu livro que estava prestes a ser publicado foi cancelado pela editora. O cardeal desmarcou repentinamente sua participação como orador principal em um importante encontro global na Irlanda. E autoridades estudam a possibilidade de tirar seu nome de um colégio em Pittsburgh, sua cidade, onde Wuerl foi bispo por 18 anos antes de se tornar o arcebispo de Washington, em 2006. Na segunda-feira (20) um vândalo se adiantou às autoridades, cobrindo o nome de Wuerl com tinta em spray.

Clérigo de fala mansa, administrador meticuloso que mede cada palavra cuidadosamente, Wuerl tornou-se por enquanto o “rosto” de uma crise na Igreja Católica que cresce como uma bola de neve. E, diferentemente dos protestos silenciosos e anseios por mudanças que marcaram as décadas passadas, em 2018 os católicos estão exigindo responsabilização –e com urgência.

“Especialmente as pessoas que ficaram ao lado da Igreja todo este tempo, que suportaram tudo, estão dizendo ‘Deus, não podemos passar por tudo isso de novo’”, falou John Allen, autor de vários livros sobre o Vaticano e a Igreja nos EUA e hoje administrador do site católico Crux. “Para mim, essas pessoas não vão se satisfazer com promessas. Elas querem ver algo real acontecendo.”

O cardeal Donald Wuerl durante missa um dia após a divulgação do relatório da Pensilvânia sobre os abusos
O cardeal Donald Wuerl durante missa um dia após a divulgação do relatório da Pensilvânia sobre os abusos - Kevin Wolf - 15.ago.2018/Associated Press

Segundo Allen, nos últimos 18 meses, mais ou menos, o questionamento crescente do papel exercido por dois cardeais no alegado acobertamento de abusos cometidos por clérigos no Chile vem direcionando a atenção dos católicos à hierarquia da Igreja. “E agora isso tudo foi simbolizado pelo caso de Donald Wuerl”, ele disse.

Quando fala em “tudo isso”, Allen se refere não aos abusos cometidos por padres, que, na grande maioria dos casos, acabaram sendo afastados da vida da Igreja por supostos abusos cometidos décadas atrás. Ele esta falando do acobertamento desses abusos por lideranças da Igreja –bispos e cardeais que não foram responsabilizados por transferir os padres abusadores para locais diferentes e continuar a proteger e pagá-los, optando por proteger a Igreja institucional em detrimento das vítimas devastadas.

O relatório de 900 páginas menciona Wuerl nominalmente mais de 200 vezes e contesta a imagem que o cardeal vem procurando projetar, de líder que sempre se posicionou em defesa das vítimas.

Segundo o documento, em alguns casos Wuerl foi muito além do habitual em seus esforços para afastar padres predadores. A instância mais notável disso pode ter sido quando ele foi até o Vaticano para combater –com sucesso— a ordem que recebera de reinstalar em suas funções um padre chamado Anthony Cipolla.

Em outros casos, porém, segundo o relatório, Wuerl foi leniente com padres identificados como abusadores. Em uma instância, deixou um padre acusado continuar a exercer seu ministério, e em outro ele presidiu sobre um acordo que proibiu as vítimas de denunciarem os abusos.

O documento cita o caso do padre William O’Malley, a quem Wuerl deu um emprego na Igreja e emprestou dinheiro, apesar de ele ter tido problemas sexuais no passado. Segundo o relatório, vítimas denunciaram mais tarde ter sido atacadas nos anos depois de Wuerl ter deixado O’Malley retomar suas funções.

Na segunda-feira o representante de Wuerl, Ed McFadden, e seu advogado, Mickey Pohl, disseram que o grande júri pintou um retrato injusto do cardeal, que teria apenas agido segundo a praxe da época, quer isso fosse fechar acordos confidenciais com vítimas ou deixar de levar determinadas queixas à polícia. Segundo McFadden, “o relatório procura intencionalmente criar o pior resultado possível em termos de cobertura da mídia para alguém como Sua Eminência”.

