EUA fazem acordo para México "segurar" imigrantes, diz jornal

Solicitantes de refúgio teriam de aguardar em solo mexicano enquanto pedido é processado

Joshua Partlow Nick Miroff
Cidade do México

O presidente eleito mexicano, Andrés Manuel López Obrador, fez um acordo com o governo Trump para manter os migrantes que solicitam refúgio nos EUA esperando no México enquanto seus pedidos são analisados, de acordo com o jornal The Washington Post.

Integrantes de uma caravana de migrantes centro-americanos que querem entrar nos Estados Unidos dormem embaixo de uma ponte perto da fronteira entre México e EUA, em Tijuana.
Integrantes de uma caravana de migrantes centro-americanos que querem entrar nos Estados Unidos dormem embaixo de uma ponte perto da fronteira entre México e EUA, em Tijuana. - Lucy Nicholson/REUTERS

Caso confirmado, esse acordo vai contra as regras internacionais para concessão de refúgio e estabelece uma barreira para os migrantes centro-americanos que tentam entrar nos EUA para fugir da pobreza e violência em seus países.

Com o acordo, os EUA conseguem cooperação do México, que tradicionalmente se mostrava relutante em ajudar a resolver uma questão considerada um problema do governo americano. 

Segundo o acordo preliminar, os solicitantes de refúgio terão de permanecer no México enquanto seus pedidos são processados nos tribunais americanos, o que acaba com o sistema de “pegar e soltar” em vigor atualmente nos EUA. De acordo com esse sistema, normalmente os solicitantes de refúgio podem aguardar em solo americano enquanto seus pedidos são processados. Quando são pegos por agentes de imigração, eles fazem o pedido de refúgio, e aí são soltos e instruídos a comparecer diante de um juiz de imigração posteriormente.

“Por enquanto, chegamos a um acordo sobre a política Permaneça no México”, disse Olga Sánchez Cordero, indicada para ser a ministra do Interior no governo de López Obrador, que assume em 1 de dezembro.

Em entrevista ao The Washington Post, ela disse que a política é “uma solução para o curto prazo”. “A solução para o médio e o longo prazo é que as pessoas não emigrem”, afirmou. “O México mantém os braços abertos, mas, imagine, se vier uma caravana atrás da outra, também será um problema para nós.”

Um acordo formal ainda não foi assinado, e funcionários do governo americano afirmam que muitos detalhes ainda precisam ser discutidos. Mas o fato é que o próximo governo do México se mostrou receptivo ao conceito de transformar seu país em sala de espera para o sistema de refúgio dos EUA.

Apesar de temerem que o plano possa não se concretizar, funcionários do governo americano enxergam esse acordo como um avanço que pode desestimular a migração e a formação de caravanas no futuro.

Alarmados com a decisão de Trump de enviar tropas para a fronteira com o México e suas ameaças de fechar os pontos mais movimentados, integrantes do governo mexicano decidiram tomar alguma atitude, depois que as caravanas entraram em território mexicano no mês passado, a despeito dos bloqueios policiais na divisa com a Guatemala.

Um grupo de empresários na cidade afirmou que há milhares de vagas nas linhas de montagem das indústrias locais, as maquiladoras, e convidou os migrantes centro-americanos a trabalhar nas fábricas.

Apesar de os salários serem muito menores do que os oferecidos nos EUA, integrantes do governo mexicano disseram que a oferta de trabalho seria um dos motivos que levaria o Permaneça no México a funcionar.

No país, há cerca de 100 mil empregos disponíveis para solicitantes de refúgio centro-americanos. “Queremos que eles sejam incluídos na sociedade, que se integrem, que aceitem as ofertas de emprego que estamos fazendo”, disse Sánchez Cordero

Estatísticas da imigração americana mostram que cerca de 80% dos centro americanos passam no teste do “medo verossímil”, necessário para que fiquem em solo americano esperando pedido de refúgio ser processado. Mas menos de 10% recebem o status de refugiados no final do processo.

O número de solicitações de refúgio pendentes chegou a 750 mil, o que permite que vários solicitantes que não terão nenhuma chance de conseguir o refúgio fiquem no país vários anos, enquanto esperam para ser recebidos por um juiz.

Essa lacuna permite que milhares de solicitantes de refúgio vivam e trabalhem nos EUA durante anos.

Por outro lado, o acordo “permaneça no México” pode incentivar os migrantes a atravessar a fronteira de forma clandestina, em vez de procurar autoridades nos postos de entrada e solicitar refúgio.

Na segunda-feira, um juiz federal bloqueou a tentativa do governo Trump de proibir aqueles que entram ilegalmente nos EUA de pedir refúgio. No mês passado, o número de pessoas presas tentando entrar ilegalmente ou nos postos de entrada chegou a 60 mil, o mais alto do governo Trump.

O governo do republicano acredita que o acordo com o México é essencial para reduzir os pedidos de refúgio, que quadruplicaram desde 2014.

Funcionários americanos envolvidos na negociação afirmaram que o México não pediu ajuda financeira para implementar o acordo, que pode resultar em grandes despesas para o governo mexicano se os solicitantes esperaram por meses ou anos. Eles descreveram o acordo como uma colaboração.

The Washington Post

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