Descrição de chapéu New York Times

Mensagens mostram que piloto de Boeing detectou problemas quase imediatamente

Informações de radares revelam ainda que aeronave voava em velocidade fora dos padrões de segurança

Adis Abeba (Etiópia)

O piloto do voo da Ethiopian Airlines que caiu no último domingo na Etiópia enfrentou uma emergência três minutos após a decolagem de Adis Abeba, pedindo permissão para retornar enquanto a aeronave acelerava em uma velocidade anormal, afirmou nesta quinta-feira (14) uma pessoa que revisou as comunicações com a torre de tráfego aéreo.

"Break, break [expressão indicativa de mensagem de emergência], pedido para voltar para casa", afirmou o capitão aos controladores, que tentavam desviar dois outros voos que se aproximavam do aeroporto. "Pedido de vetor para aterrissagem."

Os controladores também observaram que a aeronave, um Boeing 737 MAX 8 novo, estava oscilando para cima e para baixo em centenas de pés —um sinal de que algo estava extraordinariamente errado.

Todos os contatos entre os controladores e a aeronave, o voo ET 302 para Nairóbi, no Quênia, foram perdidos cinco minutos após a decolagem, afirmou a pessoa, que falou anonimamente porque as comunicações não foram oficialmente divulgadas.

Os controladores concluíram, mesmo antes da mensagem do capitão, que ele havia tido uma emergência.

O relato das comunicações lançou luz sobre detalhes arrepiantes sobre os minutos finais antes de o avião cair, matando todos os 157 ocupantes. O acidente, que levou a um veto mundial aos MAX 8, foi o segundo envolvendo a aeronave da Boeing em menos de cinco meses.

Autoridades reguladores dos EUA e do Canadá afirmam que padrões semelhantes nas trajetórias dos dois aviões podem apontar para uma causa comum nos dois acidentes. Mas elas alertaram que nenhuma explicação havia sido excluída ainda e que as aeronaves podem ter caído por motivos diversos.

As revelações sobre os últimos momentos do voo 302 apareceram enquanto pilotos discutiam o que descreveram como uma velocidade perigosamente alta que o avião alcançou após a decolagem em Adis Abeba.

Os pilotos estavam agitados com as informações de radares, disponíveis publicamente, que mostravam que o avião acelerou muito mais do que o considerado padrão, por motivos que continuam obscuros.

"A coisa mais anormal é a velocidade", afirmou John Cox, consultor de segurança de aviação e um ex-piloto de 737. 

"A velocidade é muito alta", disse Cox, que já foi diretor de segurança da Associação de Pilotos de Aeronaves dos EUA. "A pergunta é porquê. O avião acelerou muito mais do que deveria." 

A Ethiopian Airlines informou que a tripulação do voo 302 relatou problemas de controle do avião aos controladores de tráfego aéreo minutos antes de o contato ser perdido. 

O relato da comunicação entre os controladores e o piloto —Yared Getachew, que tinha 8.000 horas de experiência aérea — dá mais informações sobre o que aconteceu na cabine. 

Dentro de um minuto após a saída do aeroporto, Getachew relatou um problema de controle de voo em uma voz calma. Naquele ponto, os radares mostravam que a altitude da aeronave estava bem mais baixa que o conhecido como a altura mínima de segurança durante uma subida. 

Dentro de dois minutos, segundo a pessoa que viu as comunicações, o avião havia subido para uma altitude mais segura, e o piloto disse que queria manter o rumo a 14.000 pés. 

Os controladores notaram então o avião subir e descer em centenas de pés, e pareceu que se movia excepcionalmente rápido. Os controladores começaram então a discutir em voz alta sobre o que estava acontecendo.

Dois outros voos da Ethiopian estavam se aproximando e os controladores, temendo uma emergência no ET 302, deu ordem para que permanecessem em altitude mais alta. Durante a troca de mensagens com os outros aviões, Getachew, com pânico na voz, pediu para retornar. 

O ET 302 estava com apenas três minutos de voo e havia acelerado ainda mais, muito além dos limites de segurança. 

Após ter autorização para voltar, o avião virou à direita e subiu um pouco mais. Um minuto depois, a aeronave desapareceu do radar sobre uma área militar restrita.

O acidente levou a comparações imediatas com a queda do Boeing MAX 8 da Lion Air, na Indonésia. Ambos ocorreram logo após a decolagem e tentaram voltar ao aeroporto. Em ambos os casos, os pilotos tiveram problema para controlar a aeronave.

A possibilidade de que os dois acidentes tivessem causas similares foi elemento central na decisão dos regulares de vetar voos com todos os Boeings da família MAX, que entrou em operação há menos de dois anos.

As investigações sobre o acidente na Etiópia ainda está em seus estágios iniciais, e autoridades dizem que ainda é cedo para tirar conclusões. As caixas-pretas chegaram à França nesta quinta para análise. 

The New York Times

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