Com governador acusado de racismo e vice, de abuso, Virgínia mergulha em crise de sucessão

Procurador-geral do estado, terceiro na linha sucessória, também enfrenta acusação de racismo

Danielle Brant
Nova York

Começou com uma notícia que, sozinha, já dava pano para manga: fotos do anuário da turma de 1984 da faculdade de Medicina de Eastern Virginia mostram o governador do estado, o democrata Ralph Northam, pintado de negro e ao lado de um jovem vestido como um membro da Ku Klux Klan, o grupo de supremacistas brancos.

Nos Estados Unidos, o uso de pintura ou maquiagem para escurecer o tom da pele e se passar por negro, em técnica conhecida como "blackface", é condenado por causa do passado de segregação racial do país.

O governador da Virgínia, Ralph Northam, anuncia ao lado da mulher, Pamela, que não irá renunciar, em Richmond - Jay Paul - 2.fev.19/Reuters

A controvérsia teve início quando Thomas Dartmouth Rice, usando esse tipo de recurso, criou um personagem fictício, Jim Crow —que depois batizaria as regras racistas aplicadas no Sul americano para separar negros de brancos após a emancipação dos escravos, em 1863.

Com o movimento pelos direitos civis, no século 20, a técnica de pintura da face para se fingir de negro foi sendo cada vez menos utilizada, pela conotação racista.

Na sexta-feira (1º), a notícia de que Northam, 59, havia sido fotografado não só usando blackface mas ao lado de um colega vestido de membro da KKK reabriu feridas dentro da Virgínia, um dos estados que simbolizou a luta dos Confederados pela manutenção da escravidão na Guerra Civil americana.

Ato um, ainda na noite de sexta-feira: o governador disse que era uma das pessoas da foto e pediu desculpas. Ato dois, sábado: o democrata recuou e afirmou que, na verdade, não era ele, embora tenha admitido que usou a técnica no passado, ao se fantasiar como Michael Jackson.

Vários políticos vieram a público pedir a renúncia do democrata, incluindo aliados, como o ex-governador Terry McAuliffe e legisladores estaduais. Outros membros proeminentes do partido, como as senadoras Elizabeth Warren, de Massachusetts, Kamala Harris, da Califórnia, e Kirsten Gillibrand, de Nova York, se somaram a essas vozes para condenar o colega de legenda.

O procurador-geral da Virgínia, Mark Herring, em Fairfax - Aaron P. Bernstein - 7.nov.17/Reuters

“A história da Virgínia infelizmente é repleta de cicatrizes e feridas não curadas causadas pelo racismo, pela intolerância e pela discriminação”, afirmou o procurador-geral da Virgínia, o também democrata Mark Herring, 57.

“É imperativo que o governador Northam escute e ouça verdadeiramente aqueles que são feridos por essa imagem conforme ele considera o que vem a seguir.”

A ironia das ironias: nesta terça (5), foi a vez de Herring admitir que ele mesmo havia usado a técnica para se passar pelo rapper negro Kurtis Blow em uma festa da universidade quando tinha 19 anos.

“Parece ridículo mesmo ao escrever isso agora”, disse o procurador-geral, em comunicado. “Mas, por causa de nossa ignorância e atitudes simplistas, e porque nós não tínhamos uma compreensão das experiências e perspectivas dos outros, nós nos vestimos e colocamos perucas e maquiagem marrom.”

Segundo Herring, isso ocorreu “uma vez” só. Ele assumiu responsabilidade pelo episódio.

O vice-governador da Virgínia, Justin Fairfax, em Richmond - Drew Angerer/Getty Images/AFP

“Essa conduta claramente mostra que, quando jovem, eu tinha uma falta de consciência cruel e indesculpável e uma insensibilidade à dor que meu comportamento poderia infligir a outros”, disse.

“Foi realmente a minimização de negros e da história horrível que eu conhecia bem mesmo na época.”

Mas a polêmica racial não é a única a tomar conta do noticiário do estado. O vice-governador, Justin Fairfax, 39, também tem sido assombrado por episódios de seu passado.

No domingo (3), ele foi acusado por uma professora da Califórnia de abuso sexual cometido em 2004 durante a convenção nacional do partido, acusação que nega.

Nesta sexta-feira (8), mais uma mulher afirmou ter sido abusada sexualmente por Fairfax. Segundo  Meredith Watson, ele a atacou em 2000, quando os dois eram estudantes de graduação na Universidade Duke, Carolina do Norte.

De novo, nomes fortes do partido, como as senadoras Kirsten Gillibrand e Kamala Harris, pediram que o episódio seja investigado.

Os democratas se veem agora num escândalo de abuso sexual envolvendo um político da legenda, após a pressão exercida no caso das três mulheres que acusaram de assédio o juiz conservador Brett Kavanaugh, indicado pelo presidente Donald Trump à Suprema Corte americana.

A sucessão de escândalos deu um nó na linha de sucessão da Virgínia. Se Northam decidisse renunciar, o cargo de governador passaria para Fairfax. Herring seria o próximo na fila.

Northam tenta se manter no cargo até o fim da Assembleia Geral, seção conjunta da Câmara e do Senado estadual, em 23 de fevereiro. Se renunciar, pode criar incerteza no governo em relação ao orçamento estadual e deixar pendentes várias legislações.

“É uma bagunça”, afirmou o senador estadual Lionell Spruill depois de sair de um encontro com representantes do movimento negro e o governador.

Na manhã desta quinta (7), o presidente Donald Trump escreveu em uma rede social que os democratas estavam “matando o grande estado da Virgínia”. Ele previu ainda que o estado voltaria às fileiras republicanas na eleição presidencial de 2020.

Mas, nesta mesma quinta, os republicanos da Virgínia viram o partido envolvido num caso de racismo. O líder da maioria republicana no Senado, Thomas Norment, teria ajudado a supervisionar um anuário do Instituto Militar da Virgínia que continha fotos racistas e ofensas raciais, entre elas pessoas usando blackface.

Norment, senador estadual desde 1992, foi o editor responsável pelo anuário, publicado em 1968, segundo o jornal The Virginian-Pilot.

Em uma das páginas, um estudante usa blackface em uma festa. Em outra, dois homens de blackface seguram uma bola de futebol americano. Questionado por repórteres, o republicano não quis comentar o episódio.

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