Descrição de chapéu
Governo Trump

Minucioso, livro "Medo" descreve governo Trump como bomba-relógio

Em nova obra, Bob Woodward narra pensamentos alheios e retrata presidente como ignorante

Trump franze o lábio e levanta as duas mãos fechadas. Ele usa terno preto, camisa branca e gravata azul. Atrás dele aparecem dois agentes do Serviço Secreto.
O presidente dos EUA, Donald Trump, faz gesto ao chegar a um aeroporto na Pensilvânia antes de celebração em memória ao 11 de Setembro - Kevin Lamarque/Reuters
Patrícia Campos Mello
São Paulo

Se Donald Trump não tivesse um grave déficit de atenção e uma péssima memória, nós estaríamos na Terceira Guerra Mundial. É isso que se depreende do livro "Fear:Trump in the White House" ("Medo:Trump na Casa Branca"), do jornalista Bob Woodward, lançado nesta terça (11) nos EUA e que chega em outubro ao Brasil pela editora Todavia.

No livro, Woodward relata o esforço concentrado de alguns assessores do presidente dos EUA para salvá-lo de si mesmo e impedir que faça grandes bobagens, tais como: sair do acordo comercial com a Coreia do Sul, sair da Otan (a aliança militar encabeçada pelos EUA), assassinar o ditador Bashar al-Assad, da Síria, tuitar mandando todos os soldados americanos saírem da Coreia do Sul, sob pena de deflagrar um ataque de Pyongyang.

Algumas vezes, é bom dizer, eles fracassam —vide a reação de Trump aos protestos em Charlottesville, em que ele igualou manifestantes contrários ao racismo a neonazistas. Ou a tentativa infrutífera de impedir que Trump fique cinco horas por dia assistindo ao noticiário na TV e que use o Twitter como megafone.

Mas, segundo o livro, a incapacidade de Trump de prestar atenção —não lê nem ouve briefings de segurança, esquece ordens que deu, volta atrás em decisões— é que acaba impedindo o presidente de fazer estragos maiores.

Gary Cohn, que foi o principal assessor econômico de Trump, e Rob Porter, ex-secretário pessoal do presidente, rotineiramente retiravam da mesa do republicano documentos com ordens que ele decidia intempestivamente.

Na maioria das vezes, Trump nem reparava no sumiço e nunca mais falava no assunto. Os dois também filtravam que tipo de informação podia chegar até Trump. Era um "golpe de Estado administrativo".

Porter e Cohn, os personagens que mais aparecem no livro, já vieram a público criticar a obra, mas de forma pouco específica. Porter nega que documentos tenham sido "roubados" da mesa de Trump e que ele tenha tentado "proteger" o presidente de certos pontos de vista considerados nocivos, e Cohn diz que o livro não retrata sua experiência no governo.

Woodward também cita em detalhes diálogos surrealistas entre Trump e os assessores.

Ouvindo Gary Cohn falar que as taxas de juros, que estavam baixas e iam começar a subir, Trump teria sugerido:

"Vamos pegar um monte de dinheiro emprestado agora, esperar, vender depois e ganhar um monte de dinheiro".

Cohn, segundo o livro, ficou "chocado com a falta de compreensão básica de Trump" e tentou explicar que, dessa maneira, aumentaria o déficit do governo.

Ao que Trump teria retorquido, ignorando como se produz inflação: "Como assim? É só imprimir dinheiro".

O livro também relata o processo de contratação de Trump —anunciar pelo Twitter o novo ministro ou secretário antes de ele aceitar e se orientar por fatores estéticos. Não gostou, por exemplo, se seu ex-conselheiro de Segurança Nacional H.R. McMaster porque estava vestido como "vendedor de cerveja" e de John Bolton, o atual, por causa de seu bigode.

Não fosse o autor o respeitado Bob Woodward, o leitor poderia achar que ele instalou microfones em todos os participantes. Foi Woodward que revelou, ao lado de Carl Bernstein, o escândalo de escutas Watergate, que levou à renúncia de Richard Nixon em 1974 (a investigação é relatada no livro "Todos os Homens do Presidente", que no Brasil é publicado pelo selo Três Estrelas, do Grupo Folha).

O nível de detalhes em "Fear" é impressionante, além de ele tentar relatar o que os personagens sentiram a cada momento. Para os críticos, é o chamado "jornalismo mãe Dinah", de poderes mediúnicos.

Woodward diz que faz as entrevistas em "deep background" (pode-se usar toda a informação, desde que não se identifique a fonte) e afirma ter "centenas de horas de entrevistas com participantes e testemunhas desses acontecimentos". Ele usou o mesmo método em seus outros livros sobre presidentes —Barack Obama, Bill Clinton e George W. Bush, o que mostra impressionante acesso ao poder.

Em Washington, a "lei de Woodward" costuma ser respeitada: se não quiser ser destruído, sente para falar com Woodward e dê sua versão dos fatos, senão outros darão.

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