Descrição de chapéu The New York Times

Como é se tornar católico nos EUA na era das denúncias contra a igreja

Milhares de pessoas na região de Nova York se convertem durante semana da Páscoa

Rick Rojas
The New York Times

Na véspera da Páscoa, um grupo de novos católicos vestidos com túnicas brancas e segurando velas esperava para ser chamado pelo cardeal. Um a um, sob o teto elevado e os vitrais da catedral, ele passou óleo em suas testas e rezou: "Seja selado com o dom do Espírito Santo".

A Igreja Católica Romana é uma instituição corroída por escândalos. Sua condução de uma epidemia de abusos sexuais contra crianças atraiu o escrutínio dos órgãos judiciais e minou a autoridade moral dos bispos, que lutaram para tranquilizar os seguidores cuja confiança na igreja, e neles, se desgastou.

Mas os que estavam na fila não pensavam nisso.

Pessoas que vão se converter ao catolicismo participam de cerimônia na Catedral Basílica do Sagrado Coração em Newark
Pessoas que vão se converter ao catolicismo participam de cerimônia na Catedral Basílica do Sagrado Coração em Newark - Victor J. Blue/The New York Times

"Bem-vindos à totalidade na igreja", disse o cardeal Joseph Tobin, arcebispo de Newark, em Nova Jersey, às 15 pessoas que se convertiam ao catolicismo —chamadas de catecúmenos— depois que elas foram batizadas, confirmadas e receberam a comunhão, sacramentos que solidificam sua entrada na Igreja Católica. "Vocês sempre terão um lar aqui conosco."

O serviço de vigília da Páscoa é quando a igreja recebe novos fiéis. Havia milhares de pessoas na área de Nova York passando pelos mesmos ritos de iniciação que o grupo reunido naquela noite na Catedral Basílica do Sagrado Coração em Newark.

A Arquidiocese de Newark teve mais de mil pessoas recebendo os sacramentos nesta Páscoa, aproximadamente o mesmo número que foram recebidas na igreja por ano na última década.

A Diocese do Brooklyn, onde pouco mais de mil pessoas receberam os sacramentos pela primeira vez nesta Páscoa, também disse que seus números foram equivalentes ao de anos anteriores.

Muitos catecúmenos nesta Páscoa faziam parte de grupos bem superiores a 12 pessoas, agrupadas em grandes igrejas. Mas também houve um serviço com apenas uma mulher, cercada por parentes e amigos, sozinha na paróquia de seu bairro.

Por que se converter, e por que agora? Não é uma opção por capricho. A conversão exige meses de preparativos, mergulhar num grande número de rituais e tradições do catolicismo e na teologia que sustenta tudo isso. Para cada catecúmeno havia um caminho diferente.

Encontrar Deus aos poucos

Muitos dos outros fiéis na Igreja de Santa Rosa de Lima, em Short Hills, Nova Jersey, pensavam que Joanna Huang já fosse católica. Ela frequentava a missa quase todo domingo havia uma década, e levava suas filhas, hoje adolescentes, às aulas de educação religiosa.

Na verdade suas filhas eram católicas porque era a religião de seu ex-marido. Quando eles se casaram, ela prometeu criar seus filhos na igreja. Continuou indo à missa porque era mais fácil do que deixar as meninas e voltar depois para pegá-las.

Huang não era extremamente espiritualizada antes, mas então notou que aguardava com expectativa os sermões e o tempo reservado para refletir. A certa altura, a crença em Deus se instalou, disse ela.

"Não sei se foi cinco anos depois, ou três", disse Huang, 49. "Foi um processo gradual."

Joanna Huang, que decidiu se converter para o catolicismo, em sua casa em Short Hills, Nova Jersey
Joanna Huang, que decidiu se converter para o catolicismo, em sua casa em Short Hills, Nova Jersey - Victor J. Blue/The New York Times

Busca espiritual

Ele conheceu um imã. Depois conheceu um rabino. E conheceu um padre.

O estudante de faculdade de Nova Jersey, de 20 anos, foi criado por pais paquistaneses-americanos que são muçulmanos. Na adolescência, ele abandonou a fé em Deus e se tornou ateu.

Acreditou durante algum tempo que seguir a regra de ouro —tratar os outros como você quer ser tratado— seria suficiente.

Mas suas crenças mudaram. "Você precisa de uma autoridade que é superior a um ser humano", disse.

Ele foi procurar, explorando várias religiões. Para sua surpresa, o catolicismo foi a que mais o atraiu. Ele tinha amigos na igreja, que pareciam desfrutar a vida, segundo disse. E acrescentou: "Eles têm um apoio filosófico vigoroso para suas crenças". (O estudante, que foi apresentado ao repórter por uma autoridade da Arquidiocese de Newark, falou sob a condição do anonimato porque não contou a sua família e conhecidos sobre sua conversão.)

