Descrição de chapéu The New York Times Venezuela

Documentos da Venezuela acusam ministro de infiltrar membros do Hizbullah no país

Autoridades dos EUA dizem que o grupo ajuda na lavagem de dinheiro das drogas

The New York Times

Ele é um dos mais poderosos líderes do governo da Venezuela, um sujeito linha dura que reprimiu protestos, confrontou rebeldes e era presença constante ao lado de Nicolás Maduro, o ditador do país.

Mas por anos, Tareck El Aissami, um dos confidentes mais próximos de Maduro, também foi alvo de investigações pelo serviço de inteligência venezuelano, por suas conexões com o submundo criminoso.

De acordo com um dossiê secreto compilado por agentes venezuelanos, Aissami e sua família ajudaram a infiltrar militantes do Hizbullah no país, fizeram negócios com um traficante de drogas e protegeram a entrada de 140 toneladas de produtos químicos supostamente utilizados para a produção de cocaína —o que ajudou a fazer dele um homem rico, enquanto seu país decaía ao caos.

Tareck El Aissami durante evento em Caracas em março - Manaure Quintero - 29.mar.2019/Reuters

Com a economia dilacerada e o povo faminto, a Venezuela está em meio a um combate desesperado pelo controle do país. Os líderes oposicionistas estão apelando por um levante, enquanto as Forças Armadas e as autoridades civis se recusam a entregar o poder, e apresentam uma frente em geral unida, usando a força contra os protestos nas ruas.

Mas os documentos do serviço de inteligência abrem uma janela inesperada quanto às divisões e o nervosismo dos serviços de segurança do país, especialmente com relação à corrupção nos níveis mais elevados do governo.

Aissami, que foi vice-presidente e agora é ministro da indústria no governo de Maduro, esta há muito tempo na mira de investigadores americanos. Ele foi indiciado em março por um tribunal federal em Nova York, e dois anos atrás foi alvo de sanções pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, que o acusou de trabalhar com traficantes de drogas.

Ele e Maduro minimizaram as acusações, retratando-as como parte de uma guerra de propaganda empreendida pelo governo Trump para derrubar o governo esquerdista da Venezuela.

Mas o serviço de inteligência venezuelano —que Aissami um dia controlou— vinha lançando alertas sobre ele e sua família há mais de uma década, expressando suas preocupações em um dossiê que inclui documentos, constatações de investigadores e transcrições de entrevistas com traficantes de drogas.

O dossiê, fornecido ao The New York Times por um antigo líder do serviço de inteligência venezuelano e confirmado independentemente por um segundo agente, relata depoimentos de informantes que acusam Aissami e seu pai de recrutar membros do Hizbullah a fim de ajudá-lo a expandir sua rede de espionagem e tráfico de drogas na região.

O Hizbullah é classificado como organização terrorista pelos Estados Unidos, e as autoridades americanas dizem que o grupo está presente há muito tempo na América do Sul, onde ajuda na lavagem de dinheiro das drogas. Em 2008, o Departamento do Tesouro americano decretou sanções contra outro diplomata venezuelano, acusando-o de levantar dinheiro para o Hizbullah e ajudar membros da organização a viajar à Venezuela.

Mas Aissami e seu pai, Carlos Zaidan El Aissami, imigrante sírio que trabalhou com o Hizbullah em visitas ao seu país de origem, também pressionaram pela entrada da organização na Venezuela, de acordo com o dossiê.

Informantes disseram a agentes de inteligência que o pai de Aissami estava envolvido em um plano para treinar integrantes do Hizbullah na Venezuela, "com o objetivo de expandir as redes de inteligência em toda a América Latina e ao mesmo tempo trabalhar com tráfico de drogas", afirma o dossiê.

Aissami ajudou o plano a ir adiante, acrescenta o dossiê, usando sua autoridades sobre vistos de residência para emitir documentos oficiais para militantes do Hizbullah, o que lhes permitiu ficar na Venezuela.

O dossiê não menciona se o Hizbullah estabeleceu uma rede de inteligência ou rotas de tráfico de drogas na Venezuela. Mas o texto afirma que os militantes do Hizbullah se estabeleceram no país com a ajuda de Aissami.

Ele funcionou como facilitador para o submundo também de outras maneiras. Os documentos revelam que seu irmão, Feraz, se associou nos negócios ao mais notório traficante de drogas venezuelano, Walid Makled, e que ele tinha quase US$ 45 milhões depositados em bancos suíços.

