Primeira Guerra moldou a identidade brasileira, afirma historiador

Para Olivier Compagnon, conflito fez a América Latina se desiludir com a Europa

Comemoração em Paris em 11 de novembro de 1918, dia do fim da Primeira Guerra
Comemoração em Paris em 11 de novembro de 1914, dia do fim da Primeira Guerra - 11.nov.1918/AFP
Rodrigo Vizeu
São Paulo

Desiludidos com a atuação europeia na Primeira Guerra Mundial, os países latino-americanos passaram a buscar ao fim do conflito uma identidade própria, ao mesmo tempo que se aproximaram dos Estados Unidos —fenômeno que aconteceu inclusive no Brasil.  

É esta a visão do historiador francês Olivier Compagnon, que conversou com a Folha em junho de 2014, por ocasião do centenário do início da guerra.

Com o aniversário de cem anos do fim do conflito neste domingo (11), a reportagem original está sendo publicada novamente.

 

Em 1890, o futuro fundador da Academia Brasileira de Letras, José Veríssimo, afirmava: "Estou convencido de que a Europa manterá durante longos séculos, talvez para sempre, sua supremacia". Em 1917, Mário de Andrade expôs descrença na civilização europeia na coletânea "Há uma Gota de Sangue em Cada Poema".

A Primeira Guerra Mundial, entre 1914 e 1918, foi central para essa inflexão, levando a América Latina, com o Brasil incluído, a enfim buscar sua própria identidade. Ao mesmo tempo, passou a se influenciar mais pelos Estados Unidos.

A tese é do livro "Adeus à Europa", do historiador francês Olivier Compagnon, da Universidade Sorbonne-Nouvelle (Paris 3), a ser publicado no Brasil em agosto.

"A guerra levou, entre muitos intelectuais argentinos e brasileiros, a uma verdadeira desilusão com a Europa. Uma Europa percebida desde as independências no século 19 até a 'Belle Époque' como modelo e coração da civilização. Mas que, entre 14 e 18, atinge picos de barbárie e perde boa parte de seu crédito", diz Compagnon à Folha.

Segundo o autor, a Primeira Guerra foi matriz de uma "transformação identitária" que provocou, no caso do Brasil, o movimento modernista, o integralismo e o discurso nacionalista do Estado Novo nos anos 20 e 30.

A obra, feita sobretudo a partir de documentos brasileiros e argentinos da época, reavalia a Grande Guerra como um dos elementos definidores do século 20 latino-americano, enquanto outros trabalhos tendem a focar mais na Segunda Guerra.

BRASIL E O FRONT

O Brasil se manteve neutro na maior parte do conflito e só declarou guerra à Alemanha no fim de 1917, após ter navios torpedeados.

A participação brasileira na guerra se restringiu, sem contar milhares de voluntários e imigrantes que foram lutar por outros países, a 13 pilotos "emprestados" à Força Aérea Britânica e uma missão médica em Paris.

Uma força naval com 1.500 homens que zarpou em julho de 1918 sofreu baixas em uma escala na África devido à gripe espanhola e chegou à Europa um dia antes do fim da guerra, sem combater.

"Não se pode dizer que a América Latina sofreu a guerra na carne. O impacto do conflito foi econômico e cultural", afirma o historiador.

No campo econômico, o Brasil viu seu comércio despencar devido à dificuldade de navegar entre submarinos alemães. Os EUA se estabelecem como parceiro prioritário do país, superando o Reino Unido.

No meio intelectual, antes que as notícias da carnificina levassem a uma condenação geral do conflito, estabeleceu-se no país, e também na Argentina, ampla maioria a favor da aliança entre França, Reino Unido e Rússia. Pesou a francofilia das elites locais da época.

"A Grande Guerra foi percebida como um conflito entre a gloriosa civilização francesa, mãe de todas as liberdades e artes, e a barbárie e o militarismo germânicos", resume Compagnon. Por isso, pouco se falava sobre os fronts russo ou otomano.

Contra a onda pró-França e um noticiário produzido por agências britânicas, americanas e francesas, os imigrantes alemães no sul do Brasil reagiram. Enviaram voluntários para lutar pelo kaiser Guilherme 2º e investiram em uma imprensa germanófona.

A situação piorou com a entrada do Brasil na guerra, com críticas a membros do governo de origem alemã, suspeitas de planos de secessão e proibição de jornais e cerimônias públicas e religiosas em alemão. 

Erramos: o texto foi alterado

Versão anterior deste texto informava anteriormente na legenda da foto de celebração em Paris que a Primeira Guerra terminou em 1914. O texto foi corrigido.

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