Descrição de chapéu The New York Times

Redes sociais foram omissas com dados da interferência russa, segundo relatórios

Facebook, Google e Twitter forneceram poucas informações pedidas pelo governo dos EUA

Sede do Google em Mountain View, Califórnia - Stephen Lam - 1.nov.2018/Reuters
Sheera Frenke Daisuke Wakabayashi Kate Conger
San Francisco | The New York Times

​​Quando legisladores pediram ao YouTube, uma unidade da Google, que fornecesse informações sobre os esforços de manipulação praticados pela Rússia, a empresa não revelou quantas pessoas assistiram em seu site aos vídeos que foram criados por "trolls" russos.

O Facebook não divulgou os comentários que seus usuários fizeram quando viram o conteúdo gerado por russos. E o Twitter só deu detalhes vagos sobre as contas controladas por russos que disseminaram propaganda na rede social. 

A morosidade das companhias tecnológicas foi descrita em relatórios que a Comissão de Inteligência do Senado publicou na segunda-feira (17), os mais detalhados até hoje sobre como os agentes russos usaram as redes sociais contra os americanos nos últimos anos. 

Nos relatórios, Google, Twitter e Facebook (que também é dona do Instagram) foram descritas por pesquisadores como tendo "omitido" e "mal representado" a si mesmas e a extensão da atividade russa em seus sites. As empresas também foram criticadas por não entregarem ao Senado conjuntos de dados completos sobre a manipulação russa.

Os dados que eles ofereceram "careciam de componentes básicos que teriam dado uma imagem mais completa e acionável", disse um dos relatórios, que foi escrito pela empresa de cibersegurança New Knowledge, juntamente com pesquisadores da Universidade Columbia e da Canfield Research.

Os estudos renovaram perguntas sobre se as empresas de redes sociais ocultaram dados sobre a atividade russa e se elas estão realmente dispostas a tratar da questão. Depois de ser verificada nos últimos dois anos por distribuir propaganda inflamatória feita por russos aos americanos, algumas das empresas —como o Facebook— prometeram maior transparência.

Mas Renee DiResta, diretora de pesquisa da New Knowledge, disse que embora a cooperação com as companhias tecnológicas tenha melhorado nos últimos três anos havia muito mais que as gigantes do Vale do Silício poderiam fazer para ajudar os pesquisadores a estudar a interferência russa.

"Todo mundo quer qualificar o impacto da eleição presidencial de 2016. Eles querem entender se modificou a eleição", disse ela. "Nenhum conjunto de dados que nos foram dados responde a essa pergunta." 

Os relatórios criticaram especialmente o Google, cujo site YouTube hospedou 1.100 vídeos feitos pela Agência de Pesquisas da Internet, apoiada pelo Kremlin. Os relatórios disseram que o Google não apenas forneceu informação incompleta sobre esses vídeos, como um relatório acusou Kent Walker, diretor jurídico da companhia, de fazer depoimento enganoso ao Congresso neste ano sobre se os vídeos visavam um público determinado.

Quando comparada com a do Facebook e do Twitter, "a contribuição de dados do Google foi de longe a mais limitada em contexto e menos abrangente das três", disse um dos relatórios, de pesquisadores da Universidade de Oxford e da Graphika.

Da informação que as empresas entregaram, algumas vieram em formatos difíceis de analisar. Pesquisadores disseram que em muitos casos a informação foi fornecida em duplicata e triplicata, ou estava incompleta ou corrompida. Isso significou que levou meses para ser catalogada e limpa antes que pudesse ser examinada. 

Em um depoimento, Nu Wexler, porta-voz do Google, disse: "Conduzimos uma investigação profunda em diversas áreas de produto, e fornecemos um relatório detalhado e completo aos investigadores".

O Twitter disse que é comprometido com a transparência e melhorou seu trabalho com os pesquisadores.

"Nosso enfoque singular é melhorar a saúde da conversa pública em nossa plataforma", disse a porta-voz Katie Rosborough.

O porta-voz do Facebook Matt Steinfeld disse que forneceu "milhares de anúncios e peças de conteúdo à Comissão de Inteligência do Senado para revisão e compartilhamos informações com o público sobre o que descobrimos".

Sundar Pichai, CEO do Google, fala no Congresso dos EUA - J. Scott Applewhite - 11.dez.2018/Associated Press

Na segunda-feira em Washington, legisladores atacaram as companhias tecnológicas por esconder o jogo. 

"Durante muitos meses pedimos que as empresas de redes sociais realizassem essa análise profunda sem sucesso, até quando divulgamos a maior quantidade possível de seus dados", disse o deputado democrata Adam Schiff, da Califórnia. Ele disse que a relutância das empresas a examinar profundamente a interferência russa "tornou nosso trabalho muito mais difícil do que deveria ser".

O senador republicano Richard Burr, da Carolina do Norte, que é presidente da Comissão de Inteligência do Senado, disse: "Esses relatórios são prova positiva de que uma das coisas mais importantes que podemos fazer é aumentar a troca de informações entre as empresas de rede social, que podem identificar campanhas de desinformação e os especialistas capazes de analisá-las".

As companhias de rede social foram atacadas por ajudar a disseminar desinformação russa. Facebook, Google e Twitter inicialmente minimizaram ou negaram a atividade russa em suas plataformas. Mas com o tempo ficou claro que a Rússia as havia usado para tentar influenciar os eleitores americanos. 

Os relatórios comentaram como a informação incompleta tinha causado problemas. Como o Google não forneceu dados sobre quantas vezes os vídeos criados por russos foram vistos ou compartilhados no YouTube, os pesquisadores foram obrigados a procurar os vídeos por meio de sites alternativos, para recriar a escala em que a propaganda foi divulgada.

Dados do Google de 2014 a 2018 são "notavelmente escassos", disse o relatório dos pesquisadores de Oxford e da Graphika.

A falha do Facebook em fornecer comentários feitos por usuários sobre as postagens divisoras criadas por russos também dificultou a avaliação de como a propaganda foi recebida, segundo os relatórios.

O Twitter forneceu os dados mais extensos, disseram os pesquisadores, cobrindo de 2009 a 2018. Isso incluiu nomes de contas e informação que não é visível a outros usuários, como os endereços de protocolo da internet, dados de login e localizações de 3.481 contas, que produziram mais de 8 milhões de tuítes. Quatro das cinco contas mais populares no Twitter feitas por russos postaram mensagens visando os afro-americanos.

"O Twitter forneceu um vasto corpo de informação detalhada de contas que a companhia sabia que eram administradas por pessoal da Agência de Pesquisas na Internet", escreveram os pesquisadores.

Mas os dados do Twitter também estavam desorganizados. Os pesquisadores disseram que a companhia dificultou para eles coletar seus próprios dados através de seu site, e repetidamente deixou de trabalhar com eles para rastrear as operações de influência russa nos últimos dois anos.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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