Alguns religiosos disseram que pretendem recorrer contra o relatório na Justiça.

Wuerl e a diocese de Pittsburgh estão na mira da atenção pública desde que o relatório foi divulgado, na terça-feira passada (14). Das seis dioceses abrangidas pelo relatório, a de Pittsburgh tem o maior número de padres acusados identificados –68 da diocese e outros 22 padres e irmãos de ordens religiosas da área de Pittsburgh.

Na segunda-feira (20) o papa Francisco deu um passo em direção à responsabilização, uma atitude que, segundo alguns ativistas, seria inusitada. Na primeira carta papal da história endereçada aos católicos do mundo a tratar do tema do abuso sexual cometido por clérigos, Francisco encerrou seu silêncio sobre o relatório de Pittsburgh e disse que os líderes da Igreja “não demonstraram atenção às crianças”.

A carta não citou ações específicas que o papa vai adotar, mas Francisco descreveu o abuso claramente como “crimes” e usou o termo “acobertamento” duas vezes, segundo notou a irlandesa Marie Collins, vítima de abusos que participou de uma comissão papal sobre o abuso sexual de crianças por clérigos. “Há a aceitação de que o acobertamento aconteceu”, ela disse. “Até agora, defensores dentro e fora do clero negavam que os abusos tivessem sido acobertados. Agora o papa o articulou claramente: é fato.”

Segundo ela, pressões de fora da Igreja aumentam as possibilidades de uma mudança. “O fato de católicos estarem começando a elevar suas vozes também está gerando pressão que antes não existia. Há muita indignação, muita ira.”

As divisões políticas dos EUA também estão penetrando na discussão, tendo o efeito de intensificar os chamados por uma prestação de contas. Wuerl e Theodore McCarrick, que renunciou ao cargo de cardeal depois de virem à tona alegações de que ele teria abusado sexualmente de meninos e homens, viraram porta-vozes de conservadores que não confiam no papa Francisco e consideram que ele é aberto demais em questões diversas, incluindo o aborto e a homossexualidade.

Não está claro quais serão as implicações de tudo isso para o cardeal Wuerl.

Como é exigido de todos os bispos, quando completou 75 anos, em 2015, Wuerl encaminhou seus documentos para pedir aposentadoria. Desde então ele ganhou ainda mais destaque, especialmente por ser aliado do papa Francisco. Hoje Wuerl integra o poderoso comitê do Vaticano que escolhe bispos. Ele é visto como confidente do papal.

A decisão sobre a situação de Wuerl na Igreja cabe exclusivamente ao papa, e porta-vozes do Vaticano vêm ignorando pedidos de declarações sobre essa questão.

No momento o papa está revendo o caso de McCarrick, que por muitos anos foi alvo de rumores sobre comportamento inapropriado com seminaristas. Com a suspensão de McCarrick, em junho, chegou a notícia que os bispos de Nova Jersey tinham fechado acordos judiciais no tribunal com acusadores adultos em 2004 e 2007. Wuerl vem sendo questionado intensamente sobre o assunto e negou ter tido conhecimento dos rumores ou dos acordos judiciais.

Enquanto isso, desde a divulgação do relatório do grande júri, Wuerl se encontra em situação cada vez mais complicada na arquidiocese de Washington. Na segunda-feira ele convocou uma reunião com seu conselho de padres. Vários padres da arquidiocese que exigiram anonimato para falar disseram que as opiniões sobre o cardeal são ambíguas: alguns consideram que seus esforços para combater os abusos não estão sendo descritos justamente, enquanto outros acham que foram insuficientes.

Críticos alegam que quando o relatório do grande júri foi levado a público, em 14 de agosto, Wuerl reagiu com pouco-caso perturbador. Ele divulgou comunicado dizendo acreditar que o relatório “confirma que eu agi com diligência, com preocupação pelas vítimas e para impedir outros atos de abuso”. Naquela noite a arquidiocese postou um site na internet, TheWuerlRecord.com, defendendo o cardeal. Desde então o site foi tirado do ar.

