Descrição de chapéu Venezuela

Em carta aos EUA, Maduro compara Venezuela a Iraque e Vietnã

Ditador cita John Kennedy para defender diálogo e diz que país não passa por crise humanitária

O ditador venezuelano Nicolás Maduro durante discurso nesta quinta (7) em Caracas em que criticou a possibilidade de uma intervenção americana no país
O ditador venezuelano Nicolás Maduro durante discurso nesta quinta (7) em Caracas em que criticou a possibilidade de uma intervenção americana no país - Federico Parra - 7.fez.19/AFP
São Paulo

Em uma carta aberta endereçada à população dos Estados Unidos, na qual pediu apoio contra uma intervenção estrangeira, o ditador venezuelano, Nicolás Maduro, comparou a atual situação de seu país com as do Vietnã e do Iraque antes da ação militar americana. 

No texto de três páginas, Maduro citou ainda o ex-presidente americano John Kennedy para defender que a oposição deveria aceitar dialogar com o regime e disse que não existe uma crise humanitária no país.

"Correm os dias que definirão o futuro de nossos países entre a guerra e a paz. Os seus representantes nacionais em Washington querem levar às suas fronteiras o mesmo ódio que semearam no Vietnã", diz a carta divulgada pelo ditador em suas redes sociais na madrugada desta sexta (8).

"Querem invadir e intervir na Venezuela —dizem eles, como disseram então— em nome da democracia e da liberdade. Mas não é assim".    

Segundo o ditador, a decisão de Washington de não reconhecer a legitimidade de seu novo mandato tem a mesma credibilidade que as acusações de armas de destruição em massa feitas pelo governo americano antes da invasão do Iraque, em 2003 —posteriormente, ficou comprovado que Bagdá não tinha esse tipo de armamento. 

"A história de usurpação de poder na Venezuela é tão falsa quanto as armas de destruição em massa no Iraque. É um caso falso, mas que pode ter consequências dramáticas para a região inteira", diz o texto, que, segundo Maduro, será enviado para a Casa Branca.  

Os Estados Unidos —assim como a oposição venezuelana, o Brasil e outros países latino-americanos  e europeus— não consideram Maduro presidente legítimo do país porque não reconhecem a votação que o elegeu em maio de 2018. 

O pleito foi boicotado pela maior parte da oposição e recebeu denúncias de fraudes da comunidade internacional. Com isso, a Assembleia Nacional da Venezuela considerou que a Presidência estava vaga e indicou em janeiro seu líder, Juan Guaidó, para ocupar o cargo de maneira interina até que novas eleições sejam realizadas. Maduro, porém, nega as acusações e diz que a eleição seguiu a Constituição. 

"A Venezuela é um país que por obra de sua Constituição de 1999 expandiu amplamente a democracia participativa e o protagonismo do povo, que de forma inédita é hoje um dos países com o maior número de processos eleitorais nos últimos 20 anos", afirma ele na carta. 

Por isso, de acordo com Maduro, uma intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela não seria legítima e violaria as normas da ONU.

Ele voltou a acusar Washington de planejar uma intervenção militar para ter acesso às reservas de petróleo da Venezuela, as maiores do planeta, e disse que os problemas sociais pelos quais o país passam são culpa das sanções americanas contra o regime. 

"A intolerância política em relação ao modelo bolivariano venezuelano e o apetite por nossos imensos recursos petrolíferos, minerais e outras grandes riquezas impulsionaram uma coalizão internacional encabeçada pelo governo dos EUA para cometer a grave loucura de agredir militarmente a Venezuela com a falsa desculpa de uma crise humanitária inexistente", diz o texto. 

O presidente americano, Donald Trump, já afirmou que não descarta uma intervenção militar na Venezuela e recentemente disse que "todas as opções estão na mesa" contra Maduro. Já o governo brasileiro tem descartado essa hipótese e defende uma saída diplomática para o caso. 

"Hoje a Venezuela está unida em um só clamor: exigimos o fim da agressão que busca asfixiar nossa economia e sufocar socialmente nosso povo, assim como a interrupção das graves e perigosas ameaças de intervenção militar", afirma a carta.  

O ditador diz no texto que a melhor opção para impedir uma ação militar é o início de um diálogo com a oposição e elogia a iniciativa liderada por México e Uruguai que tenta levar os dois lados a negociarem uma saída para a crise

"Sabemos que pelo bem da Venezuela devemos sentar e dialogar, porque se negar a dialogar é escolher a  força como caminho. Lembremos as palavras de John F. Kennedy: 'Nunca negociaremos por medo. Mas nunca teremos medo de negociar'. Terão medo da verdade aqueles que não querem dialogar?", escreveu o ditador. 

Até o momento, Guaidó e o resto da oposição têm afirmado que não aceitam os pedidos de diálogo porque afirmam que Maduro pretende apenas ganhar tempo. Todas as rodadas anteriores de negociação fracassaram. 

Nesta sexta (8), a presidente democrata da Câmara dos Deputados dos EUA, Nancy Pelosi, declarou apoio a Guaidó. "O regime de Maduro, de repressão e empobrecimento em prol de seu enriquecimento pessoal, continua a violar gravemente os direitos humanos, e deve ser condenado por toda a comunidade internacional", disse, em comunicado. 

Na quinta (7), o governo da Colômbia cancelou o acesso facilitado ao país de 300 pessoas consideradas apoiadoras de Maduro. Elas tinham um Cartão de Mobilidade Fronteiriça, que permite transitar entre os dois países de maneira mais fácil.

Os passes "estavam em poder de prefeitos, governadores, deputados, conselheiros e familiares de oficiais, que apoiam a ditadura de Maduro", disse o departamento de migração colombiana, em comunicado.

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