Aissami também tinha conexões com o traficante, os documentos informam, apontando que ele havia concedido grandes contratos do governo a uma empresa ligada a Makled.

E enquanto o país decaía no colapso econômico, forçando milhões de pessoas a deixar a Venezuela por conta de uma perigosa escassez de comida e remédios, Aissami enriquecia, de acordo com o dossiê.

Usando um preposto que sofreu sanções dos Estados Unidos, Aissami adquiriu um banco americano, parte de uma construtora, uma participação em um shopping center no Panamá, terrenos para um resort de luxo e numerosos imóveis na Venezuela, entre os quais uma "mansão de milionário" para seus pais.

Aissami não respondeu a pedidos de entrevista encaminhados por escrito, e não existem acusações contra ele na Venezuela, seja por tráfico de drogas, seja por corrupção.

Mas em 8 de março, os Estados Unidos revelaram o indiciamento de Aissami, o que o torna o segundo membro do gabinete de Maduro a ser indiciado por acusações de tráfico de drogas, pelo que se sabe até agora.

Néstor Reverol, o atual ministro do Interior, também foi indiciado. Em 2017, dois sobrinhos da mulher de Maduro, Cilia Flores, foram sentenciados a 18 anos de prisão nos Estados Unidos depois de uma tentativa de traficar 800 kg de cocaína.

O governo americano afirmou que Aissami estava profundamente envolvido no tráfico de narcóticos, ao impor sanções contra ele em 2017, e congelou seus ativos e os de Samark López, o suposto testa de ferro de Aissami. A acusação era de que Aissami supervisionou o transporte e era um dos donos de cargas de narcóticos com peso superior a uma tonelada, administrava uma rede internacional de empresas para ajudar a lavar os lucros das transações ilícitas, e formou uma aliança com Makled.

Mas os procuradores da Justiça americana não revelaram as provas de que dispõem quanto a esse caso.

Os memorandos do serviço de inteligência venezuelano vistos pelo The New York Times oferecem alguns dos detalhes mais reveladores sobre como uma das mais poderosas famílias da Venezuela construiu seu império, e delineiam uma saga familiar que se estende da Síria à Venezuela, do mundo dos narcóticos ao círculo mais próximo do presidente.

Outros ramos da família Aissami também buscaram fazer negócios com Makled.

Em algum momento anterior a 2010, Makled foi abordado pelo irmão de Aissami, Feraz, para que entrasse com uma grande quantia em dinheiro em uma companhia de importação no Panamá, de acordo com um "briefing" de inteligência que faz parte do dossiê. O dinheiro do traficante seria usado para adquirir um petroleiro, que seria usado para um contrato da estatal petroleira venezuelana.

Os dois irmãos Aissami parecem ter se envolvido profundamente no negócio, de acordo com o documento. Ferazes e um sócio eram a face pública da companhia, e Tareck, de seu posto como ministro do interior venezuelano, assinava contratos governamentais lucrativos com eles, entre os quais um contrato assinado sem concorrência para abastecer o sistema carcerário venezuelano, de acordo com o relatório de inteligência.

Uma terceira figura vinculada ao negócio lança suspeita adicional sobre a importadora: López, o homem que as autoridades americanas afirmam ter ajudado Aissami a montar sua rede de tráfico de drogas, e que lhe servia como testa de ferro.

O relatório inclui extratos do banco HSBC sobre contas relacionadas a Feraz, o irmão de Aissami, com saldo total de quase US$ 45 milhões; o relatório vincula esse dinheiro ao traficante Makled.

O HSBC fechou as contas de Feraz depois que Makled foi preso sob acusação de tráfico de drogas, afirmam os documentos de inteligência.

O dossiê se encerra com o depoimento de um informante sobre os elos entre a família e o Hizbullah, delineando os esforços para recrutar militantes capazes de estabelecer uma rede de espionagem e tráfico de drogas na América Latina.

Uma das fontes de informação foi Makled, que descreveu o envolvimento de Aissami no esquema, de acordo com os memorandos.

Essa não foi a única vez que Aissami foi acusado de ajudar o Hizbullah e Makled. Representantes do governo dos Estados Unidos, e alguns venezuelanos, fizeram acusações semelhantes, ainda que Aissami tenha negado envolvimento com organizações militantes no passado, mesmo depois da publicação de reportagens a respeito.

Mas agentes do serviço de inteligência venezuelano acreditavam dispor de provas em contrário. O dossiê termina com referências a fotos de pessoas "que fazem parte da organização terrorista acima mencionada".

Tradução de Paulo Migliacci

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