Mais tarde na semana passada Wuerl disse à Fox-5DC que não achava “que essa fosse alguma crise de grandes proporções”.

Até a noite de segunda, 6.800 pessoas já tinham assinado uma petição online pedindo que o nome de Wuerl fosse tirado do título da escola Cardinal Wuerl North Catholic High School, em Pittsburgh. O reverendo Nick Vaskov, porta-voz da diocese de Pittsburgh, disse que o conselho de direção da escola se reuniu e discutiu a remoção do nome do cardeal. Na quarta (22), a diocese anunciou que o nome do religioso será retirado. 

Esta semana Wuerl estava previsto para fazer o discurso mais importante do Encontro Mundial de Famílias, um importante evento promovido a cada três anos. A palestra seria intitulada “O bem-estar da família é decisivo para o futuro do mundo”. O jornal Irish Times divulgou no sábado que Wuerl tinha cancelado sua participação, sem dar um motivo. A assessoria de imprensa de Wuerl se negou a dar declarações.

Algumas lideranças católicas receiam que a controvérsia em torno do cardeal possa prejudicar o trabalho social da Igreja. No domingo algumas paróquias imploraram aos fiéis para não punirem a arquidiocese, deixando de fazer suas contribuições em dinheiro.

Mas o monsenhor John Enzler, presidente e executivo-chefe das organizações de caridade católicas da região, disse na segunda que foi contatado por apenas alguns poucos católicos que querem garantias de que seus donativos não serão usados para pagar honorários de advogados ou acordos judiciais ligados aos casos de abuso. Ele acha que Wuerl fez o melhor que pôde, baseado na orientação psicológica e legal dada por especialistas da época.

“Ele tem integridade e honestidade”, disse Enzler. “Não digo que ele tenha feito tudo corretamente, mas fez o melhor que pôde. Pode parecer que ele tomou algumas decisões erradas, e talvez o tenha feito, mas não foi essa sua intenção.”

Os católicos que vêm pedindo responsabilização nos últimos dias falam não apenas no afastamento de lideranças de alto nível, mas também de um papel muito maior para os católicos leigos e para especialistas externos não católicos.

O bispo de Albany, Nova York, Edward Scharfenberger, disse no início deste mês que leigos, e não bispos, devem comandar as investigações sobre alegações de erros de conduta por parte de bispos americanos. John Garvey, o reitor da Catholic University –a universidade dos bispos americanos— disse ao jornal Washington Post na segunda que as reformas precisam ser encabeçadas por leigos. “Os bispos, em sua maioria, são pessoas boas e santas, mas, como grupo, perderam boa parte da confiança dos fiéis devido aos atos divulgados”, ele disse.

Em carta à universidade, no sábado, Garvey lançou um chamado aos estudantes: “A Igreja passa por um momento de crise real. Incentivo-os a se prepararem para assumir papéis chaves na reconstrução da Igreja de Cristo.”

Alguns estão dizendo que a renúncia a seus cargos não deve ser uma opção para Wuerl e outros líderes católicos de alto escalão, se forem julgados culpados de acobertar abusos sexuais.

Collins aludiu à renúncia inusitada de um cardeal neste verão.

A renúncia de McCarrick “só deveria poder ser decidida por um papa”, disse Collins. “Até pouco tempo atrás, bispos não cogitariam dessa possibilidade.”

Parece pouco provável que o cardeal Wuerl deixe seu cargo no futuro próximo.

O papa Francisco não mencionou Wuerl nas declarações que deu na segunda-feira. Tampouco o fez o cardeal Daniel DiNardo, presidente da Conferência de Bispos Católicos dos EUA, que informou ter convidado o Vaticano a investigar o caso de McCarrick.

Mas mesmo defensores de Wuerl, como Enzler, não descartam categoricamente a ideia de que o cardeal deveria renunciar. “Essa é uma questão muito difícil”, ele disse. “Eu deixaria isso a critério do cardeal. Ele fará o que for melhor para a igreja. Acredito nisso.”





 

Tradução de Clara Allain

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