Descrição de chapéu Venezuela

Venezuelanos celebram show, mas temem por operação de entrega de ajuda

Líder oposicionista também participa de concerto; plano é iniciar distribuição às 10h de sábado

Yan Boechat
Cúcuta (Colômbia)

Milhares de pessoas, boa parte venezuelanos, assistiram nesta sexta-feira (22) ao concerto Venezuela Live Aid, organizado pelo bilionário britânico Richard Branson, que contou a participação de dezenas de artistas latino-americanos e do espanhol Alejandro Sanz, em Cúcuta, na fronteira da Venezuela com a Colômbia. 

A apresentação ocorreu na entrada da ponte de Tenditas, um dos acessos à Venezuela, que permanece inativo desde que foi construída, em 2016, por conta das tensões entre os dois países.

Além de cantores conhecidos do público venezuelano e colombiano, também estiveram em Cúcuta nessa sexta os presidentes do Chile, Sebastián Piñera, e do Paraguai, Mario Abdo Benítez. Os dois se encontraram com o presidente colombiano, Iván Duque, e participaram de uma série de eventos relacionados à distribuição da ajuda humanitária enviada pelos Estados Unidos.

O chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, também esteve na cidade colombiana representando o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro.

Para surpresa de todos, Juan Gaidó, reconhecido como presidente interino por 50 países (incluindo Brasil e EUA), cruzou a fronteira colombiana e compareceu ao show —ele diz ter contado com a ajuda de militares venezuelanos na travessia. Não está claro como será sua atuação no início da distribuição da ajuda.

​Apesar do clima festivo desta sexta-feira, há uma tensão palpável aqui na fronteira entre Colômbia e Venezuela.

Os deputados da Assembleia Nacional, opositores a Maduro, que estão no exílio e organizam com as autoridades colombianas e americanas a estratégia de distribuição de quase 200 toneladas de alimentos, remédios e itens de primeira necessidade garantem que conseguirão cruzar a fronteira neste sábado, custe o que custar.

Dizem, também que não contarão com apoio militar para chegar ao território venezuelano com um comboio de cerca de 100 caminhões.

“Nossa proteção serão as pessoas, milhares de venezuelanos vão nos acompanhar, os soldados também estão passando fome, nós vamos conseguir, vamos atravessar”, disse o deputado José Manuel Olivares, um dos principais organizadores da distribuição dos mantimentos a partir da Colômbia.

Os comboios seguirão para as três pontes que ligam Cúcuta à Venezuela —além de uma quarta ponte, ao norte da cidade colombiana— às 10h deste sábado (horário de Brasília).

De acordo com os políticos oposicionistas, os caminhões partirão ao mesmo tempo e serão escoltados por milhares de cidadãos venezuelanos que vivem na Colômbia.

Para evitar tumultos, o governo da Colômbia decidiu fechar a fronteira para pedestres vindos da Venezuela a partir da noite de sexta-feira.

Para o plano dar certo, no entanto, os oposicionistas dependem de um fator sob o qual claramente não têm controle. Ao menos até agora, as Forças Armadas venezuelanas têm se mantido leais ao ditador Nicolás Maduro.

Deserções vêm ocorrendo, mas não no ritmo que tanto os venezuelanos quanto os mais de 50 países que reconheceram Guaidó como presidente interino esperavam.

Por isso, entre a população, há o temor de que ataques como o ocorrido nas proximidades da fronteira com o Brasil na sexta-feira se repitam em intensidade ainda maior, o que poderia deflagrar um conflito de proporções ainda não definidas.

Autoridades venezuelanas que participarão da caravana estudam a possibilidade de estarem vestidos com coletes à prova de bala por baixo das roupas brancas, o uniforme oficial da oposição neste sábado.

Responsável pela Igreja Católica para coordenar a distribuição de alimentos e remédios enviados pelos Estados Unidos na Venezuela, o padre Leward Fernandez, da cidade fronteiriça de San Cristóbal, no lado venezuelano, prefere não aderir à certeza retórica dos políticos oposicionistas venezuelanos.

Ele prefere se fiar nos desígnios divinos quando avalia o que de fato pode acontecer na manhã deste 23 de fevereiro.

“Não podemos garantir que não haverá conflito, o que posso garantir, como cristão, que o que ocorrer será o que Deus acreditar que será o melhor para nós”.

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