Descrição de chapéu New York Times

Reunião expõe desafio do Twitter em definir conteúdo de ódio

A empresa discute o que pode ou não pode ser postado no site

Cecilia Kang Kate Conger
San Francisco

Com os braços cruzados, Jack Dorsey andava de um lado para outro na sala de reuniões na sede do Twitter na sexta-feira (10) à tarde. Em uma rara visão interna das reuniões de políticas da companhia de rede social, o executivo-chefe da Twitter se reuniu com 18 colegas, incluindo a equipe de segurança, para discutir maneiras de tornar a plataforma mais segura para os usuários.

A discussão rapidamente passou ao tema de como livrar o site do discurso "desumanizador", mesmo que não viole as regras do Twitter. Estas proíbem ameaças diretas de violência e algumas formas de discurso de ódio, mas não a indução a enganos ou desinformação.

O Twitter pediu que os membros da equipe de segurança não fossem identificados, por temer que sejam visados em zombarias na internet. "Por favor me acompanhem", disse um membro da equipe. "Isto é incrivelmente complexo."

Durante aproximadamente uma hora, o grupo tentou estabelecer o significado de "discurso desumanizador". A certa altura, Dorsey se perguntou se haveria uma solução tecnológica. Não houve acordo sobre a resposta. A discussão foi o ápice de uma semana difícil para o Twitter. Nos últimos cinco dias, a empresa esteve envolvida em discussões internas sobre como evoluir e explicar suas políticas sobre o que pode ou não pode ser postado no site. Os debates eram urgentes, alimentados por críticas ao Twitter por sua inação contra as postagens do site de conspiração de extrema-direita Infowars e seu criador, Alex Jones.

Jack Dorsey, the new chief of Twitter, speaks at a promotional event in New York, Oct. 8, 2015. Dorsey, Twitter?s co-founder and newly reappointed chief executive, has talked a lot recently about how the company?s social network is too difficult for many people to use. (Bryan Thomas/The New York Times)
Jack Dorsey, do Twitter, em evento em Nova York, em 2015 - Bryan Thomas/The New York Times

Enquanto Apple, Facebook e o YouTube da Google expurgaram nesta semana vídeos e podcasts de Jones e do Infowars --que habitualmente disseminam mentiras, como a de que o tiroteio na escola em Sandy Hook foi um boato--, o Twitter deixou o conteúdo continuar no site.

Em uma série de tuítes na terça-feira (7), Dorsey disse que o Twitter não impediria a presença de Jones ou do Infowars porque eles não tinham violado as regras da companhia.Depois disso, muitos usuários do Twitter e até seus funcionários voltaram sua ira contra Dorsey e a empresa. (Amostras de comentários incluíam "queixo caído" e "patético".) Vários jornalistas também consideraram errada a decisão do Twitter de deixar as postagens de Jones e do Infowars, indicando exemplos de conteúdo que pareciam violar as políticas da empresa. 

Na sexta-feira (10), para dar mais transparência a sua tomada de decisão, o Twitter convidou dois repórteres de "The New York Times" para participarem da reunião de políticas. Durante a reunião de uma hora, surgiu a imagem de uma empresa de 12 anos que ainda luta para acompanhar as complexas exigências de ser uma plataforma de comunicação aberta e neutra que reúne líderes mundiais, celebridades, jornalistas, ativistas políticos e teóricos da conspiração.

Tampouco foi fácil decidir sobre uma definição de "discurso desumanizador". No final do encontro, Dorsey e seus executivos tinham concordado em esboçar uma política sobre o assunto e abri-la ao público para comentários. Em uma entrevista na sexta, Dorsey, 41, disse que "tudo bem as pessoas não concordarem" com sua decisão de manter aberta a conta de Jones. "Não vejo isso como um fim, vejo como manter a integridade com o que nós criamos e não fazer interpretações aleatórias e isoladas", explicou. 

