Descrição de chapéu

Nobel da Paz é uma resposta a líderes misóginos que normalizam estupro e assédio

Ativista yazidi Nadia Murad e médico congolês Denis Mukwege lutam contra violência sexual

Patrícia Campos Mello
São Paulo

O presidente dos EUA, Donald Trump, acabou homenageado pelo Nobel da Paz, mas não do jeito que ele esperava.

O Nobel para a ativista yazidi Nadia Murad e o médico congolês Denis Mukwege foram uma ótima resposta para líderes de direita que normalizam o estupro e o assédio sexual, como Trump, o filipino Rodrigo Duterte e, sim, o presidenciável Jair Bolsonaro.

Na bolsa de apostas, Trump aparecia ao lado dos líderes Moon Jae-in, da Coreia do Sul, e Kim Jong-un, da Coreia do Norte, como favoritos por suas negociações para a desnuclearização da península coreana.

Seria um Nobel “promessa”, como já ocorreu outras vezes, por exemplo, quando o laureado foi o ex-presidente Barack Obama, em 2009, por seus esforços de aproximação com o Irã e as nações muçulmanas. É um prêmio mais pela intenção do que pelo trabalho realizado, e funcionaria como um estímulo.

Mas o comitê do Nobel preferiu premiar dois indivíduos que desempenham um trabalho mais necessário do que nunca hoje em dia.

O médico Denis Mukwege e a yazidi Nadia Murad, em ilustração divulgada pelo Comitê do Nobel
O médico Denis Mukwege e a yazidi Nadia Murad, em ilustração divulgada pelo Comitê do Nobel - Niklas Elmehed/Nobel Media

Mukwege aparecia em todas as listas de favoritos há anos.

Três anos atrás, escrevi uma coluna sobre ele: “O médico que merecia ter ganhado o Nobel da Paz”.

Mukwege é o maior especialista do mundo em cirurgias para reparar danos internos em vítimas de estupro coletivo. Desde 1998, o hospital que ele fundou na República Democrática do Congo, chamado Panzi, tratou mais de 40 mil mulheres estupradas nas guerras do país.

O estupro é usado como arma de guerra na República Democrática do Congo desde o início da primeira guerra no país, em 1996.

A ONU estima que 200 mil mulheres tenham sido estupradas nos conflitos. Muitas são atacadas de forma tão violenta que sofrem dano permanente nos órgãos internos. Meninas a partir de cinco anos e idosas de 80 anos foram mutiladas, muitas vezes na frente de suas famílias.

O hospital Panzi, fundado com ajuda de uma ONG sueca, fica na cidade de Bukavu e acolhe mulheres de todo o país, que muitas vezes viajam centenas de quilômetros para cirurgias de reconstituição da vagina e aconselhamento psicológico.

Mukwege desenvolveu uma técnica menos invasiva para tratar a fístula vaginal –um rompimento entre a vagina e o ânus ou entre a vagina e a bexiga por causa de estupros violentos ou partos muito difíceis.

Como consequência da fístula, a mulher não consegue segurar a urina ou as fezes e pode ter vários tipos de infecções.

O congolês também implementou um programa de treinamento para enfermeiras e médicos tratarem as vítimas de estupro. O programa inclui desde cirurgias de reconstrução até tratamento para sífilis e HIV, que muitas mulheres contraem nos estupros.

Falando sobre o estupro como arma de guerra, Mukwege afirmou ao diário britânico The Guardian: "É um método de tortura. Uma maneira de aterrorizar a população. Quando vejo alguns dos ferimentos nas mulheres e crianças, chego à conclusão que esse tipo de violência tem pouco a ver com sexo: é uma forma de exercer poder através de terrorismo".

Segundo ele, o mais difícil é quando ele ajuda uma mulher a dar à luz uma menina, resultado de estupro, e anos depois precisa "tratar essa mesma menina, que também foi estuprada."

A outra laureada é Nadia Murad, 25, jovem curda yazidi que foi escravizada sexualmente pelo Estado Islâmico e roda o mundo contando sua experiência e de mais milhares de mulheres que passaram pelo mesmo tormento.

Ela tinha 19 anos quando foi sequestrada no vilarejo de Kojo e passou  três meses presa na cidade de Mossul, sendo estuprada e torturada continuamente.

Estive no Curdistão iraquiano em fevereiro de 2015, e entrevistei as irmãs Sanaa, 21, e Hanaa, 25, que também haviam sido sequestradas no mesmo vilarejo de kojo e mantidas como escravas sexuais em Mossul em uma casa com mais de cem mulheres.

Conversei com muitas jovens yazidis em Duhok, algumas haviam conseguido escapar do cativeiro, outras tinham saído após pagamento de resgate. Eram histórias de mercados de venda de mulheres e violências inimagináveis, com mulheres sodomizadas com objetos, espancadas, estupradas por vários homens ao mesmo tempo.

Em um informativo do "escritório de decretos religiosos", o Estado Islâmico informava que, se a capturada for virgem, o soldado "pode ter relação sexual com ela imediatamente após a captura; se ela não for, o útero dela precisa ser purificado antes" e "é permitido comprar, vender e dar de presente as capturadas, já que elas são apenas uma propriedade".

Os yazidis eram considerados "adoradores do Diabo" pelos extremistas do EI. Eles são curdos, mas não são muçulmanos como a maioria da população curda.

Sua religião mistura zoroastrismo, sufismo (ramo do islã) e cristianismo.

De acordo com o testamento de Alfred Nobel, o vencedor do prêmio da Paz deve ser alguém cujo trabalho estimulou a fraternidade entre as nações, a abolição de exércitos e a promoção da paz.

É bom lembrar o propósito do prêmio, principalmente para esse pessoal que acha que é tudo “chatice de gente politicamente correta”.

E não, não dá para normalizar Duterte, que aludiu em tom de brincadeira ao estupro coletivo e assassinato de uma missionária australiana, sugerindo que, pelo fato de ele na época ser prefeito da cidade onde isso ocorreu, deveria ter podido ser o primeiro a estuprá-la.

Ou Trump, que zombou abertamente da professora Christine Blasey Ford, que contou ter sido agredida sexualmente pelo indicado à Suprema Corte, Brett Kavanaugh, ou Jair Bolsonaro, que disse que não iria estuprar a deputada Maria do Rosário porque ela “não merecia”.

Fica a dica.

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