Descrição de chapéu The Washington Post

Cidade Proibida da China será aberta ao público à noite pela primeira vez em 94 anos

Decisão causou uma corrida de busca por ingressos, que podem custar até R$ 5.550

Ama Fifield
Pequim

A decisão do governo chinês de abrir o Museu do Palácio, um dos principais locais turísticos da Cidade Proibida de Pequim, a visitas noturnas pela primeira vez em seus 94 anos de história causou uma corrida de busca por ingressos notável até mesmo sob os padrões de um país de 1,3 bilhão de habitantes.

Apenas seis mil pessoas, em duas noites, serão admitidas ao local, parte da lista de patrimônio cultural da Unesco, para um show de luzes que celebrará o Festival das Lanternas, sinalizando o final do feriado do Ano-Novo chinês.

Museu do Palácio, um dos principais locais turísticos da Cidade Proibida de Pequim, durante celebração do Festival das Lanternas
Museu do Palácio, um dos principais locais turísticos da Cidade Proibida de Pequim, durante celebração do Festival das Lanternas - Shen Bohan/Xinhua

Os afortunados visitantes poderão descobrir se a lenda de que a Cidade Proibida, que serviu de residência aos imperadores da China entre 1420 e 1912, é assombrada por fantasmas que só aparecem à noite é verdadeira.

Usualmente, apenas visitantes privilegiados —como o presidente Donald Trump em 2017— têm autorização para visitar a Cidade Proibida à noite.

As três mil pessoas que visitarão o local na noite de terça-feira incluem 2,5 mil convidados —trabalhadores modelo, mensageiros, operários dos serviços de saneamento, oficiais, soldados e embaixadores—, acompanhados por 500 pessoas que reservaram ingressos online.

Na noite de quarta-feira, três mil felizardos que reservaram ingressos online serão admitidos. "Os 3.000 visitantes poderão se gabar o ano todo", brincou um usuário do Weibo, uma versão chinesa do Twitter, usando o pseudônimo "um estudante de medicina".

Os ingressos, gratuitos, esgotaram-se em poucos segundos, assim que o site que os oferecia postou a oferta no domingo.

Em seguida, o site caiu devido ao número excessivo de visitas. Um mercado paralelo vibrante não demorou a emergir. Cambistas estavam oferecendo ingressos por até 9.999 yuan —quase US$ 1,5 mil, ou cerca de R$ 5.550— em mercados online.

Os visitantes poderão ver as muralhas do palácio iluminadas por lanternas vermelhas —o que permitirá que vislumbrem como era a chegada do Ano Novo na corte imperial cerca de 200 anos atrás, de acordo com a agência oficial de notícias chinesa Xinhua.

Eles também verão um show de luzes que incluirá a projeção em um telhado do palácio de um longo pergaminho intitulado "Mil Li de Rios e Montanhas", a única obra sobrevivente do pintor Wang Ximeng, da dinastia Song.

Pessoas que escalaram uma colina no parque que fica por trás do Museu do Palácio registraram fotos espetaculares e as postaram na mídia social.

A Orquestra Nacional Tradicional Chinesa e cantores de ópera chinesa se apresentarão durante o show de luzes.

A Cidade Proibida abrigou imperadores das dinastias Ming e Qing, até a abdicação do último imperador chinês, em 1912. Ela foi convertida em Museu do Palácio em 1925.

O festival é parte de um esforço do curador do Museu do Palácio, Shan Jixiang, para tornar a cultura tradicional chinesa mais acessível ao público geral.

O número de visitantes à Cidade Proibida subiu em 70% este ano, ante 2018, com a exposição "Celebrando o Festival da Primavera na Cidade Proibida".

Mais de 80% do palácio está aberto a visitas, agora, ante apenas 30% em 2012. A meta de Shan é que 85% do palácio esteja aberto a visitantes em 2020, quando o 600º aniversário do palácio será celebrado.

Isso pode ser visto como parte de um esforço político mais amplo para promover os sentimentos nacionalistas na China. "A criatividade torna mais jovem o Museu do Palácio, que tem 600 anos, e aproxima a cultura tradicional do público", afirmou o Diário do Povo, o jornal oficial do Partido Comunista chinês.

A TV estatal chinesa vem exibindo documentários sobre as pessoas cujo trabalho é restaurar relíquias culturais dentro da Cidade Proibida, e sobre os tesouros abrigados pelo museu e seu papel no desenvolvimento social da China.

O sucesso do Museu do Palácio oferece um modelo para outros museus, disse Liu Zheng, membro da Academia Chinesa de Relíquias Culturais, em Pequim.

Eles podem aprender como fazer com que suas coleções ganhem ressonância pública e permitam que mais gente aprenda sobre cultura e história, disse Liu ao "Global Times", um jornal nacionalista.

Uma nova área da vasta Cidade Proibida será aberta ao público no ano que vem, com a liberação do acesso ao Jardim de Qianlong, um complexo de 8.000 metros quadrados construído por ordem do quinto imperador da dinastia Qing, entre 1771 e 1776, para servir como residência em sua aposentadoria.

O complexo inclui 27 edificações de projeto extravagante, quatro pátios e elaborados jardins de pedras.

Em um ato de arrogância imperial que viria a se tornar benéfico, Qianlong —que reinou entre 1735 e 1796, o que o torna o soberano mais longevo da China— promulgou uma ordem que proibia futuros imperadores de alterar o complexo.

Isso significa que os edifícios nunca foram alterados. Nos últimos dez anos, eles foram restaurados pelo Fundo Mundial de Monumentos, em parceria com o Museu do Palácio.

A restauração de uma edificação conhecida como Estúdio da Exaustão por Serviço Diligente, que conta com pinturas em seda nos tetos e entalhes de jade e bambu em sua sala de recepção, foi concluída em 2008.

O trabalho nas edificações conhecidas como Alojamento de Bambu Fragrante e Pavilhão do Mais Puro Jade foi concluído em 2016.

"As edificações contêm decoração e mobílias de uma época vista por muitos como um dos períodos de design de interiores mais ousados e extravagantes da história chinesa", afirmou o fundo ao anunciar o esforço.

"As estruturas contam com alguns dos interiores mais significativos, e mais elegantes, a sobreviverem relativamente incólumes da era imperial chinesa".

Porque o jardim passou por um longo período de abandono depois que o último imperador deixou a Cidade Proibida, em 1924, os interiores do século 18 sobreviveram relativamente sem alterações, da época em que foram construídos há mais de 230 anos, afirmou o fundo. 

Tradução de PAULO MIGLIACCI

The Washington Post
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