Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Em jantar com embaixadores árabes, Bolsonaro diz que Brasil está de 'braços abertos'

Proximidade do governo a Israel criou tensões com a comunidade nos últimos meses

O presidente da República, Jair Bolsonaro, durante durante jantar de Confraternização da Federação das Associações Mulçumanas do Brasil
O presidente da República, Jair Bolsonaro, durante jantar de Confraternização da Federação das Associações Mulçumanas do Brasil - Alan Santos/Presidência da República
Talita Fernandes Ricardo Della Coletta
Brasília

Em jantar com embaixadores de países árabes e de maioria islâmica, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que espera que os laços comerciais do Brasil com essas nações se transformem em "laços de amizade, de respeito e de fraternidade". 

"Muito obrigado a todos vocês, e o nosso governo está de braços abertos a todos, sem exceção." 

A fala foi feita em um breve discurso do presidente, que durou menos de dois minutos, em evento organizado pelo Ministério da Agricultura e pela CNA (Confederação Nacional da Agricultura). 

Apesar de curta, a declaração de Bolsonaro é um aceno à comunidade árabe, com quem o Brasil tem fortes laços comerciais, em especial na exportação de proteína animal.

A relação entre o país e o grupo ficou estremecida após aproximação do governo brasileiro com Israel, para onde o presidente viajou na semana passada. Bolsonaro anunciou durante a visita que o Brasil criaria um escritório comercial em Jerusalém, alvo de disputa entre palestinos e judeus

Ainda durante o jantar, Bolsonaro disse que pretende viajar a países árabes, mas não mencionou datas nem para quais. 

"O Brasil é um país onde tem gente do mundo tudo. E aqui todos vivem muito bem, e eu fico feliz, há algum tempo tenho andado pelo mundo e pretendo visitar alguns países dos senhores brevemente. E eu tenho a certeza de que encontraremos brasileiros também na terra dos senhores", afirmou.

O presidente disse ainda que o Brasil prima pela "democracia e pela liberdade" e que com esse sentimento cumprimentava os representantes dos 36 países do mundo árabe e de expressiva população islâmica que compareceram ao evento.

Foram convidados ao todo 41 embaixadores e apenas cinco não compareceram: Emirados Árabes, Benin, Mali, Albânia e Suriname. 

O setor do agronegócio tem forte interesse em que o Brasil mantenha uma boa relação com os países árabes e teme que a aproximação do atual governo com Israel abale as relações comerciais

De acordo com dados divulgados pela CNA, os países islâmicos ocupam o terceiro lugar entre os importadores de produtos do agronegócio brasileiro. As exportações brasileiras para a região somaram US$ 16,4 bilhões em 2018.

O jantar foi agendado justamente para contrabalançar a visita de Bolsonaro a Israel. Durante sua passagem pelo país, o presidente fez diversas manifestações pró-Israel e visitou o Muro das Lamentações ao lado do primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, numa agenda que irritou os palestinos. ​

Quando o jantar começou a ser organizado, não estava prevista a participação de Bolsonaro, mas o ele confirmou presença nos últimos dias.

Desde a campanha, o presidente acena com uma aproximação a Israel e chegou a prometer transferir a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, a exemplo do que fizeram os EUA. 

Embora a abertura de um escritório comercial seja um recuo em relação ao prometido no processo eleitoral, o alinhamento à política israelense no Oriente Médio é motivo de apreensão entre países árabes e islâmicos.  

Bolsonaro chegou a criticar a proximidade da embaixada da Palestina ao Palácio do Planalto, de onde despacha diariamente, mas, desde que assumiu o cargo, não voltou a falar no assunto.

Brasil e Palestina

Após encontro com o presidente Jair Bolsonaro, o embaixador da Palestina, Ibrahim Alzeben, afirmou que o Brasil deve ficar longe do conflito do Oriente Médio.

"Este conflito não é do Brasil. Vamos manter as boas relações com o Brasil e desejamos ao Brasil o melhor, fiquem longe desse conflito, vocês ganharão o mundo inteiro", afirmou Alzeben. 

Diante do silêncio dos brasileiros sobre o tema, Alzeben, que estava ao lado do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e o chanceler, Ernesto Araújo, pediu que o país ficasse longe do conflito.

Ele ainda agradeceu à CNA e à ministra Tereza Cristina (Agricultura) pela organização do jantar.

"[Agradeço] por essa oportunidade única desde que o presidente assumiu para quebrar o gelo depois de uma série de notícias que não fizeram bem para as relações bilaterais", disse o embaixador.

Ele afirmou ainda que o jantar foi muito importante para a comunidade árabe e que as relações da Palestina com o Brasil "vão muito além da carne e do frango".

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