No aniversário da anexação da Crimeia, Europa ameaça a Rússia

Parlamento Europeu aprovou pedido para bloquear gasoduto alternativo; Congresso dos EUA também critica russos

Canos usados na construção do gasoduto Nordstream 2 em Kotka, Finlândia - Axel Schimidt - 8.jun.2017/Reuters
Igor Gielow
Sebastopol

​Na semana em que a Rússia celebra o quinto aniversário da anexação da Crimeia, a Europa voltou a ameaçar Moscou com um veto a seu principal projeto energético do momento: o gasoduto Nord Stream 2.

Nesta terça (12), o Parlamento Europeu aprovou um projeto pedindo medidas políticas para bloquear o funcionamento da ligação, que dobrará a quantidade de gás enviado hoje da Rússia para a Alemanha, seu principal consumidor do produto hoje. A Europa depende dos russos: em 2018, 37% do gás que aqueceu casas e moveu indústrias no continente veio de lá, com alemães e italianos consumindo metade do volume.

A moção terá dificuldades de ir em frente, na prática. Primeiro, pelo interesse do maior e mais rico país europeu, a Alemanha, que hoje compra 40% de seu gás de Moscou. Ele chega principalmente pelo Nord Stream 1, que liga a Rússia à Alemanha diretamente de forma submarina, no mar Báltico. Aberto em 2011, o gasoduto começou o processo de independência russa do caminho tradicional pela Ucrânia, por onde vai a maior parte do seu produto para a Europa.

O problema é que russos e ucranianos estão em um estado próximo ao de conflito. Em 2014, Moscou anexou a península da Crimeia, área de maioria russa que havia sido concedida a Kiev nos tempos soviéticos pelo líder Nikita Krushchov —que era ucraniano. A medida foi uma resposta drástica ao golpe que derrubou o governo pró-Kremlin na Ucrânia, fazendo o presidente Vladimir Putin temer a integração do grande vizinho às estruturas econômicas e militares do Ocidente.

O Parlamento regional da Crimeia já buscava declarar independência de Kiev desde o fim da Guerra Fria, quando a região ficou como parte da Ucrânia. Com a crise de 2014, Moscou infiltrou militares secretamente para garantir o controle de pontos estratégicos da península, e os congressistas organizaram um referendo no dia 16 de março. O resultado foi contestado no Ocidente, com 96,7% dos eleitores que compareceram na Crimeia e 95,6% na cidade com status especial de Sebastopol aprovando a volta à Rússia. No dia 17 foi declarada a independência e, no dia 18, Putin assinou a reintegração —ato meramente ratificado três dias depois pelo Legislativo

A reunificação, como o evento é chamado na Rússia, levou o Ocidente a aplicar sanções econômicas ao país de Putin. Na prática, elas não tiveram tanto efeito quanto a queda no preço do petróleo na mesma época —que levou a dois anos de recessão, agora ainda timidamente superados com previsões de crescimento do PIB na casa dos 1,5% a 2%, amparados pela recuperação parcial do valor do barril.

Há dois anos, os EUA também estenderam suas sanções econômicas ao setor energético, ameaçando projetos como o Nord Stream 2, mas não só ele —franceses exploram em conjunto com a russa Gazprom campos de gás no Ártico. Houve grita de empresas europeias sócias de russos em negócios hoje estimados em US$ 25 bilhões, e na prática nada ainda aconteceu.

Politicamente, contudo, Putin está isolado. Mas a diplomacia energética que ele exerce, já denunciada no ano passado pelo presidente americano, Donald Trump, mantém seus canais abertos com os países europeus. É uma dependência mútua: 40% do orçamento russo são bancados por royalties da exportação de petróleo da Rosneft, a Petrobras local, e quase 50% de suas exportações são na forma de hidrocarbonetos (55% delas para os 28 países da União Europeia).

O Nord Stream 2 está em fase avançada e deve estar pronto para operar entre o segundo semestre deste ano e o começo de 2020. Assim como seu irmão mais novo, ele não só dribla a Ucrânia, mas também a região dos Estados Bálticos, os vizinhos mais nervosos com os movimentos geopolíticos da Rússia.

Antigas partes do Império Russo e da União Soviética, Estônia, Letônia e Lituânia concentram significativas minorias russas étnicas, o que faz se ampararem no fato de pertencerem à Otan (aliança militar do Ocidente) como forma de se proteger de eventuais aventuras de Moscou.

Os pequenos países se uniram ao guarda-chuva militar ocidental em 2004, quando Putin ainda estava no primeiro mandato como presidente e tinha uma relação bem mais aberta com o Ocidente. Vendo suas fronteiras militares encolhendo, ele optou por bloquear novas tentativas. Assim, houve a guerra com a Geórgia em 2008 e, em 2014, a reação ao golpe em Kiev, que não só trouxe a Crimeia de volta à Rússia como estabeleceu zonas separatistas no leste ucraniano num conflito que já matou mais de 10 mil pessoas.

Além da pressão energética, os EUA também reafirmaram nesta segunda sua oposição à anexação ao passar um projeto no Congresso determinando a impossibilidade de reconhecimento da Crimeia como parte da Rússia. Na prática a medida é apenas retórica. Como publicou em sua conta no Facebook o presidente do Comitê de Assuntos Internacionais do Conselho da Federação (o Senado russo), Konstantin Kosatchev, “a aprovação não vai ter nem consequência para status real da Crimeia, nem para a situação internacional em torno dela”

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