Temos vagas: Canadá quer receber mais 1 milhão de imigrantes até 2021

Governo busca resolver problemas de envelhecimento e de baixas taxas de fertilidade da população com imigração

Danielle Brant
Nova York

Nem parece que eles compartilham a mesma faixa de terra. Enquanto nos Estados Unidos a discussão em torno do muro que o presidente Donald Trump quer construir na fronteira com o México consome o governo, no Canadá a preocupação é bater a meta de adicionar 1 milhão de imigrantes ao país até 2021.

O objetivo foi fixado pelo Parlamento canadense no plano imigratório do país para os próximos três anos. A proposta é receber 330.800 estrangeiros neste ano, 341 mil no próximo e 350 mil em 2021. Esses números incluem vagas para trabalhadores, para reunificação familiar e refugiados –dentre os três grupos, mais da metade dos postos é destinada ao primeiro.

No plano, o Ministério da Imigração, Refugiados e Cidadania explica por que precisa desses imigrantes.

O premiê do Canadá, Justin Trudeau, posa para foto com funcionários do Aeroporto Internacional Toronto Pearson, enquanto esperam a chegada de refugiados sírios - Mark Blinch - 10.dez.15/Reuters

“Com uma população envelhecendo e com baixas taxas de fertilidade, a imigração desempenha um papel importante em assegurar que a população e a força de trabalho do Canadá continuem a crescer”, indica no relatório.

A reposição de trabalhadores é importante, por exemplo, para a sustentabilidade do sistema previdenciário. Em 2012, a relação de trabalhadores por aposentado era de 4,2 para 1. Em 2036, a projeção é que essa proporção caia para 2 para 1.

“O objetivo é manter a qualidade de vida elevada do país. É o segundo maior país do planeta [em extensão territorial] e com uma população muito pequena [cerca de 37 milhões de pessoas], que pode diminuir se não recebermos imigrantes”, afirma Kareem El-Assal, responsável por imigração do centro de pesquisa The Conference Board of Canada.

Segundo ele, a queda da natalidade não era um problema até recentemente, quando os baby boomers, nascidos no pós-Segunda Guerra Mundial, completaram 65 anos ou mais.

“Há estudos que mostram que um quarto da força de trabalho vai se aposentar nos próximos dez anos. Uma forma de suprir essa lacuna é pela imigração”, diz.

A meta elevada não significa, entretanto, que qualquer pessoa possa chegar e ir entrando no país. O Canadá quer um público-alvo bem específico e qualificado. Segundo dados do ministério, 93% dos imigrantes têm conhecimento de inglês ou francês.

“Se olhar para os canadenses com entre 35 e 64 anos, 29% têm educação superior. No mesmo grupo de imigrantes, 40% têm graduação. É um programa muito seletivo”, diz Assal.

 

Esse perfil de imigrante é resultado de uma grande reforma realizada em 1967, quando o país adotou o sistema de pontos. É como uma grande avaliação em que cada estrangeiro que busca emigrar para o Canadá ganha pontos baseados em critérios como fluência de idiomas, educação e capacidade profissional.

E, ao contrário do que acontece nos EUA, a imigração ilegal pela fronteira não é um problema grave no país. A geografia ajuda. O vizinho do sul –no caso, o próprio Estados Unidos— é a maior potência econômica do mundo. Os três lados que restam são margeados por oceanos (Atlântico, Ártico e Pacífico).

“Nunca houve ondas de pressões demográficas de nenhum lado. Hoje é um pouco diferente, porque os EUA estão mudando. Há um consenso favorável à imigração no governo, mas precário”, diz Irvin Studin, presidente do Instituto para Questões do Século 21.

O termo precário usado por Studin ganhou um sentido maior com o lançamento do Partido Popular do Canadá, em setembro de 2018. A legenda, de direita, defende que se limite o número de imigrantes aceitos no país.

O líder do PPC, Maxime Bernier, já deu declarações atacando o “multiculturalismo radical” e defendendo a adoção de uma política externa baseada na premissa “Canadá Primeiro” –troque Canadá por América, e é basicamente a plataforma de governo de Trump.

“O nível de integração desses imigrantes à população canadense é grande, eles vão melhores que os canadenses, não há problema. Se virar um problema, é inventado”, diz Studin. “Há uma pressão pelos imigrantes da América Central que chegam aos EUA, e alguns líderes políticos tentam usar isso para provocar a população.”

Adele Dyck é dona da Star 7 International, consultoria de imigração em Winkler, cidade da província de Manitoba. Na avaliação dela, não há um problema de imigração no país.

“O canadense é um imigrante, além dos nativos, das primeiras nações, são todos imigrantes. É uma terra de imigrantes, são bem-recebidos, isso não é um problema”.

Em Manitoba, ela desenvolveu um projeto-piloto para selecionar famílias para trabalhar na província. As primeiras vieram da Alemanha, por ser um país que investe em trabalhadores industriais –Manitoba tem muitas indústrias.

Atualmente os pedidos vêm de outras partes do mundo. “Agora é mais do Cazaquistão, Ucrânia, Azerbaijão, Rússia e Leste Europeu.”

Ela defende o aumento do teto para entrada de imigrantes. “Precisamos mudar o conceito de crescimento populacional, não apenas para atender o mercado de trabalho. Precisamos de pessoas para sustentar o que temos de bem-estar”, defende.

Para Assal, do Conference Board of Canada, é uma necessidade. “Há espaço para mais aumentos. Pelo início de 2030, vamos ter mais gente morrendo do que nascendo. Vamos ter de aumentar os níveis de imigração.”

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