Descrição de chapéu

Europa resiste ao assalto dos eurocéticos e ultradireitistas

Extremistas não alcançam quórum suficiente para emperrar funcionamento do Parlamento

Clóvis Rossi

eleição para o Parlamento Europeu não permite nem que toque a “Ode à Alegria”, o hino da União Europeia, mas deixou algo menos audível —a marcha fúnebre para o projeto de integração europeu.

Acabou sendo a típica eleição à qual se aplica o chavão “copo meio cheio/meio vazio”. Na verdade, o copo (da integração europeia) ficou dois terços cheio e o copo dos eurocéticos e ultradireitistas ficou apenas um quarto preenchido (grupos mais difusos completam o quadro), levando em conta projeções do site EuropeElects. O suficiente para o líder liberal Guy Verhofstadt proclamar, com certo exagero: “A Europa está de volta. A Europa é popular”.

Marine Le Pen, líder de extrema-direita na França, em Paris - Charles Platiau/Reuters

Não dá para tocar a “Ode à Alegria” porque houve o anunciado crescimento dos grupos extremistas, mas, mesmo assim, ficarão com um quarto das 751 cadeiras, poucas mais ou menos. Não alcançam, portanto, o quórum suficiente (um terço) para emperrar muito o funcionamento do Parlamento (um pouco vão de fato emperrar).

De todo modo, o caos gerado pelo brexit já fez mudar a posição dos eurocéticos: desistiram, em princípio, de propor a saída de seus respectivos países da UE. Querem reformá-la por dentro. Falta saber o que isso significa na prática.

Não cabe, portanto, a marcha fúnebre que alguns analistas, açodadamente, andaram soando, pois dois terços do Parlamento ficaram com famílias políticas formadas por grupos bem europeístas (a direita civilizada, congregada no Partido Popular Europeu, ainda a primeira força, a social democracia, os liberais e os verdes). Mudou, sim, a correlação interna: crescem liberais e verdes, caem (muito) conservadores e socialistas.

Por falar nos verdes, dividiram holofotes com a extrema direita: tornaram-se a segunda força na Alemanha, à frente da centenária social-democracia; na França, são o terceiro grupo, à frente dos conservadores, a formação que dividiu com os socialistas o governo da França nos últimos muitos anos; na Irlanda, conseguiram colocar um dos seus no PE pela primeira vez.

No total, devem ficar com cerca de 70 cadeiras, ante 50 do pleito anterior (2014). Os liberais ganharam 39 posições.

Se o foco ficar em personalidades, a ultradireita tem por que festejar: os partidos de dois de seus expoentes, o italiano Matteo Salvini e a francesa Marine Le Pen, venceram.

São vitórias com diferente tradução em termos nacionais: Le Pen tradicionalmente obtém boas votações em pleitos europeus (repetiu o resultado de 2014, até alguns décimos a menos), mas é irrelevante na Assembleia Nacional francesa. Logo, seu papel interno muda pouco ou nada.

Com Salvini, é o contrário: sua votação mostrou que é o principal nome da política italiana. Ficará tentado a romper com o Movimento 5 Estrelas (mais votado que ele na eleição nacional mais recente) para convocar nova eleição.

Se o resultado for o mesmo do pleito europeu, Salvini pulará de vice-primeiro-ministro para a Presidência do Conselho de Ministros.

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