Trajetória de Alan García teve desastre econômico, exílio e volta por cima pelas urnas

Ex-presidente cometeu suicídio nesta quarta-feira, ao receber ordem de prisão pelo caso Odebrecht

Alan García, ao tomar posse de seu segundo mandato, em 2006 - Jaime Razuri - 28.jul.2006/AFP
Lima

Um dos políticos mais experientes do Peru, o ex-presidente Alan García foi encurralado pelas ramificações da rede de corrupção da empreiteira brasileira Odebrecht que derrubaram outros três ex-chefes de Estado peruanos.

García, 69, morreu nesta quarta-feira (17), em consequência de um ferimento a bala na cabeça depois que tentou se matar em sua casa, pouco após ser notificado pela polícia de que seria preso em um caso vinculado ao escândalo da Odebrecht.

O caso Odebrecht foi a primeira vez, em quatro décadas de carreira política, que o líder social-democrata peruano enfrentou problemas legais.

Nascido em Lima, em 23 de maio de 1949, era pai de seis filhos de três relacionamentos diferentes. Tinha um neto. Até o ano passado, vivia entre Lima e Madri, onde sua atual parceira vivia com seu filho mais novo.

García se formou em direito em 1971, em Lima. Depois, estudou em Madri e em Paris. Ao voltar ao Peru, em 1976, filiou-se ao partido Apra (Aliança Popular Revolucionária Americana), de centro-esquerda. 

Carismático e bom de discursos, teve rápida ascensão e foi eleito para o Congresso em 1980. Em 1985, conquistou a Presidência, aos 36 anos. Na época, chegou a ser chamado de "John Kennedy do Peru".

Sua primeira administração, deixou o Peru em uma profunda crise econômica e moral. A política econômica foi marcada por um severo controle do câmbio, pela nacionalização do sistema bancário e por uma inflação anual de mais de 7.600% em 1990.

Este mandato também foi marcado pela violência terrorista do grupo Sendero Luminoso, que atingiu seu auge no período. Seu governo foi acusado de ineficiência e de excessos nos combates, como a formação de esquadrões da morte.

Essas acusações, assim como as denúncias de corrupção que o governo de Alberto Fujimori (1990-2000) contra ele, não deram em nada. 

Perseguido após o autogolpe de Fujimori em 1992, García pediu asilo na Colômbia e depois na França, retornando ao Peru em 2001, quando todas as acusações contra ele estavam prescritas.

García disputou as eleições presidenciais de 2001, quando foi derrotado por Alejandro Toledo. Ele tentou novamente em 2006, numa campanha em que se mostrou mais tranquilo e na qual buscou mostrar que havia aprendido com os erros do passado, como as explosões impulsivas que o levaram a ser chamado de "Cavalo Louco".

Apesar da impopularidade que se seguiu ao desastre econômico de seu primeiro governo, ele conquistou a presidência novamente em 2006, à frente do Apra. 

Sua reeleição foi conquistada em uma disputa contra o nacionalista militar Ollanta Humala, identificado com o então presidente venezuelano Hugo Chávez (1954-2013). Para o escritor Mario Vargas Llosa, García foi o mal menor, explicou, à época, o Prêmio Nobel peruano.

Humalla venceria a eleição seguinte, de 2011, e também seria investigado por corrupção nos anos seguintes. 

"Só Deus e os imbecis não mudam", declarou García para reforçar sua metamorfose, deixando de ser um promotor da intervenção estatal na economia e abraçando o livre mercado.

Em sua segunda presidência, de 2006 a 2011, adaptou-se à atual economia neoliberal, a qual renegara em seu primeiro governo e conseguiu apagar as más lembranças que havia deixado.

O cerco da investigação da Odebrecht começou a diminuir a figura de García no final de 2018, quando ele fracassou em sua tentativa de obter asilo no Uruguai para evitar a investigação da acusação por suspeita de corrupção.

Em novembro, ele foi para a embaixada uruguaia em Lima e pediu asilo alegando perseguição política. Montevidéu rejeitou o pedido e, depois de 16 dias, teve voltar para casa.

Nos últimos meses, as pesquisas o mostravam como o político mais impopular do Peru, com rejeição de 80%. 

García era investigado por dois casos relacionados à Odebrecht. O primeiro está ligado aos aportes de campanha ilegais realizados pela Odebrecht nas eleições presidenciais de 2006, que ele venceu.

Para isso, a empreiteira brasileira teria pago US$ 200 mil. O segundo envolve a licitação das obras da linha 1 do metrô de Lima. 

AFP
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