Nas aulas, ele mergulhou em conversas que exploravam ideias de paraíso e inferno, e como é o casamento cristão. "O que realmente significa quando dois corpos se tornam um quando você faz um pacto com seu cônjuge?", perguntou ele.

Após meses de preparação, ele estava pronto.

"É nisso que eu acredito agora", disse. "Posso dizer com confiança que sou um católico, dizer com confiança que quero estar associado à igreja, apesar do estado em que se encontra ou dos problemas. Eu acredito nela."

Aprendendo lições

"Como você reza?", perguntou a irmã Patricia Cigrand à meia dúzia de catecúmenos sentados em semicírculo na biblioteca de uma escola elementar. "Quando você reza? Onde reza?"

Durante meses o grupo se reuniu para as aulas na segunda-feira à noite na paróquia de Santa Bridget da Suécia, em Cheshire, estado de Connecticut.

Alguns estavam lá porque iam se casar com católicos. Michelle Madeux estava casada com um católico havia anos e criava seus filhos na igreja.

Dias antes da Páscoa, Madeux disse que passou pelo processo sem ter certeza se realmente se converteria.

"Estive aberta ao movimento do espírito", disse Madeux, uma enfermeira de 47 anos que foi criada metodista. "Se o espírito me mover neste ano ou se o espírito me mover daqui a cinco anos para me tornar católica, estarei pronta."

Mas essa decisão, segundo ela, não estaria ligada ao escândalo de abuso sexual. "A igreja existe há 2.000 anos", disse ela. "Ela suportou vários escândalos, cruzadas, rebeliões políticas, e continua existindo."

Ela acrescentou: "Há uma presença maior em ação".

Christopher Jones, vendedor de mercado, 35, cresceu na igreja, mas não terminou a série de sacramentos que os jovens católicos geralmente recebem.

Jones disse estar entusiasmado porque grande parte de sua família pretende ver sua iniciação na igreja. Um tio virá de avião de outro estado.

"Tenho certeza que minha mãe vai chorar", disse Jones. "E minha avó."

"Talvez eu chore quando vir você", disse-lhe Madeux.

Afinal, ela o viu dos bancos. Não foi a sua Páscoa da conversão.

Pessoas com uma freira em uma sala
Patricia Cigrand dá aula para pessoas que pretendem se converter nana paróquia de Santa Bridget da Suécia, em Cheshire, estado de Connecticut - Victor J. Blue/The New York Times

Compartilhando a fé

Durante a missa em um domingo, um padre de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro conduziu os convertidos por uma lista de intercessões:

"Para que os que herdarem a terra conheçam um verdadeiro criador de todas as coisas que nos dá o privilégio da espiritualidade e da vida, nós oramos."

"Nós oramos", responderam os catecúmenos.

Entre eles estava Elizabeth Velasquez. Ela bem sabia da confusão que sacudiu a igreja, atraindo críticas e abalando a fé de alguns católicos na instituição. Ela não desanimou. As denúncias eram de muito tempo atrás, disse, e os pecados dos outros não afetavam sua fé.

"O único filho de Deus foi tentado pelo demônio", disse ela em espanhol, "então quem sou eu para julgar outra pessoa?"

O importante para ela era compartilhar a mesma fé que seu marido e seus filhos. Ela tornar-se católica os unificaria, disse. "Eu tenho minha família unida", afirmou. Seu filho estava se preparando para receber a primeira comunhão algumas semanas depois de ela participar do sacramento.

"Estou esperando por esse dia com muita emoção", disse Velasquez, 31, "porque poderei ir até a frente e aceitar o corpo de Cristo."

O chamado

Um canteiro de lírios da Páscoa e cravos cobria o mármore na frente do altar da Catedral do Sagrado Coração, e as fileiras de bancos estavam cheias.

A noite que os catecúmenos esperavam tinha chegado. Mas eles ainda teriam de esperar um pouco, pelas leituras em inglês e depois em espanhol, e uma série de orações.

"Não há atalhos nesta vigília", disse Tobin à congregação. "Esta vigília nos faz esperar muito."

Patricia Cottman passou parte da infância na igreja, mas sua mãe morreu quando ela tinha 10 anos e seu pai quando estava com 14. Patricia tinha cinco irmãos, e todos eles, por um motivo ou por outro, se afastaram do catolicismo.

Sim, Deus a chamou, disse ela. Depois de passar anos em trabalho missionário no exterior, estava pronta para retornar.

"A igreja às vezes pode ser frustrante", disse. Mas acrescentou: "As pessoas são pessoas. Os padres também são pessoas. Há os que são fiéis e há os que podem ter dificuldades. Mas Deus, e sua palavra, é fiel".

Ela correu para os outros perto do altar para tirar uma foto com Tobin. Era quase meia-noite, e a catedral estava vazia, a não ser por eles. Todos se felicitaram e se abraçaram. E juntos começaram a cantar: "Ele se ergueu dos mortos! Aleluia! Aleluia! Aleluia! Aleluia! Ele se ergueu dos mortos!"

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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