Mas Dorsey também disse que embora o antigo princípio condutor do Twitter seja a livre expressão a companhia agora está discutindo "que a segurança deve vir primeiro". Ele acrescentou: "Essa é uma conversa que precisamos ter". Ele disse que está pensando profundamente sobre a lei de direitos humanos e escutando audiobooks sobre discurso e expressão.

Karen Kornbluh, uma professora sênior de política digital no Conselho de Relações Exteriores, disse que Dorsey havia tratado erroneamente a situação do Infowars, mas acrescentou que lidar com questões de livre expressão nas redes sociais é altamente complexo. "Não há um processo estabelecido, nem transparência, nem jurisprudência, nem expertise sobre as questões jurídicas e sociais muito complexas por trás dessas decisões", disse ela. 

Apenas uma semana atrás, os debates sobre discurso desumanizador não eram o principal tema de conversa no Twitter. Em uma reunião de equipe na época na sede da companhia, funcionários da empresa entusiasmados assistiram um executivo dançar break no palco, uma participação especial da mãe de Dorsey, e depois do trabalho houve uma festa dançante."

Em todo o meu tempo no Twitter, não tenho certeza se tinha visto pessoas tão enérgicas, entusiásticas, dispostas a colaborar como depois de #OneTeam", tuitou na época Del Harvey, chefe da equipe de confiança e segurança do Twitter. Depois, no final do domingo, a Apple retirou a maior parte do conteúdo de Jones e do Infowars de sua loja iTunes, rapidamente seguida de apagamentos pelo Facebook, YouTube e Spotify.

No Twitter, os executivos se reuniram na manhã de segunda (6) para discutir qual seria sua reação. Eles afinal decidiram que Jones não tinha cometido infrações suficientes para levar a uma proibição permanente no site. Na noite de terça-feira, Dorsey finalmente postou sobre a decisão do Twitter de manter os posts do Infowars e de Jones.

Em seus tuítes, o executivo-chefe sugeriu que outras empresas de rede social tinham cedido à pressão política ao remover o conteúdo de Jones. Ele também disse que a tarefa de verificar as afirmações sensacionalistas de Jones cabiam aos jornalistas que usam a plataforma, e não aos moderadores do Twitter, provocando confusão. 

Emily Horne, uma ex-porta-voz do Twitter, atacou Dorsey por culpar a equipe de comunicações por não explicar adequadamente as regras. "Essas decisões não são fáceis, mas não cabem às comunicações, e não é útil difamar seus colegas", tuitou Horne, acrescentando que deixar as postagens de Jones foi "a decisão errada".Internamente, Dorsey, visando a transparência, incentivou os funcionários a postar publicamente suas opiniões sobre Jones.

Horas depois, Dorsey participou de um programa de rádio com a personalidade da mídia conservadora Sean Hannity e tentou refutar as denúncias de que o site tem preconceito contra conservadores.

Na reunião de sexta-feira no Twitter, os 18 participantes, todos de pé ao redor de uma mesa de conferências, discutiram temas que incluíam se tuítes que difamam imigrantes podem ser considerados desumanizadores.

Um executivo insistiu que é importante para o Twitter permitir o debate sobre a política migratória. "A imigração é um debate político realmente válido em muitos países, e eu acho que certamente queremos proteger a capacidade das pessoas de dizer coisas como "a imigração afetou minha comunidade. A fábrica da minha cidade hoje emprega pessoas diferentes; eu não consigo um emprego", disse Nick Pickles, um estrategista político.

Quaisquer novas regras também deveriam permitir que vítimas de estupro falem online abertamente sobre sua experiência, disse Harvey. "Não queremos que as pessoas se sintam menos à vontade", disse ela. Dorsey afagou a barba e assentiu.

Na entrevista após a reunião, Dorsey disse que está pensando em mudanças mais amplas, incluindo soluções "sistêmicas", que não são "isoladas". Mas essas conversas, segundo ele, não foram "explícitas". O Twitter está iniciando o processo, afirmou ele. "Temos de conversar mais."


Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

The New York Times
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